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Irm Antonio Carlos de Souza Godoi
A Maçonaria é uma sociedade que
pugna pelo Direito, pela Liberdade e pela Justiça, combatendo
- ou ao menos pregando que assim se faça - os Vícios,
os Preconceitos, os Erros, a Perfídia dos que defraudam e
enganam e a Corrupção dos que minam a vitalidade das
nações. Mais modernamente, a própria defesa
do Meio-Ambiente se agrega às nossas obrigações
morais e éticas.
Dentro dessa perspectiva cada Maçom deveria
ser, sobretudo, um defensor incansável da Justiça
pois dela deveriam emanar todos os preceitos e meios pelos quais
se pudesse levar a cabo, com sucesso, aquela missão. E um
desses preceitos é o da igualdade de direitos, consagrados
na Declaração Universal dos Direitos do Homem. Todavia,
a própria existência desse preceito dá margem
a que a Justiça se veja diante de um paradoxo, raramente
discutido e talvez não completamente entendido.
Uma sociedade que se considere - e que o seja,
realmente - justa procurará sempre a imparcialidade e dará
a cada indivíduo o tratamento justo que merece. A própria
Maçonaria assim deve agir visto que o crescimento de um Irmão
da Ordem supostamente ocorre por merecimento, mais do que pela decorrência
de interstícios. Mas, como avaliar merecimentos? Como fazer
justiça diante da desigualdade? Como ser verdadeiramente
justo em sistemas sócio-político-econômicos
tão diferentes e com valores éticos tão díspares,
como ocorre no mundo de hoje? Como ser-se justo com as necessidades
do ser humano e as outras espécies no meio-ambiente?
Essas são indagações que
desafiam a ação inteligente. A Justiça é
o elo de conexão dos vários aspectos da sociedade
humana - e, dentro desta, de qualquer outra sociedade, como a Maçonaria
por exemplo - que, por sua vez, deverá saber como recompensar
os atos dignos assim como banir definitivamente os atos corruptos.
Mas, será tão simples assim?
Nas sociedades capitalistas os benefícios
florescem sob a premissa de que aqueles que mais realizam mais merecem
receber - a chamada Meritocracia. No entanto, esse sistema de justiça
deixa de ser digno de crédito e de ser aceito quando ignora
que aqueles que mais precisam também devem ter suas necessidades
assistidas. Esse é o Paradoxo da Justiça, cega por
definição e por princípio.
A justiça distributiva enfrenta muitos
dilemas: o de distribuir-se segundo necessidades ou a partir da
avaliação do esforço individual ou da capacidade
de usar a inteligência e a criatividade ou, ainda, do quanto
se gosta do que se
faz. Mas, como ficariam então os menos
dotados de inteligência e os que ainda não conseguem
ter
uma voz ou estão fisicamente impossibilitados? Como dar
a tudo isso um tratamento igualitário e equânime? Qual
o
papel da Maçonaria, enquanto uma sociedade, diante
dessas questões?
Quaisquer que possam ser as respostas, é
fato que não existe uma consciência de que a Justiça
dos Homens, segundo está concebida, é realmente um
mero artifício, um conjunto de critérios fundamentados
em premissas que se acham em franca obsolescência.
Está na hora de se pensar, portanto, numa
Justiça que transcenda essas premissas reinventando os próprios
conceitos e premissas a partir de tudo o que sabemos sobre a vida
em sociedade, recursos, etc. Essa revisão de critérios
poderia, sim, lançar alguma luz sobre como atuarmos em sociedade
para o objetivo maior de bem-estar digno de todos, distribuído
de forma mais democrática.
É preciso se discutir se o conceito de
critérios únicos racionais de Justiça é
suficiente para chegarmos ao objetivo maior e até que onto
estamos escravizados por leis que se arvoram em senso de justiça
artificial, em vez de leis naturais guiadas por valores universais
que orientariam sobre o que é justo em momentos específicos,
ou até que ponto as leis e procedimentos geram uma ordem
artificial que detém o desenvolvimento mais livre e mais
autêntico da sociedade; ou, ainda, até que ponto precisamos
investir mais em valores e numa forma de atuar em sociedade mais
flexível, para que as pessoas atuem conforme o que sentem
- ajuda mútua, compaixão, fraternidade, etc. - a fim
de que o novo conceito de Justiça emerja nessa mesma sociedade.
É forçoso percebermos que o conceito
de justiça contém sutilezas demais para que se tente
legislar sobre todas as suas nuances. Não seria mais simples
se visto pelo ângulo dos valores inerentes a todo ser humano?
Tudo indica, todavia, que diante da globalização
pelos processos econômicos e por meio da Tecnologia da Informação,
um novo código de conduta está emergindo. Esse código
se baseia no sentido da responsabilidade compartilhada por todos
os que estejam interessados em uma faxina ética, não
só a nível local mas a nível global, repensando
a própria vida na sociedade universal.
Quando situações anti-éticas
acontecem em todo o mundo, a nível político, econômico,
social ou organizacional a Tecnologia da Informação
se encarrega de comunicar, quase que instantaneamente, a todas as
nações e povos o que quer que possa estar acontecendo.
e o Brasil, Itália, Japão e os Estados Unidos são
apenas alguns dos exemplos de nações em que questões
éticas e de justiça têm ocupado grande parte
de sua vida sócio-política-econômica nos últimos
tempos.
À medida que todos vão globalmente
tendo acesso aos fatos e ocorrências que envolvem, direta
e indiretamente, os Valores, Princípios e,
principalmente, a Ação de cidadãos
em
várias arenas, vai se criando um sentido de responsabilidade
coletiva.
Quando as nações da Terra ainda
se encontravam num certo estado de isolamento antes da Era da Informação,
ainda era possível se pensar numa Justiça específica
para cada nação ou comunidade. Hoje tudo se torna
mais imediato e complexo quando a comunidade passa a ser todo o
globo terrestre.
O pensamento sistêmico e ecológico
propõe uma nova maneira de encarar a questão da igualdade
de direitos. Não só os seres humanos precisam participar
de uma Justiça mais humana e igualitária. Todas as
espécies da biosfera terrestre estão na rede de interdependência
e precisam ser inseridas no mesmo contexto.
É fundamental, nessa nova concepção
e ótica, que os direitos humanos e também da própria
Natureza sejam colocados como responsabilidade de todos os habitantes
do planeta, para que seja nutrido o novo código de conduta
universal que, gradualmente, emerge no mundo e ao qual cabe à
Maçonaria abraçar e defender com o ardor e a intransigência
que a têm caracterizado ao longo de sua história milenar.
Qualquer ser humano, onde quer que esteja atuando,
faz justiça a si mesmo quando, modestamente, reconhece que
ainda há muito que ele não sabe; há muito o
que aprender. À medida, então, que as organizações
societárias, dentre as quais se insere a Maçonaria,
caminharem para se transformar realmente em verdadeiros locais de
trabalho/serviço e aprendizagem, estarão se abrindo
imensas possibilidades de transformações na própria
cultura humana universal e em seus próprios conceitos sobre
os direitos e a Justiça.
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