Antonio Carlos de Souza Godoi*
Nenhum plano da realidade humana está imune ao desgaste
do tempo e toda instituição, pelo seu caráter
de organismo coletivo, que engloba por vezes um número considerável
de seres humanos, enfrenta esse desafio sem dispor de privilégios.
Tem que inovar para não morrer, devido à incompatibilidade
criada com a realidade conjuntural, como o disse muito apropriadamente
o escritor Paulo C. da Costa Moura in O Benefício das
Crises. Ao longo da trajetória milenar do Homem na face da Terra
até os dias de hoje, quando nos encontramos na antecâmara
de um novo milênio, sempre têm surgido os profetas que,
a seu modo e com a expressão característica de cada
época e de cada Cultura, anunciam o quanto é importante
a capacidade de mudar. Todavia, não basta mudar. É
preciso saber mudar. Civilizações e povos, desde a
remota Antiguidade, nasceram, cresceram, atingiram o apogeu e depois
desapareceram, enquanto outros permaneceram vivos até hoje.
Por que? Porque uns souberam mudar e outros não.
A História nos propõe esse desafio permanente, que
se torna mais crítico em épocas de grande conturbação
e de transição rápida, como a atual, quando
os próprios Valores entram em crise. Já há
até quem diga que a imagem do Homem estaria no rumo de uma
mudança tão profunda quanto a que sofreu na transição
da Idade Média para a Revolução Industrial.
Enquanto Mestra da Vida, a História nos ajuda enviando-nos
mensagens-desafio de vivência e sabedoria acumuladas. Estamos
sabendo como entender-lhes o sentido profundo? É mistér
que sim, pois nossa sobrevivência, tanto no plano individual
como no de nossa Sublime Instituição, pode depender
em grande parte dessas respostas, para as quais é essencial
não esquecer que todo organismo vivo, quer uma criatura ou
uma instituição como a Maçonaria, tem em sí
duas tendências fundamentais: Conservação e
Diferenciação. Pela Conservação, o organismo
se mantém o mesmo e pela Diferenciação ele
se modifica.
Em um artigo escrito em 1979, o ilustre Irmão Álvaro
Palmeira, na época Grão Mestre Geral Honorário
do GOB dizia que a Maçonaria enaltece o mérito
da Inteligência, que concilia a Tradição com
a Evolução, (isto é, a Imanência com
a Contingência) para que a Sublime Ordem se mantenha atualizada
frente à realidade de cada época. Antiga, mas sempre
nova.
Temos, então, aqui duas abalizadas opiniões a respeito
dessas tendências, as quais estão sempre presentes
ao longo da vida e guardando íntima relação
entre sí. Vejamos, pois, o que podemos depreender daí
e quais os riscos que a nossa Sublime Instituição
enfrenta nesse conflito, de cuja existência muitos parecem
não se dar conta.
Transpondo para o plano da instituição maçônica
os conceitos de Paulo C. da Costa Moura, aliando-os com o que escreveu
também o Irmão Álvaro Palmeira, temos que pela
tendência da Diferenciação percebemos que a
Maçonaria tem mudado substancialmente ao longo dos diferentes
estágios de sua existência. Ela é, hoje, fundamentalmente
diferente se comparada com seus primórdios. Isso é
necessário para a saúde e pertinência do processo
evolutivo e é esperado de todos os que nela militam. Todo
o conjunto de Posturas, Valores, formas próprias de Ser e
Estar no mundo, tudo isso se altera ao longo da vida e, de certa
forma, diante de cada situação com a qual esteja comprometida
nossa adaptação.
Pela tendência da Conservação (Imanência),
nossa Ordem se vê, naquilo que mais a identifica, como sendo
substancial e continuamente a mesma, isto é, um organismo
vivo que nasceu numa época que se perde nas brumas do tempo,
cresceu, desenvolveu-se mas que é substancialmente o mesmo.
E essa continuidade histórica é essencial ao nosso
sentido de identidade e o que permite que sejamos identificados
com a mesma instituição ao longo do tempo, não
importa as evoluções que tenhamos sofrido. Há,
portanto, um núcleo essencial que é permanente
e cuja alteração poderia levar a sérios distúrbios
orgânicos.
A vida é um contínuo e ininterrupto adaptar-se, seja
para as criaturas individualmente ou para as instituições
humanas. É um reestruturar-se internamente em função
das necessidades, internas ou do ambiente, é alterar-se por
força de novas aprendizagens. Mas, um ponto da mais absoluta
importância, viver é também manter-se na continuidade
histórica, conservando as bases sobre as quais as experiências
reagem. E isso não é algo que se possa absorver nem
cômoda nem facilmente.
Como instituição, a Maçonaria de hoje é
a mesma e é diferente. Se olharmos para o passado, mesmo
o mais remoto até onde o conhecemos com segurança,
veremos que nosso estilo de vida é significativamente diferente.
Entretanto, essa Maçonaria mergulhada nas sombras do passado
é substancialmente a mesma Maçonaria de hoje. Os seus
traços de caráter, as suas tradições
e aquilo que caracteriza a Maçonaria mais autêntica
são exatamente os mesmos, tal como descrito por vários
escritores, pesquisadores e ensaístas que têm acompanhado
a trajetória de nossa Sublime Instituição.
A Maçonaria, com seu estilo, sua história, seus problemas
e suas peculiaridades é um composto de Continuidade e Mudanças
e aqueles Irmãos que nela militam há longos anos sabem
que a continuidade coexiste com a mudança. Mas, nem sempre
estamos todos perfeitamente conscientes desses aspectos simultâneos.
E é muito fácil rejeitar um ou outro desses aspectos;
o difícil é conviver com ambos sem exageros. Se de
um lado a prática incontrolada da mudança revela uma
impossibilidade de permanecer e, portanto, impede a manutenção
de uma identidade, a resistência feroz às mudanças
revela a incapacidade de mudar levando, consequentemente, à
perda da noção da realidade e à alienação. |