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Do Irm Renzo Pardi *
Tradução Do Irm Ambrósio Peters**
É freqüente
ouvir-se falar do Templo de Salomão e sempre glorificando
sua grandiosidade, sua beleza, seu fausto. Tal celebração
ao celebérrimo edifício nos levou a percorrer sua
história e avaliar sua real importância artística
para poder confrontar o que em verdade ele representa ou representou
na prática com o que, ao invés, é fruto de
poéticas ampliações.
Estas fantasias podem até ser justificadas se, ao exaltar
o edifício, se pretender atribuir-lhe um sentido simbólico
e alusivo fazendo referência a um templo espiritual que a
alma humana constrói dentro de si. O próprio Cristo,
quando falou de um templo que seria capaz de destruir e reconstruir
em três dias, aludia a um edifício espiritual e não
a um templo material. A esta segunda e mais concreta expressão
queremos dedicar nossa especial atenção neste trabalho,
ainda que sucinto e reduzido.
Salomão reinou depois de Davi, entre os anos 974 e 932 a.C.,
um período de 42 anos; Ele iniciou a construção
do templo no quarto ano do seu reinado, ou seja, entre os anos 970/969
a.C. prolongando-se os trabalhos por sete anos e meio.
Chega-se à conclusão, através da Bíblia,
de que este edifício de culto foi construído em pedra
talhada revestida de uma profusão de materiais de madeira,
ouro e bronze, dando origem a uma magnificência que hoje chamaríamos
bárbara, mas que evidencia aquele sentimento de "honror
ao vazio" característico de uma civilização
ainda nos seus primeiros passos.
O lugar escolhido para a edificação foi a colina denominada
Moriah, sobre a qual se situava a esplanada de Orna (Araunah), o
Jebuseu, lugar onde Davi levantara um altar. Ao término de
uma peste que dizimara o povo de Israel teria; nesse lugar aparecido
um anjo com a espada desembainhada. Referido altar deveria estar
provavelmente sobre a famosa rocha que fica no centro da mesquita
de Omar chamada também de "O Domo da Rocha".
O templo salomônico estava orientado, isto é, com a
fachada voltada para o oriente, e se compunha de três recintos
dispostos consecutivamente, um após o outro, todos com a
mesma largura de 11 metros. Em primeiro estava o vestíbulo
de 5,50 m. de profundidade, a seguir vinha o recinto chamado "Santo",
com 22m. de profundidade e por último o compartimento chamado
"Santíssimo" ou "Santo dos Santos" com
11 m. de profundidade. As alturas eram: do vestíbulo acima
de 16,50 (talvez 22m.), do recinto central 16,50m e do "Santíssimo"
11m. É fácil observar que todas as medidas são
múltiplos exatos de 0,55m., isto é, do côvado,
razão pela qual, por exemplo, o "Santo dos Santos"
era um perfeito cubo de 20 côvados de lado.
Parece que devemos excluir do vestíbulo do templo a rocha
sobre a qual teria aparecido o anjo vingador que deveria estar localizada
diante do templo; o altar erigido por Davi foi substituído
por Salomão pelo altar de bronze dos holocaustos. A divisão
do templo em três vãos se referia expressamente aos
três reinos da natureza, o vestíbulo representando
o mar, o "Santo" a terra e o "Santíssimo"
o céu. O comprimento total do edifício, excluídos
os muros, era de 38,50m o que leva a crer, conforme Ricciotti, que
ele tinha o porte de uma modesta igreja de província, em
nada comparável aos imponentes edifícios contemporâneos
de Tebas e Babilônia.
Externamente foi acrescida a três lados do edifício
uma série de pequenas câmaras de 2,75 m. (5 côvados)
de altura, em número de trinta por plano, e que sobrepostas
em três planos perfaziam um total de 90 câmaras. A largura
delas aumentava paulatinamente com a altura, à medida que
as paredes do templo se adelgaçavam progressivamente para
o alto.
