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Irm Antonio Carlos de Souza Godoi
De qualquer forma que se desenrole a vida humana,
é inegável que cada um de nós tem: Um Ponto
de Partida, de onde nos sentimos chamados e somos preparados para
enfrentar desafios e provar nossa competência, coragem e dedicação
a valores mais elevados: Uma Grande Transição, de
onde partimos para uma busca ainda mais profunda de transformação
pessoal e espirtual, dispostos a nos libertarmos definitivamente
de crenças e premissas e ir além dos limites conhecidos;
e Uma Síntese, de onde, transformados, estamos capacitados
a ser agentes de transformação do mundo pela nossa
força interior e pela demonstração de nosso
exemplo vivo, ou seja, pela nossa Liderança.
Se olharmos para nossa Sublime Instituição
poderemos perceber que essas três divisões nela existem
concretamente, seja sob o foco do Simbolismo ou do Filosofismo;
todavia, se é relativamente fácil definir essas três
sub-divisões não é tão fácil
vislumbrar sua vivência prática, muito particularmente
a terceira: ser agente de transformação do mundo,
o que implica em Liderança visto que ninguém consegue
transformar uma sociedade, nem mesmo uma parcela dela, sem liderar.
A primeira indagação que explode
em nossas mentes é: como? A velocidade com quer ocorrem as
mudanças no mundo moderno, a vertiginosa sucessão
de Valores e Princípios que, com a mesma rapidez com que
são exaltados nos altares da Humanidade caem no poço
sem fundo do esquecimento, deixam o Homem contemporâneo em
permanente sensação de insegurança e indefinição
e tornam a resposta àquela indagação um verdadeiro
exercício de Fé, mais do que de Lógica.
Entendemos que o exercício de uma liderança
maçônica forte, em um mundo onde nada mais tem a segurança
das coisas perenes, precisa provir da crença de que este
mundo, que recebemos como herança para dele cuidar e transmitir
a nossos filhos, precisa ser um lugar onde cada ser humano seja
chamado a revelar o que tem de melhor, de mais elevado - ao contrário
do que se vê - um lugar justo, onde todos sintam que o que
fazem tem importância e onde essa realização
seja sentida também na alma, mais do que no bolso.
A atuação de um Líder, portanto,
deve ser voltada para a catalização das mudanças
necessárias ao mundo de hoje através de uma verdadeira
Jornada Heróica e, por assim dizer, Mítica pois temos
que nos apoiar em modelos arquetípicos nos quais encontraremos
quais as características que devemos expressar nessa tarefa
que, a cada dia, se torna mais árdua mercê de uma deterioração
espiritual progressiva do Homem e dos Valores mais altos de nossa
espécie.
Vejamos, pois, que características temos que cultivar em
nossos íntimos e expressar nesse papel de Liderança.
A primeira é ser Inocente. Parece um tanto
infantil pensar em um Líder como inocente mas todos, uns
mais e outros menos, convivemos com um inocente dentro de nós.
Mesmo os grandes condutores, os que fazem ou mudam a História
vivem, em diversos momentos de sua existência, um estado de
inocência que os alavanca e os leva à realização
de suas aspirações.
Mas, o que é ser Inocente? É ter
um propósito claro, uma visão forte, acreditando no
futuro como se detivesse todas as garantias do mundo, ainda que
na maioria das vezes tenha apenas uma única coisa: um sonho,
como o teve Martin Luther King.
Foi essa inocência que trouxe Colombo à
América, transformou mascates em milionários, levou
vendedores de laranjas a construirem impérios e fez de um
menino pobre o esportista do século. Cada um desses Líderes
confiou em seu sonho, em sua visão, em seu propósito
e na importância do significado de suas idéias para
si mesmo, para seus semelhantes, sua família e sua comunidade.
Essa inocência, pois, é uma pré-condição
de tudo o que se inicia. Sem a Fé, o Entusiasmo e a Confiança
do Líder Inocente nada poderia ter um início e, muito
menos, um futuro.
A segunda característica é ser Guerreiro.
Embora seja uma característica mais atraente, em princípio,
do que a do Inocente, não se trata do exercício de
atitudes destruidoras e sim da luta por altos ideais, em defesa
da honra e da dignidade humanas, hoje banalisadas pela materialidade.
Vivemos a cultura do Guerreiro e esse arquétipo
se faz necessário para protegermos os princípios que
norteiam nossos ideais, particularmente aqueles de nossa Ordem que
abraçamos e supostamente juramos defender e disseminar todos
os dias de nossas vidas. Significa darmos o melhor de nós
e nos esforçarmos por vencer o mundo com coragem e disciplina
interiores.
O lado luminoso desse arquétipo guerreiro
produz uma força motriz que nos impulsionará e alavancará
no exercício da liderança e nos dará a sabedoria
para conduzir a energia do interior para o exterior em nossa defesa
e de nossos semelhantes. Agindo pelo coração e com
talento reuniremos apoio para a causa que abraçamos e nossa
arma mais poderosa será a mente que sabe auto-disciplinar-se.
