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Col Irm Antonio Carlos de Souza Godoi (
* )
A Solidariedade é uma das marcas características
do Homem, que o distingue das demais criaturas porque brota de seu
íntimo e se origina da Lei Natural impressa pelo Criador
em seu espírito. Basta atentarmos para as incontáveis
tragédias que diuturnamente os meios de comunicação
de massa nos colocam diante dos olhos. Em meio aos quadros terríveis,
alguns dantescos, invariavelmente aparecem, como anjos de misericórdia,
aqueles que doam-se a si mesmos para minorar os sofrimentos alheios,
às vezes sob o risco ou até mesmo com o sacrifício
de suas próprias vidas.
Se formos ao dicionário, encontraremos como definição
que Solidariedade é: Adesão ou apoio, no sentido
moral, à causa, empreendimentos, princípios, etc.,
de outros de tal forma que um indivíduo se vincula à
vida, aos interesses e às responsabilidades de um grupo social,
de uma nação ou da humanidade como um todo.
Se nos voltarmos, agora, para a instituição maçônica
veremos que nela a Solidariedade constitui uma das colunas mestras
de sua construção, dada a universalidade da Ordem.
É por meio desse sentimento que nos unimos, em espírito,
a outros Irmãos Maçons, inclusive àqueles de
cuja existência sequer temos conhecimento mas com quem, a
cada dia, do meio-dia à meia-noite, trabalhamos espiritualmente
para construir a Paz e erguer o Templo da Fraternidade Universal.
Como diz a Quinta Instrução de Aprendiz, a Solidariedade
é o laço que nos une e nos fortalece na luta incansável
e ininterrupta que devemos manter contra os inimigos magnos da felicidade
do Homem. Mas, ainda que exaltada dentro da Ordem, ela não
pode ser praticada apenas dentro do universo maçônico
e deixada de lado na vida profana. Isso seria uma incoerência,
porque antes de sermos Maçons somos irmãos universais,
independente de nossas nacionalidades, cor, crença política
ou religiosa.
Se um semelhante nosso sofre, quem quer que seja ou onde esteja,
nossa natureza comum de filhos do mesmo Pai deveria nos irmanar
nesse mesmo sofrimento. Mas, é justamente aí, na visão
do sofrimento que se tornam nítidos os dois lados contraditórios
do problema: Luz e Trevas. Por que, diante de tragédias dos
últimos anos, como as de Biafra, Ruanda, Angola, Zaire, África
do Sul, Bósnia, para citar apenas algumas das mais cruentas,
se vemos exemplos da mais exaltada Solidariedade de um lado, de
outro também se destaca uma fria Indiferença de tantas
pessoas e mesmo nações?
O monstro de crueldade, Stalin, que durante tantos anos dirigiu
com mão de aço a União Soviética, disse
certa vez que uma morte é tragédia, mas milhões
são apenas uma estatística e a realidade do
mundo de hoje continua dando razão àquela afirmação
de crueza inaudita. Quando o sofrimento se torna, apesar de concreto,
uma mera abstração que desaparece ao apertar do botão
da televisão ou do fechamento da página do jornal
nós nos separamos dele, deixando de vê-lo sob a ótica
da Lei Natural. Não nos irmanamos, pois, não o sentimos
como nosso também; nos alienamos dele, simplesmente.
Ao longo de minha vida, tanto profana como maçônica,
tive a oportunidade de me deparar com inúmeras abordagens,
textos e concepções sobre a Solidariedade, alguns
superficiais, outros por demais filosóficos mas, alguns também
de conteúdo maravilhoso e inspirador. Dentre esses, lembro-me
bem deste que se segue e que reproduzo na esperança de que
sirva para alimentar a chama da Fraternidade e da Solidariedade
em nossos corações, única forma de nos sentirmos
verdadeiramente unidos e irmanados com todos os que sofrem e choram
na solidão gelada em que são colocados pelo desamor.
Um discípulo chegou-se a seu Mestre e perguntou-lhe:
- Mestre, qual a diferença entre o Céu e o Inferno?
Respondeu-lhe o Mestre:
- Vi um grande monte de arroz, cozido e preparado como alimento.
Ao redor dele estavam muitos homens famintos. Eles não podiam
se aproximar do arroz, mas possuíam longos palitos de dois
a três metros de comprimento. Pegavam, é verdade, o
arroz mas não conseguiam levá-lo à própria
boca porque os palitos eram muito longos. E assim, famintos e moribundos,
embora juntos, permaneciam solitários curtindo uma fome eterna
diante daquela inesgotável fartura.
Isso era o Inferno.
- Vi outro grande monte de arroz, cozido e preparado como alimento.
Ao redor dele estavam muitos homens famintos, mas cheios de vitalidade.