O vestíbulo era precedido de duas colunas de bronze de 18
côvados de alto (9,90m) e mais um capitel esférico,
atingindo uma altura total de 12,65m parecendo-se de certo modo
com um grande taco de bilhar. Os nomes das colunas transmitidos
pela Bíblia são Jakhin e Boaz, mas parece preferível
uma tradição mais antiga que as quer denominadas Jakhun
e Beoz, significando "é estável" e "com
força", assim que o templo seria uma força estável
e inabalável. O vestíbulo continha seguramente o dito
"mar" de bronze apoiado sobre doze bois também
de bronze dispostos em grupos de três orientados para os quatro
pontos cardeais, tratava-se de um enorme recipiente cheio de água
do qual se tirava o líquido para os ritos e as abluções;
havia ainda doze grandes bacias para o transporte da água
movidas sobre carrinhos.
É problemática a colocação no mesmo
recinto do altar dos holocaustos, porque parece difícil que
um vão tão pequeno (5,50 x 11m), dimensões
de um pequeno apartamento residencial, pudesse abrigar tanto material,
sem contar com a multidão de oficiantes que não deveriam
ser poucos. Por este motivo julgamos que o altar dos holocaustos
estivesse fora do templo, inclusive a rocha sobre a qual ele estaria
apoiado; há ainda outros motivos que adiante discutiremos.
O recinto que se seguia ao vestíbulo, o "Santo",
revestido de madeiras de cedro e cipreste e outros materiais preciosos,
continha o altar de ouro para os perfumes e os incensos, a mesa
para os pães de proposição e os dez candelabros
de ouro maciço.
Finalmente vinha o "Santíssimo", a casa de Deus,
onde era conservada a famosa "Arca da Aliança"
constante de uma caixa medindo 0,67 x 1,12m contendo as tábuas
da lei recebidas por Moisés no monte Sinai; ao seu lado havia
duas estátuas de querubins com as asas distendidas; não
se sabe ao certo se eram figuras de animais conforme costumes babilônicos
ou se eram figuras humanas. Parece mais provável a segunda
hipótese porque, se a influência babilônica sobre
Israel ainda estava longe de se fazer sentir, a influência
egípcia ainda perdurava. Nada mais ali se continha.
Ricciotti comparou a arca israelítica com um móvel
egípcio semelhante constante de um cofre, ou baú,
em forma de pequeno templo contendo alguma estatueta ou objeto sagrado.
A arca israelítica era transportável pois possuía
quatro anéis laterais nos quais se enfiavam duas varas de
madeira que permitiam o seu alçamento, enquanto a arca egípcia
estava colocada sobre uma barca sagrada que servia de liteira, também
sustida por duas varas como mostra um relevo em Karnack. Deve-se
acrescentar finalmente que nos templos egípcios, depois das
procissões, a barca com a arca sobreposta era colocada sobre
um pedestal dentro do recinto de Deus. Acrescente-se ainda que antes
da esquematização salomônica a arca de Israel
havia sido trazida a Jerusalém por Davi, e colocada num pavilhão
especialmente construído.
No que concerne à execução dos outros adornos
sagradas do templo diz a Bíblia que os cedros e ciprestes
vieram por mar até Jaffa e que daí foram transportados
até Jerusalém. Os objetos de bronze foram executados
por Huram-abhi (menos bem Hiram Abiff) artista de Tiro, que os fundiu
junto a Sukoth, no vale do Jordão. Contudo a Bíblia
omite o nome do arquiteto, porém disto falaremos depois.
Por hora continuemos com o nosso templo.
O recinto de Deus estava separado da sala central por uma parede
de madeira de cedro na qual se abria uma porta pentagonal, semi-aberta,
mas oculta por um véu que impedia a visão do interior
do "Santíssimo". A porta que ligava a sala central
com o vestíbulo era quadrangular.
