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Irm Antonio Carlos de Souza Godoi
A fantasia do último minuto
(continuação)
As nações mais poderosas, assentadas em seus tronos,
decidem sobre os destinos das mais pobres e dependentes acenando-lhes
com seu poderio econômico ou com seus mísseis, seus
raios da morte, suas mesquinhas guerras nas estrelas, suas bombas
sujas e limpas, o seu ridículo - mas ainda assim, mortal
- poder.
Vemos, inertes, a propaganda de massa transformar
as pessoas em consumidores compulsivos, com seus reflexos condicionados;
vemos, igualmente, os meios de comunicação social
como a principal escola dos profundos desvios sociais, morais e
comportamentais e deturpadores dos nossos valores centrais, dentre
eles a família.
Olhemos as ruas de nossas cidades interioranas
principalmente, à noite. Vazias! Afinal, é hora da(s)
novela(s) e as pessoas já não se sentam mais à
soleira das portas para conversar. Não têm mais tempo!
Ao longo de sua tormentosa e acidentada história
neste planeta o Homem foi pouco a pouco, mas inexoravelmente, nublando
sua visão da vida confundindo o sentido do viver. Assim,
sua vida acabou se tornando simplesmente uma sucessão de
segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses, anos, décadas
e séculos. Já discute ele até o próximo
milênio como se fosse coisa de somenos importância e
não se dá conta de que o que mais fez, neste milênio,
foi esquecer. Esquecer que teve um princípio e, consequentemente,
chegará a um fim num plano mais alto ou mais baixo, dependendo
do uso que fizer do dom da vida que recebeu por empréstimo
do Ser Supremo.
O Homem passou a correr cada vez mais, física
e espiritualmente falando, para tentar fugir a esse instante final
mas, curiosamente, em direção a esse mesmo instante
pois que insiste em abreviar sua chegada. Na ansiedade de viver
não consegue mais distinguir o exato sentido do termo perdendo,
assim, os pontos de referência pelos quais poderia se orientar.
Perde, em resumo, o talento para a vida e abandona a vocação
para a felicidade aprisionando a vida dentro da pressa, da urgência,
do imediatismo, do instante que vai passar e que, de repente, para
sua consternação, já se tornou ontem! Como,
então, ficar surpreso com a profunda confusão e angústia
que o assalta se quer chegar ao amanhã na frente do
calendário?
O despertador toca, o Homem se levanta e de repente
já está atrasado e já está trabalhando
e já está voltando para casa e já está
jantando e já está dormindo e já está
acordando outra vez porque o despertador está tocando e ele
está atrasado... e está, sempre está, naquele
ponto de transição que se localiza imaginariamente
entre o ontem e o amanhã mas que não é o verdadeiro
hoje. Querendo beber sofregamente apenas o amanhã já
não vive mais o hoje e amanhã vai fazer falta na memória
o ontem... que é hoje!
Vivemos apenas a fantasia do último
minuto, calculando quanto falta para acabar, na contagem regressiva
do tempo e chegaremos ao fim da linha sem termos tido tempo de ter
tempo, tragicamente esquecidos de que a vida não pode ser
plenamente vivida a não ser em pedaços de um dia.
Perdidos em um mundo cujos horizontes e limites nós próprios
derrubamos ou confundimos, não nos damos conta de que a carga
de amanhã, somada à de ontem, é a que nos faz
vergar os joelhos hoje. E a mensagem evangélica é
tão cristalinamente clara a esse respeito: Não vos
inquieteis, pois, pelo dia de amanhã porque o amanhã
cuidará de si mesmo. Basta a cada dia a sua própria
atribulação!
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