Antonio Carlos de Souza Godoi *
A Ordem Maçônicaé uma instituição
de seu tempo, isto é, tem se caracterizado ao longo de sua
trajetória como um organismo integrado à realidade,
da qual tem demonstrado possuir uma noção cristalinamente
nítida. Todavia, temos sentido que nem todas as mudanças
havidas em nossa Sublime Instituição, sejam as formais
ou as informais, trazem em seu bojo o sentido correto da Diferenciação.
Algumas, na verdade colocam-nos diante do grave risco da descaracterização
e ferem diretamente nosso simbolismo e ritualística. E estes,
digo e repito, não podemos e nem devemos mudar! É forçoso que as Lojas se dêem conta, assim
como seus Obreiros, que a Simbologia e a Ritualística Maçônicas
têm que ser encaradas sob o prisma da intemporalidade, isto
é, não podem ser modernizadas pois foram instituídas
para transmitir, através dos séculos e das gerações,
um conhecimento que nelas permanece oculto, só podendo ser
desvendado por aqueles que buscam com afinco e determinação
o seu significado através do estudo, pesquisa e reflexão.
É Sabedoria, pura e sublime, que alí se acha incrustada.
Como mudá-la, se sequer conseguimos entendê-la em sua
inteireza? Mudar, antes de entender, é ato lógico
e racional?
Por que a mania de se agregar práticas e procedimentos estranhos
às Sessões e mesmo aos Rituais às vezes, como
se a Maçonaria fosse um gigantesco corpo celeste a atrair,
mercê de sua força gravitacional, todos os fragmentos
que volteiam pelo espaço vizinho em desordenada trajetória?
A pena lúcida do ilustre Irmão Theobaldo Varolli já
verberava, não faz muito tempo, contra a alteração
despropositada e canhestra da Aclamação Maçônica
que agora é feita à ordem, implantada que foi simplesmente
porque determinado Irmão não se conformava em ver
aqueles braços estendidos e se agitando durante as Sessões
(?!). Ora, se a Aclamação é uma manifestação
de júbilo (e basta pesquisar sua orígem, dentre os
povos do Oriente, para se descobrir isso de forma categórica!),
fazê-la em postura rígida como de estátua é
o mesmo que ouvir algo muito engraçado e ter que ficar absolutamente
sério! E por aí poderíamos prosseguir, elencando
diversos outros equívocos que, por falta de estudo e de senso,
acabaram se institucionalizando dentro da Ordem, particularmente
no que diz respeito a posturas, circulação em Loja,
sinais de reconhecimento, etc.
Não é propósito deste trabalho criticar destrutivamente
nem citar nominalmente a Irmãos ou Lojas, nem mesmo todas
as práticas equivocadas que tenho presenciado ao longo de
minha vida maçônica. Mesmo porque, a quantidade de
cenhos franzidos e muxoxos que tenho registrada na mente, oriúnda
das vezes em que abordei o assunto em Loja, até informalmente,
são mais do que suficientes para me darem a certeza de que
não é tarefa fácil colocar um paradeiro nessa
onda modernista e equivocada. Sou apenas um Maçom convicto,
que acredita na imperiosa obrigação de se preservar
aquilo que é o núcleo essencial de nossa Sublime Instituição,
pois é através desse núcleo mantido intacto
que poderemos ter a certeza de atingirmos nossos propósitos,
quer individualmente ou como Instituição.
E não é preciso se aprofundar em raciocínios
muito complexos para entender a extensão do erro que estamos
cometendo. Nossos Rituais, bem como vasta literatura maçônica
complementar, citam que estamos em busca do que foi perdido. Sepultado
no tempo, esse mistério é o aguilhão que nos
espicaça sempre que esmorecemos diante das adversidades ou
até mesmo da incompreensão ou por causa de nossa própria
fraqueza humana. Ora, como nos orientarmos na busca do que foi perdido
se o mapa é mudado?
A Maçonaria, por ser viva e dinâmica, flexível
e lutando sempre pelo seu desenvolvimento e dos que nela militam,
é um organismo social não acomodado e, como tal, está
sujeita a crises e conflitos internos. Mas, exatamente pelas qualidades
citadas é um organismo que tem a capacidade de responder
produtivamente e faz das eventuais crises verdadeiras oportunidades
de progresso. E é aí que pode demonstrar todo seu
potencial, mobilizando seus recursos e estrutura, vencendo o conflito
e saindo dele mais forte do que quando entrou. E não se iludam
os Irmãos, porque o conflito entre Imanência e Contingência
é real dentro de nossa Ordem e se faz necessária vigilância
constante para que essas duas tendências coexistam, se harmonizem,
ao invés de se degladiarem em confronto mortal.
A vida é um suceder contínuo de contrastes. Alguns
estruturais, outros históricos, outros apenas circunstanciais.
Mas, é a interação desses mesmos contrastes
que traz riqueza à experiência de vida. O Homem é
um animal, mas um animal que questiona e se questiona. Cada ser
humano é único, mas igual a todos de sua espécie;
é contínuo, mas igual e altamente mutável;
é vivo, mas enfrenta o permanente desafio da sobrevivência
e só o consegue enquanto capaz de se adaptar ao seu meio,
tanto quanto ao seu tempo, de discernir a natureza e as exigências
intrínsecas das várias situações contrastantes,
dentro das quais se desenvolve sua vida.
Temos, pois, que agir, nos dias de hoje, planejada e preventivamente
porque em um mundo onde as mudanças se sucedem cada vez mais
rápidas e profundas, poucos estão se dando conta de
que nem tudo o que é novo é bom e nem tudo o que é
bom é novo. Tomemos, como exemplo, o que aconteceu com a
Igreja Católica. Anteriormente ao Concílio Vaticano,
tornara-se um organismo dogmático, rígido, cada vez
mais afastado dos fiéis e valorizando a forma em detrimento
do conteúdo. Pós Concílio, por não saber
administrar o processo de mudança e por modernizar excessivamente
o próprio conceito da Divindade e da relação
do Homem com seu Criador perdeu o rumo. Às vezes nos questionamos
se não perdeu mesmo a visão de sua finalidade. E o
próprio Maquiavel já dizia em 1541, bem antes daquele
Concílio, portanto, que nada é mais difícil
de se ter em mãos, mais perigoso de se conduzir ou mais incerto
quanto ao seu sucesso, do que a liderança na introdução
de uma nova ordem de coisas.
A Maçonaria desenvolveu uma maravilhosa capacidade de chegar
ao ponto desejado, mas não é menos certo que incorre
também no risco de não saber mais para onde ir caso
se rompa o delicado equilíbrio entre a Imanência e
a Contingência. Podemos deixar que nossa Sublime Instituição
mude de fora para dentro, rompendo-se as estruturas para daí
atingir o Homem? Ou seria muito mais coerente e lógico que
as mudanças viessem de dentro para fora, através da
própria conversão do Homem, atingindo daí as
estruturas?
O primeiro caminho contém um componente de violência
contra a transcendência da pessoa humana ao passo que o segundo,
ainda que mais lento, será sempre mais justo e, por isso,
mais duradouro.
|