Juntos estes três recintos formavam o Templo de Deus. Situava-se
em meio a um pátio descoberto delimitado por um muro e denominado
"átrio interno". Um segundo pátio mais amplo
e situado mais abaixo rodeava o primeiro e se denominava "átrio
externo". O muro do átrio interno tinha três portas
correspondentes a três pontos cardeais e devemos crer que
junto aos muros do segundo e mais amplo pátio houvesse anexas
algumas construções não descritas na Bíblia
que contudo deveriam existir porque na antigüidade qualquer
templo anexava as condições de banco, de depósito
de dinheiro e objetos preciosos, de escola, de biblioteca e de arquivo,
e outras manifestações da vida civil. A área
que fazia parte do esplanada de Orna, o Jebuseu, além da
instalação do Templo foi utilizada também para
edificação do palácio real situado junto ao
ângulo sudoeste da esplanada atualmente denominada Haram-esh-Sharif.
E chegamos ao segundo templo.
No intervalo entre o século X e o século VII assiste
o mundo à ascensão do império assírio-babilônico.
Sabe-se perfeitamente que se tratou de uma civilização
guerreira empenhada na submissão dos povos das terras a sudeste
do mar Mediterrâneo.
No decurso de repetidas guerras os Assírios primeiro, e depois
os Babilônios, conquistaram a Síria, a Palestina e
o Egito. Quando chegou a vez do modestíssimo reino de Judá
a população hebraica foi deportada para as margens
do Eufrates e o templo de que nos ocupamos foi totalmente destruído.
Esta primeira deportação aconteceu em 597 a.C.
Uma segunda deportação veio no ano de 582 e foi mais
limitada. Para o lugar dos hebreus foram deslocadas outras populações
também elas estirpadas de seus locais de origem, Estes povos,
quando os israelitas voltaram posteriormente à pátria,
se comportaram hostilmente em relação a eles considerando-os
intrusos. Da transferência forçada provavelmente se
salvaram os extratos mais humildes da população, como
por exemplo pastores, operários comuns, homens do povo e
outros da mesma natureza.
Do templo certamente restaram visíveis as fundações
e os embasamentos, naturalmente recobertos por vegetação,
entulhos e terra como sempre acontece com as ruínas antigas
desde que o mundo é mundo. Mas cerca do final do VI século
a potência assírio-babilônica foi derrotada pelos
persas de Ciro que em breve consentiria no retorno à pátria
de origem das numerosas populações deportadas para
a Mesopotâmia. Entre estas estavam os israelitas que se organizaram
em uma primeira caravana comandada por Zorobabel e Joshua (Josué
ou Jesus) filho de Josedec, sumo sacerdote. Ela partiu em 537 a.C.,
e a primeira coisa a que se dedicou apenas chegada ao destino foi
a reconstrução do templo. Mas as populações
alienígenas se opuseram a isto firmemente, e os trabalhos
tiveram que ser adiados.
Provavelmente o que se conseguiu então foi apenas reformar
as fundações, fixar os perímetros das bases
e fazer reparos em muros. Depois tudo parou.
Nada se sabe dos 17 anos seguintes, e também Zorobabel desaparece
de cena. Uma segunda tentativa teve lugar em 520 quando, instigados
pelos profetas Ageu e Zacarias, os israelitas voltaram a erigir
o templo; os trabalhos duraram quatro anos e meio e terminaram em
fevereiro de 515. A construção tinha as mesmas medidas
da salomônica, ficando contudo muito inferior na riqueza das
decorações, dos ornamentos e das alfaias. A casa de
Deus estava dentro dos dois conhecidos átrios, ou pátios,
um interno e outro externo, cuja separação se desconhece,
se é que havia delimitações, mas parece que
sim pois um dos tais muros teria sido derrubado em 159 a.C. por
Alcimo. O altar dos holocaustos sem dúvida estava fora porque
em época mais tardia o príncipe Alexandre Janneo foi
perseguido a pauladas pela plebe enfurecida quando se encontrava
junto ao altar em questão, o que seria impossível
se o altar e implicitamente a rocha, estivessem dentro do vestíbulo.
Como a reconstrução recopiou sem dúvida o precedente
templo salomônico, também este devia consequentemente
apresentar análoga disposição como sugerimos.
