Portal Maçônico
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( * ) Irm. Antonio Carlos de Souza Godoi
é Advogado - Consultor de Empresas
Recursos Humanos Comerciante

Trabalho destinado ao Consistório PRS Paulo M. de Carvalho
Região de Itapira – SP


ARLS Nove de Abril de Mogi Guaçu
Or de Mogi Guaçu–SP

Coluna: Da Doutrina -
Sob o seu comando.

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A Maçonaria frente à Imanência e à Contingência - II

 

Antonio Carlos de Souza Godoi *

 

A Ordem Maçônicaé uma instituição de seu tempo, isto é, tem se caracterizado ao longo de sua trajetória como um organismo integrado à realidade, da qual tem demonstrado possuir uma noção cristalinamente nítida. Todavia, temos sentido que nem todas as mudanças havidas em nossa Sublime Instituição, sejam as formais ou as informais, trazem em seu bojo o sentido correto da Diferenciação. Algumas, na verdade colocam-nos diante do grave risco da descaracterização e ferem diretamente nosso simbolismo e ritualística. E estes, digo e repito, não podemos e nem devemos mudar!

É forçoso que as Lojas se dêem conta, assim como seus Obreiros, que a Simbologia e a Ritualística Maçônicas têm que ser encaradas sob o prisma da intemporalidade, isto é, não podem ser modernizadas pois foram instituídas para transmitir, através dos séculos e das gerações, um conhecimento que nelas permanece oculto, só podendo ser desvendado por aqueles que buscam com afinco e determinação o seu significado através do estudo, pesquisa e reflexão. É Sabedoria, pura e sublime, que alí se acha incrustada. Como mudá-la, se sequer conseguimos entendê-la em sua inteireza? Mudar, antes de entender, é ato lógico e racional?

Por que a mania de se agregar práticas e procedimentos estranhos às Sessões e mesmo aos Rituais às vezes, como se a Maçonaria fosse um gigantesco corpo celeste a atrair, mercê de sua força gravitacional, todos os fragmentos que volteiam pelo espaço vizinho em desordenada trajetória? A pena lúcida do ilustre Irmão Theobaldo Varolli já verberava, não faz muito tempo, contra a alteração despropositada e canhestra da Aclamação Maçônica que agora é feita à ordem, implantada que foi simplesmente porque determinado Irmão não se conformava em ver aqueles braços estendidos e se agitando durante as Sessões (?!). Ora, se a Aclamação é uma manifestação de júbilo (e basta pesquisar sua orígem, dentre os povos do Oriente, para se descobrir isso de forma categórica!), fazê-la em postura rígida como de estátua é o mesmo que ouvir algo muito engraçado e ter que ficar absolutamente sério! E por aí poderíamos prosseguir, elencando diversos outros equívocos que, por falta de estudo e de senso, acabaram se institucionalizando dentro da Ordem, particularmente no que diz respeito a posturas, circulação em Loja, sinais de reconhecimento, etc.

Não é propósito deste trabalho criticar destrutivamente nem citar nominalmente a Irmãos ou Lojas, nem mesmo todas as práticas equivocadas que tenho presenciado ao longo de minha vida maçônica. Mesmo porque, a quantidade de cenhos franzidos e muxoxos que tenho registrada na mente, oriúnda das vezes em que abordei o assunto em Loja, até informalmente, são mais do que suficientes para me darem a certeza de que não é tarefa fácil colocar um paradeiro nessa onda modernista e equivocada. Sou apenas um Maçom convicto, que acredita na imperiosa obrigação de se preservar aquilo que é o núcleo essencial de nossa Sublime Instituição, pois é através desse núcleo mantido intacto que poderemos ter a certeza de atingirmos nossos propósitos, quer individualmente ou como Instituição.

E não é preciso se aprofundar em raciocínios muito complexos para entender a extensão do erro que estamos cometendo. Nossos Rituais, bem como vasta literatura maçônica complementar, citam que estamos em busca do que foi perdido. Sepultado no tempo, esse mistério é o aguilhão que nos espicaça sempre que esmorecemos diante das adversidades ou até mesmo da incompreensão ou por causa de nossa própria fraqueza humana. Ora, como nos orientarmos na busca do que foi perdido se o mapa é mudado?

A Maçonaria, por ser viva e dinâmica, flexível e lutando sempre pelo seu desenvolvimento e dos que nela militam, é um organismo social não acomodado e, como tal, está sujeita a crises e conflitos internos. Mas, exatamente pelas qualidades citadas é um organismo que tem a capacidade de responder produtivamente e faz das eventuais crises verdadeiras oportunidades de progresso. E é aí que pode demonstrar todo seu potencial, mobilizando seus recursos e estrutura, vencendo o conflito e saindo dele mais forte do que quando entrou. E não se iludam os Irmãos, porque o conflito entre Imanência e Contingência é real dentro de nossa Ordem e se faz necessária vigilância constante para que essas duas tendências coexistam, se harmonizem, ao invés de se degladiarem em confronto mortal.

A vida é um suceder contínuo de contrastes. Alguns estruturais, outros históricos, outros apenas circunstanciais. Mas, é a interação desses mesmos contrastes que traz riqueza à experiência de vida. O Homem é um animal, mas um animal que questiona e se questiona. Cada ser humano é único, mas igual a todos de sua espécie; é contínuo, mas igual e altamente mutável; é vivo, mas enfrenta o permanente desafio da sobrevivência e só o consegue enquanto capaz de se adaptar ao seu meio, tanto quanto ao seu tempo, de discernir a natureza e as exigências intrínsecas das várias situações contrastantes, dentro das quais se desenvolve sua vida.

Temos, pois, que agir, nos dias de hoje, planejada e preventivamente porque em um mundo onde as mudanças se sucedem cada vez mais rápidas e profundas, poucos estão se dando conta de que nem tudo o que é novo é bom e nem tudo o que é bom é novo. Tomemos, como exemplo, o que aconteceu com a Igreja Católica. Anteriormente ao Concílio Vaticano, tornara-se um organismo dogmático, rígido, cada vez mais afastado dos fiéis e valorizando a forma em detrimento do conteúdo. Pós Concílio, por não saber administrar o processo de mudança e por modernizar excessivamente o próprio conceito da Divindade e da relação do Homem com seu Criador perdeu o rumo. Às vezes nos questionamos se não perdeu mesmo a visão de sua finalidade. E o próprio Maquiavel já dizia em 1541, bem antes daquele Concílio, portanto, que nada é mais difícil de se ter em mãos, mais perigoso de se conduzir ou mais incerto quanto ao seu sucesso, do que a liderança na introdução de uma nova ordem de coisas.

A Maçonaria desenvolveu uma maravilhosa capacidade de chegar ao ponto desejado, mas não é menos certo que incorre também no risco de não saber mais para onde ir caso se rompa o delicado equilíbrio entre a Imanência e a Contingência. Podemos deixar que nossa Sublime Instituição mude de fora para dentro, rompendo-se as estruturas para daí atingir o Homem? Ou seria muito mais coerente e lógico que as mudanças viessem de dentro para fora, através da própria conversão do Homem, atingindo daí as estruturas?

O primeiro caminho contém um componente de violência contra a transcendência da pessoa humana ao passo que o segundo, ainda que mais lento, será sempre mais justo e, por isso, mais duradouro.