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Amílcar
Silva Júnior*
A Revolução
Francesa, mudando o que tem de ser mudado, aproxima-se muito da
chamada Inconfidência Mineira. Cronologicamente, a inconfidência
antecipou-se à revolução. Ambas se inspiraram
no iluminismo europeu que rompeu as amarras do pensamento ocidental,
preso aos grilhões obscurantistas da Idade Média.
Da mesma maneira,
os autores da Revolução e da Inconfidência não
sabiam direito quais eram os propósitos que estavam defendendo.
Ambos os movimentos continuam se assemelhando no triângulo
que os representa até mesmo graficamente. No lado francês,
LIBERDADE, IGALDADE ou MORTE. No lado mineiro, LIBERDADE, AINDA
QUE TARDIA.
A Inconfidência
morreu antes de nascer. A Revolução morreu menos de
duas décadas depois da tomada da Bastilha e a decapitação
de vários nobres do antigo regime. Iniciaram o que se prometia
ser uma era democrática, do povo, como o povo, para o povo.
O que se instaurou
a seguir foi aquilo que hoje conhecemos como o terror. Os revolucionários
se auto-destruindo, Paris paralisada, o povo passando fome. Em resumo,
o caos.
Desse caos,
a França somente foi resgatada quando, depois de ter um reino,
entronizou um império. Coroado - proclamado - imperador,
Napoleão logo estabeleceu sua sucessão, igualzinho
acontecia com os reis depostos anteriormente, Luiz XIV, XV e XVI.
Ao Napoleão primeiro (o famoso), sucederam-se vários
Napoleões: Segundo, Terceiro, Quarto e Quinto. O resto é
história contemporânea, na qual o último imperador
francês chamou-se Charles de Gaulle.
Mas, a verdade
é que o mundo ocidental nunca mais foi o mesmo depois da
Revolução Francesa. Seu triunvirato – LIBERDADE,
IGUALDADE ou MORTE (depois FRATERNIDADE) – cravou fundo na
consciência da humanidade, de tal forma que hoje só
sobrevivem os regimes que se apoiam neste tripé. Podem ter
vida às vezes não tão efêmeras como a
do nazismo de Hitler - que prometia um 3o. Reich de mil anos e que
dourou pouco mais de uma década, provocando um horror perto
do qual o horror da Revolução Francesa nada representa
- Podem durar mais, como durou o horror comunista, que praticamente
atravessou quase todo o século. E que também terminou
se autodestruindo.
É curioso
observar que a Revolução Francesa nasceu não
da revolta popular - mas de um grupo de pensadores que começaram
a achar que aquele regime sob o qual viviam, o regime dos reis intocáveis,
não estava certo. Aos poucos foram espalhando suas idéias
que, ao final, incendiaram a indignação contida do
povo. Que reconheceu que sua indignação era certa,
correspondia a um ideal supremo.
Na comparação,
a Inconfidência teve seu herói. a Revolução
Francesa não teve herói. O Brasil bastou-se de heróis
em Tiradentes. A França continua à procura de seus
heróis. Entronizou Napoleão, jamais houve um herói
a respeito do qual se escreveram tantos livros. Porém, cansou-se
dele. Ato contínuo, criou-se outro herói que desiludiu:
Pétain traiu a França, aliando-se aos invasores alemães.
Seu último
herói chama-se Charles de Gaulle, objeto de um culto obsessivo.
Todos os anos é lançado na França pelo menos
um livro sobre sua vida.
Mito ou lenda,
muito pouco se tem escrito sobre a Inconfidência Mineira -
que na realidade nunca existiu, pois o movimento de 1.789 era “conspiração
mineira contra a presença portuguesa no Brasil” –
entretanto, o mito vai se transformando em lenda.
Em mito Tiradentes
já foi transformado. Discute-se se ele tinha barba ou não.
Se ele realmente sabia tirar dentes, se ele era simplesmente um
boquirroto que, de tanto falar aos ventos, terminou jogando por
terra as idéias que seus companheiros mais inteligentes estavam
elaborando. Que teria sido iniciado na maçonaria e que esta
teria salvado-o da forca. Assim por diante.
A própria
existência da inconfidência já foi colocada em
dúvida. Um dos mais conceituados historiadores deste país
nem chaga a citá-la. Os chamados livros didáticos
a reduzem a um movimento sem nenhuma importância – “ricaços
querendo pagar menos impostos”.
Transformados
em lenda tanto Tiradentes como a Inconfidência, eles correm
o mesmo risco que corre o maior artista que este país já
produziu: Aleijadinho. Já agora, há quem informe que
ele nunca existiu, sendo produto do imaginário popular. Algumas
obras suas são permanentente colocadas em discussão,
como acaba de acontecer com uma imagem até pouco tempo atribuída
à ele, retratando Jesus Cristo. o qual por sua vez, é
também colocado em discussão. Será que ele
existiu mesmo ou não passa de um artifício criado
pela necessidade que o homem tem de acreditar em alguma força
espiritual que possa comandar seu destino? |