No "Santíssimo" do templo reconstruído faltou
a arca da aliança e os dois querubins provavelmente queimados
na destruição de 586. Já na ala principal os
dez candelabros foram substituídos pela Menorah, um único
candelabro de sete braços. Neste meio tempo os invejosos
vizinhos tentaram novamente obter dos dominadores persas que pelo
menos os muros externos de Jerusalém não fossem reconstruídos.
Em face disto se providenciou para que os judeus que permaneceram
a serviço do rei da Pérsia tomassem conhecimento da
situação de insegurança a que eram constrangidos
a viver os que retornavam a Jerusalém.
Então o príncipe Nehemias veio a Jerusalém
por volta do ano 445, com a devida autorização régia
para prosseguir na reconstrução do muro em questão,
empresa que foi completada em 52 dias. Durante os trabalhos os operários
permaneciam com a espada na cintura a fim de rebater imprevistos
ataques das infiéis tribos existentes ao derredor.
Era tarefa do escriba Esdras providenciar neste meio tempo a reconstrução
moral, a formação de uma consciência cívica,
ética e religiosa naquela população abandonada.
Nehemias, concluída a obra tornou a Susa no ano de 433; contudo
ainda antes de 424 teve de retornar a Jerusalém para insistir
na ação anterior de valorização moral
e religiosa. Depois disso nada mais se soube dele. Análoga
a sorte de Esdras que repatriado a Susa, teve novamente de apresentar-se
a Jerusalém em 398 a fim de prosseguir na tarefa de ressaneamento
moral; Depois disto também ele desapareceu de cena.
Chegamos assim ao terceiro templo, o de Herodes o Grande, que depois
foi destruído pelos romanos de Tito. Segundo modelo de reconstituição
de Schnick o conjunto dos edifícios herodianos era idêntico
ao do segundo templo, salvo o complemento de um edifício
correspondente a ala meridional, construído precisamente
nesta terceira fase. Os trabalhos foram iniciados nos anos 19/20
a.C., e duraram nove anos e meio.
Algumas variantes foram introduzidas nos variados pátios.
O mais externo foi chamado de "átrio dos gentios",
porque acessível a todos; o mais interno foi dividido em
duas partes, sendo a parte mais distante do templo chamada de "átrio
das mulheres", e a oura outra "átrio dos israelitas".
O pátio no qual se projetava o templo sagrado e o altar dos
holocaustos era denominado "átrio dos sacerdotes",
em substância se pode concluir de varias descrições
que o ordenamento do complexo do templo de Salomão foi sempre
respeitado, salvo ligeiras variantes junto aos pátios.
Não se pode deixar de mencionar um outro templo, aquele no
qual foi posta a Arca da Aliança depois da saída do
Egito e por ocasião do assentamento do povo israelita na
Palestina (Jos. 18,1); Este templo foi chamado no livro de Juízes
(18,31) de "Casa de Deus". No primeiro livro de Reis (1,9),
ele é chamado de "Templo do Senhor", e mais adiante
de Tabernáculo. Deveria tratar-se de uma construção
de pedras porque cerca de 650 a.C. Jeremias assim diz: "ide
a minha casa em Silo e olhai o que fiz por causa da malvadeza do
meu povo de Israel (Jer. 4,12). Isto significa que no tempo de Jeremias
ainda existiam as ruínas desta "Casa de Deus" e
por conseguinte não poderia ter sido uma simples tenda, ou
um pavilhão construído com materiais facilmente perecíveis
como panos ou madeiras, pois neste caso, depois de quatrocentos
anos, tudo estaria integralmente corroído pelas intempéries.
Teria sido uma construção em pedras mas duas formas
e dimensões são imprecisas. Podemos todavia conjecturar
tratar-se de um edifício modesto em parte também destinado,
como se conclui lendo a história de Samuel, a moradia de
uns poucos oficiantes dedicados ao funcionamento do culto, com encargos
parecidos com os de um sacristão, como por exemplo abrir
todas as manhãs a porta do santuário. Resumidamente
se tem a impressão de uma construção reduzida,
austera, e sem qualquer luxo.