Eles não podiam se aproximar do arroz, mas possuíam
longos palitos de dois a três metros de comprimento. Pegavam,
é verdade, o arroz mas não conseguiam levá-lo
à própria boca porque os palitos eram muito longos.
Mas, com seus longos palitos, ao invés de levá-los
à própria boca serviam-se uns aos outros o arroz e
assim saciavam sua imensa fome, numa grande comunhão fraterna,
juntos e Solidários.
Isso era o Céu.
Reflitamos um pouco sobre o que essa parábola oculta em
sua linguagem figurada e se o mundo hoje não é, em
grande parte, aquele primeiro grupo de homens, juntos mas solitários,
padecendo de fome diante da fartura. Ao depararmos com o sofrimento,
o que sentimos? O aguilhão da culpa, por nada fazermos, ou
uma identificação?
De nada serve racionalizar o problema, dizendo: Não
posso fazer nada. Esse problema está muito longe e não
tenho como ir até lá ou Faço o
que posso com quem está mais próximo de mim e sempre
contribuo com o Tronco de Beneficência de minha Loja.
Pode-se fazer mais, sim.
Pode-se estender a ponte e compartilhar o sofrimento em espírito.
Pode-se erguer os olhos para o Senhor da Compaixão e orar,
em união com todo o sofrimento do mundo.
Se sou Solidário apenas porque uma regra me diz que devo
sê-lo que mérito há nisso, se até uma
criança é capaz de seguir regras, ainda que não
saiba discernir o seu conteúdo? Se sou Solidário apenas
com quem está mais próximo de mim, o que estou realizando
se até mesmo os animais são capazes de defender os
seus?
Cada um de nós recebeu, embutida no espírito pelo
Criador, a semente da Solidariedade. Ela está dentro de nós
mas não lhe damos um solo, não a irrigamos, não
nos tornamos jardineiros. Carregamos a semente adormecida, encerrada
em uma cela; não a colocamos na terra. Temos medo que ela
morra, o que é verdadeiro num certo sentido pois morrer ela
precisa para que a árvore nasça. Cada desabrochar
é morte e nascimento e a semente tem que morrer mas é
precisamente por isso que temos medo, porque protegemos a semente.
Diz uma história oriental que certo rei tinha três
filhos, todos fortes e talentosos e estava indeciso e confuso quanto
a qual deles entregar o reino. Assim, chamou um Mestre e perguntou-lhe
o que deveria fazer para resolver o impasse. O Mestre aconselhou-o
a sair em uma longa viagem deixando com cada filho uma determinada
quantidade de sementes de uma flor muito rara e dando-lhes instruções
para que as preservassem o mais cuidadosamente possível,
eis que suas vidas dependeriam disso. Satisfeito com o conselho
do Mestre, o rei procedeu como lhe fora dito e partiu em viagem.
O filho mais velho era mais experiente nas coisas do mundo e calculou
que o melhor seria guardar as sementes a salvo e assim poder devolvê-las
a seu pai, intactas. Assim pensou e assim fez. Colocou-as em um
cofre e pendurou a chave em uma corrente que levava permanentemente
presa ao pescoço.
O segundo filho calculou que sendo as sementes de uma flor muito
rara, deveria vendê-las e fazer um bom dinheiro. Quando o
pai retornasse, compraria outras sementes novas pois ninguém
saberia dizer a diferença. Assim pensou e assim fez.
O terceiro filho era menos experiente nas coisas do mundo e mais
inocente e calculou que as sementes deveriam ter um significado.
Pensou consigo mesmo, As sementes existem para crescer. A
própria palavra já tem o sentido de Origem, o que
indica que ela é uma busca e a menos que se torne algo, não
tem significado. Ela é como uma ponte que se tem que atravessar.
Assim pensou e assim fez. Foi ao jardim do palácio e plantou
as sementes.
Após uma longa ausência, retornou o rei e quis logo
saber das sementes, mandando chamar os filhos à sua presença.
O mais velho pensou que o mais novo iria ficar muito mal perante
o pai, porque destruíra as sementes; e o mesmo se daria com
o segundo, porque as vendera. Mas, o mais novo não estava
preocupado em vencer, apenas em preservar as sementes e isso só
conseguira quando entendera que elas precisavam morrer e depois
renascer, para dar novas sementes.
O rei chamou o mais velho e disse-lhe: És um estúpido
e por isso perdeste o reino, porque uma semente só pode ser
preservada se tem a oportunidade de morrer no solo, se tem a oportunidade
de renascer.
Ao segundo filho disse: Agiste melhor que teu irmão
mais velho, mas também perdeste o reino, ainda que tenhas
compreendido que as sementes envelheceriam. Mas, a quantidade não
mudaria. Quando a semente é preservada, multiplica-se por
milhões.
Ao terceiro filho disse: É teu o reino, porque soubeste
compreender, na inocência, a mensagem que antes dos tempos
já te fora dada pelo Criador.
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