A terceira característica de liderança
é ser Servidor, ajudando as pessoas, sejam elas nossos Irmãos
Maçons ou universais, a crescerem e se desenvolverem. Quando
no ambiente maçônico a atitude do Líder Servidor
deve ser a de pacificador, gerando um sentimento de comunidade fraterna,
encorajando o relacionamento cooperativo entre todos os Irmãos
de modo que sintam que pertencem àquela fraternidade, que
são valorizados e que podem ser quem desejam ser.
Se formos verdadeiros Líderes Servidores
nossa atitude
maior deve ser a de Educadores, plenos de serenidade,
sensatez e preocupação com os outros - não
porque deixemos de nos preocupar conosco mesmos, mas porque o cuidado
que temos pelos nossos Irmãos é algo mais forte em
nós do que o instinto da auto-preservação,
é algo que foi impresso em nós pela vontade do Grande
Arquiteto do Universo, por quem nos colocamos a serviço do
altruísmo e do bem comum.
Nossos dons a cultivar, como Servidores, devem
ser a generosidade e a compaixão e nosso fruto a ser distribuído
à Humanidade deve ser uma maior abundância e liberdade
para todos os nossos semelhantes a quem devemos ajudar e servir
por meio do cuidado amoroso e do sacrifício.
A quarta característica é ser Buscador,
atendendo ao chamado que vem do espírito e aspirando alcançar
nossas visões, expressando-as com sabedoria, desbravando
sempre novas fronteiras e transcendendo nossos limites. Num estado
de permanente insatisfação com o mundo como está
devemos procurar novas saídas que garantam a continuidade
das futuras gerações e manter aceso um intenso desejo
de sermos melhores, mais realizados e de inspirarmos aqueles que
eventualmente nos seguirem, na direção de sua própria
iluminação interior.
Dentro de nós deve estar sempre a visão
de um futuro melhor e de um mundo mais perfeito, como preparação
para nosso ingresso na Jerusalém Celeste. E isso não
como um sonho utópico, mas como um desejo de metas voltadas
para o atingimento, neste mundo, de valores mais elevados, de maior
igualdade e justiça social.
A quinta característica é ser Amante,
permitindo que nossa alma manifeste e expresse o Amor que mora dentro
de nós. Nossa alma é nosso potencial humano que, como
a semente pronta a germinar em condições favoráveis,
deve vir à tona e transformar a Vida em uma experiência
dinâmica e significativa. Ela é a dimensão da
consciência que nos liga ao Espírito Criador e nos
dá um senso de significado e valor.
Em nossa atuação deve estar expressa
nossa opção de vida, isto é, o amor pelo que
fazemos e que dá consistência e verdade ao compromisso
que assumimos.
A sexta característica é ser Criador,
estabelecendo uma forte conexão com nossa essência
mais íntima e, a partir desse nível, nos abrindo para
um contato com o Grande Arquiteto do Universo que, por Sua vez,
nos inspira diante das dificuldades e obstáculos à
nossa jornada.
A última característica é
ser Sábio, colocando todo nosso empenho, todo nosso ardor
na dissipação de qualquer tipo de ignorância
ou preconceito. Devemos aplicar nosso conhecimento e transformá-lo
em Sabedoria e nos
dedicarmos à descoberta da Verdade que liberta.
Ao olharmos para as necessidades de nossos irmãos
universais, sejam eles quem forem ou onde estiverem,
devemos ser capazes de influenciá-los e ajudá-los
a se
transformarem pela irradiação de nosso próprio
exemplo vivo, a se tornarem Unos no Todo e serem os artífices
do futuro.
Criar esse futuro é uma tarefa portentosa
e que não pode ser completada em estado de isolamento. É
impossível imprimir o futuro na memória do presente
sem compartilhá-lo, sem torná-lo uma responsabilidade
universal e inalienável.
Que nosso exemplo de Liderança, como Maçons,
portanto, seja um brado de alerta e de chamamento, para que o Homem
acorde para sua nova hora, a hora de transcender os limites do pensamento
que nos convida a um reducionismo de curto prazo. Esta é
a hora de começarmos a formular, decididamente, perguntas
que nos levem em direção ao propósito de estarmos
aqui.
Tudo o que é necessário existe aqui
e agora e esse momento é tudo o que existe. No rápido
lampejo desse momento encontraremos todo o tempo do mundo e através
dele entraremos em contato com a Fonte da Vida que nos guiará
com infalível direção.
O aqui e agora, este momento, é o portal
das estrelas pelo qual atravessaremos, deixando a prisão
da delimitação humana para nos expandirmos na consciência
da percepção divina. É a brecha entre os mundos
do passado e do futuro mas também entre os mundos do tempo
e do espaço, do espírito e da matéria, da forma
e do ser. É uma zona intemporal, a passagem através
da qual iremos participar novamente da aventura divina da Criação. |