Tudo isto considerado não se pode absolutamente comparar
o templo construído por Salomão com os templos egípcios,
dada principalmente a diferença das medidas,. Basta pensar
que o templo de Seti I em Ábidos ocupa uma área retangular
de 180 x 546m compreendidos os dois pátios (a parte coberta
é de cerca da metade do total). O Ramesseum de
Tebas ocupa uma superfície de 167 x 530m (a parte coberta
quase a metade do total). O templo de Amon 90 x 350m (átea
coberta idem);
Outrossim quanto à disposição, que nos templos
egípcios é muito simples e clássica como a
de Khonshu em Kamack, ela consta basicamente de uma dupla colunata
cingindo por três lados um pátio ao qual se segue uma
sala hipóstila de cinco naves separadas por quatro alas de
colunas que se comunica com um santuário dentro do qual se
acha um pedestal sustendo a barca sagrada com a arca do deus; por
trás desse santuário segue um segundo recinto com
colunas e por fim três celas menores. O templo, como descrito,
ocupa uma área de 30 x 75m.
Tal esquema, às vezes mais outras vezes menos complicado,
é o que se apresenta nos numerosos templos egípcios,
compreendidos os supracitados, cujas dimensões assumem uma
escala gigantesca. Assim, por exemplo a sala hipostila do Ramesseum
mede 80 x 120m, podendo portanto conter, ela somente, quatro ou
cinco vezes o templo de Jerusalém.
Por tudo isto, e por faltarem correlações e semelhanças,
é de se excluir também a hipótese de que na
construção do templo salomônico se tenha pretendido
de qualquer modo copiar os modelos arquitetônicos da Assíria
ou da Babilônia.
Também neste caso a diferença de escala é em
muitos casos enorme e a disposição dos ambientes muito
divergente. Nada resta do templo situado sobre Zigurat de sete planos
chamado Etemenanki, a famosa torre de Babel, edificado em Babilônia
como morada do deus Marduk. Ainda em Babilônia o templo de
Ischtar, que remonta ao VII/VI século a.C., tem uma escala
bastante próxima à do templo de Jerusalém,
medindo cerca de 30 x 40 m., mas nada possui em comum com o seu
traçado pois apresenta uma série de câmaras
intercomunicantes dispostas em torno de um quadrado.
Os templos de Korschabat, cidade assíria construída
no século VII a.C. pelo rei Sargão, se desenvolvem
também adjacentes a átrios e pátios, e constam
de uma única nave às vezes prolongada por uma cela
menor. Todavia alguns têm uma disposição em
sucessão, isto é em profundidade, de um vestíbulo,
uma sala e uma cela, ainda que as proporções sejam
diferentes. Sua organização arquitetônica é
bastante próxima a do templo salomônico que contudo
precede cronologicamente estas construções assírias.
Por esta razão se deve concluir que estas copiaram aquela,
e não vice-versa. Mas consideremos que no correr dos séculos
a tipologia de qualquer lugar sagrado tendesse a assumir a forma
de uma nave retangular com um recinto, ou cela, ao fundo. Assim
se pode conjecturar que eventuais semelhanças sejam mais
fruto natural e comum da evolução de um determinado
esquema arquitetônico do que uma obediência estilística.
Mas uma verdadeira semelhança com Jerusalém revela
um outro templo recentemente escavado no norte da Síria.
Aí, entre Antioquia e Alepo, existiu em tempos remotos um
grande principado, o principado de Unqui, do qual foram trazidos
a luz duas cidades, uma das quais deve ter sido a capital. Esta
corresponde ao sítio modernamente conhecido como Tell Ta'Ynat,
sobre o rio Oronte, não longe de Antioquia, e parece tratar-se
da cidade bíblica de Kalno, ou Kinalua.
A outra cidade foi localizada próxima a Tell Ayn Dara. Ai
foi escavado um templo estruturalmente semelhante ao de Salomão,
em relação ao qual as diferenças consistem
na redução a uma galeria com pórtico das noventa
câmaras que rodeavam o perímetro do templo de Jerusalém.
Ainda que a planta tenda ao quadrado foi mantida a sucessão
em profundidade do vestíbulo-sala-cela e acrescente-se que
as duas construções são contemporâneas.
Uma comparação entre as diferentes decorações
e esculturas é impossível por causa das depredações
e do tempo decorrido, circunstâncias que terão destruído
o material ornamental; mas os detalhes do monumento Sírio
revelam suas ligações com a área da cultura
figurativa neo-hitita da Síria do Norte, do início
do primeiro milênio a.C.
O edifício sírio por sua vez apresenta o vão
da porta de entrada tripartido por duas colunas segundo um motivo
que se poderia chamar "alla Palladio". característico
(pela raridade de colunas na arquitetura assírico-babilônica
que reduz bastante a área de caracterização)
da ordem siríaca denominada "Bit Hilani", que segundo
Gurney constava, de uma porta monumental em dois planos com pilastras
a que se chegava por uma escadaria que levava a um átrio
bastante largo mais de pouca profundidade, ou seja como no templo
de Tell Ayn Dara ou como no templo salomônico.
Este parece haver copiado dita estrutura de ingresso.
Um edifício a "Bit Hilani" é o que se encontra
no conjunto do grande complexo real de Korshabat, acima mencionado.
André Parrot diz tratar-se de uma construção
de origem anatólica ou síria do norte, copiada pelos
reis assírios, que
as admiraram no decurso de suas campanhas guerreiras. O nome "Bit
Hilani", adverte Guerney, foi decifrado em uma tabueta de Mary
de 1700 a.C. (Mari era uma cidade antiqüíssima situada
a meio curso do Eufrates). O mencionado edifício de Korshabat
apresenta o aspecto de um pavilhão provavelmente destinado
a funções habitacionais de especial interesse. E semelhante
função devem ter assumido numerosos "Bit Hilani" de Zengirli dos quais Fletcher apresenta desenhos bastante claros.
Justamente o fato de os "Bit Hilani" terem servido de
residência principesca deve ter sido tomado como base para
os projetos de Tell Ayn Dara, isto é, para morada de deus.
O mesmo deveremos afirmar do templo de Jerusalém cujo desenvolvimento
em profundidade, e também em largura, poderá também
ser atribuído a reminiscências egípcias.
A descoberta de Tell Ayn Dara confirma todavia a derivação
norte-síriaca do templo bíblico trazendo consequentemente
a aceitável hipótese, para não dizer certeza,
de que tal monumento tenha sido projetado pelo fenício, ou
sírio-fenício, Hiram Abif.
Assim se poderá perguntar porque a Bíblia se preocupou
em registrar o nome do escultor e omitiu o do arquiteto? A isto
se poderá facilmente responder que até uma época
bastante recente a arquitetura foi considerada como suporte das
artes maiores, isto é, da pintura e da escultura, de modo
que o nome dos arquitetos são apenas vagamente lembrados
até por ocasião da inauguração de grandes
edifícios muito famosos; veja-se o exemplo do Partenon cujos
frisos e relevos todos sabem que são de Fídias, mas
poucos sabem que a arquitetura se deve a Ictino e a Callicrates.
O mesmo vale para outras importantes construções da
antiguidade e também da Idade Média.
Assim, tudo somado, podemos estar seguros de que o arquiteto a serviço
do rei de Israel tenha sido um sírio das dependências
do rei de Tiro, e que a figura do anônimo projetista e do
mencionado escultor coincidem na mesma pessoa de Hiram Abif.
Com este modestíssimo trabalho pensamos ter contribuído
para apresentar uma simples sucessão cronológica de
fatos ligados à arquitetura jerosolimitana, mostrando os
mais recentes achados arqueológicos e as conclusões
mais atuais dos estudiosos da Ordem acerca das particularidades
e da origem histórica do sagrado Templo de Salomão.
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