Portal Maçônico
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( * ) Irm. Antonio Carlos de Souza Godoi
é Advogado - Consultor de Empresas
Recursos Humanos Comerciante

Trabalho destinado ao Consistório PRS Paulo M. de Carvalho
Região de Itapira – SP


ARLS Nove de Abril de Mogi Guaçu
Or de Mogi Guaçu–SP

 

 

A Maçonaria frente à Imanência e à Contingência - I

 

Antonio Carlos de Souza Godoi*

 

Nenhum plano da realidade humana está imune ao desgaste do tempo e toda instituição, pelo seu caráter de organismo coletivo, que engloba por vezes um número considerável de seres humanos, enfrenta esse desafio sem dispor de privilégios. Tem que inovar para não morrer, devido à incompatibilidade criada com a realidade conjuntural, como o disse muito apropriadamente o escritor Paulo C. da Costa Moura in “O Benefício das Crises”.

Ao longo da trajetória milenar do Homem na face da Terra até os dias de hoje, quando nos encontramos na antecâmara de um novo milênio, sempre têm surgido os profetas que, a seu modo e com a expressão característica de cada época e de cada Cultura, anunciam o quanto é importante a capacidade de mudar. Todavia, não basta mudar. É preciso saber mudar. Civilizações e povos, desde a remota Antiguidade, nasceram, cresceram, atingiram o apogeu e depois desapareceram, enquanto outros permaneceram vivos até hoje. Por que? Porque uns souberam mudar e outros não.

A História nos propõe esse desafio permanente, que se torna mais crítico em épocas de grande conturbação e de transição rápida, como a atual, quando os próprios Valores entram em crise. Já há até quem diga que a imagem do Homem estaria no rumo de uma mudança tão profunda quanto a que sofreu na transição da Idade Média para a Revolução Industrial.

Enquanto Mestra da Vida, a História nos ajuda enviando-nos mensagens-desafio de vivência e sabedoria acumuladas. Estamos sabendo como entender-lhes o sentido profundo? É mistér que sim, pois nossa sobrevivência, tanto no plano individual como no de nossa Sublime Instituição, pode depender em grande parte dessas respostas, para as quais é essencial não esquecer que todo organismo vivo, quer uma criatura ou uma instituição como a Maçonaria, tem em sí duas tendências fundamentais: Conservação e Diferenciação. Pela Conservação, o organismo se mantém o mesmo e pela Diferenciação ele se modifica.

Em um artigo escrito em 1979, o ilustre Irmão Álvaro Palmeira, na época Grão Mestre Geral Honorário do GOB dizia que “a Maçonaria enaltece o mérito da Inteligência, que concilia a Tradição com a Evolução, (isto é, a Imanência com a Contingência) para que a Sublime Ordem se mantenha atualizada frente à realidade de cada época. Antiga, mas sempre nova”.

Temos, então, aqui duas abalizadas opiniões a respeito dessas tendências, as quais estão sempre presentes ao longo da vida e guardando íntima relação entre sí. Vejamos, pois, o que podemos depreender daí e quais os riscos que a nossa Sublime Instituição enfrenta nesse conflito, de cuja existência muitos parecem não se dar conta.

Transpondo para o plano da instituição maçônica os conceitos de Paulo C. da Costa Moura, aliando-os com o que escreveu também o Irmão Álvaro Palmeira, temos que pela tendência da Diferenciação percebemos que a Maçonaria tem mudado substancialmente ao longo dos diferentes estágios de sua existência. Ela é, hoje, fundamentalmente diferente se comparada com seus primórdios. Isso é necessário para a saúde e pertinência do processo evolutivo e é esperado de todos os que nela militam. Todo o conjunto de Posturas, Valores, formas próprias de Ser e Estar no mundo, tudo isso se altera ao longo da vida e, de certa forma, diante de cada situação com a qual esteja comprometida nossa adaptação.

Pela tendência da Conservação (Imanência), nossa Ordem se vê, naquilo que mais a identifica, como sendo substancial e continuamente a mesma, isto é, um organismo vivo que nasceu numa época que se perde nas brumas do tempo, cresceu, desenvolveu-se mas que é substancialmente o mesmo. E essa continuidade histórica é essencial ao nosso sentido de identidade e o que permite que sejamos identificados com a mesma instituição ao longo do tempo, não importa as evoluções que tenhamos sofrido. Há, portanto, um “núcleo essencial” que é permanente e cuja alteração poderia levar a sérios distúrbios orgânicos.

A vida é um contínuo e ininterrupto adaptar-se, seja para as criaturas individualmente ou para as instituições humanas. É um reestruturar-se internamente em função das necessidades, internas ou do ambiente, é alterar-se por força de novas aprendizagens. Mas, um ponto da mais absoluta importância, viver é também manter-se na continuidade histórica, conservando as bases sobre as quais as experiências reagem. E isso não é algo que se possa absorver nem cômoda nem facilmente.

Como instituição, a Maçonaria de hoje é a mesma e é diferente. Se olharmos para o passado, mesmo o mais remoto até onde o conhecemos com segurança, veremos que nosso estilo de vida é significativamente diferente. Entretanto, essa Maçonaria mergulhada nas sombras do passado é substancialmente a mesma Maçonaria de hoje. Os seus traços de caráter, as suas tradições e aquilo que caracteriza a Maçonaria mais autêntica são exatamente os mesmos, tal como descrito por vários escritores, pesquisadores e ensaístas que têm acompanhado a trajetória de nossa Sublime Instituição.

A Maçonaria, com seu estilo, sua história, seus problemas e suas peculiaridades é um composto de Continuidade e Mudanças e aqueles Irmãos que nela militam há longos anos sabem que a continuidade coexiste com a mudança. Mas, nem sempre estamos todos perfeitamente conscientes desses aspectos simultâneos. E é muito fácil rejeitar um ou outro desses aspectos; o difícil é conviver com ambos sem exageros. Se de um lado a prática incontrolada da mudança revela uma impossibilidade de permanecer e, portanto, impede a manutenção de uma identidade, a resistência feroz às mudanças revela a incapacidade de mudar levando, consequentemente, à perda da noção da realidade e à alienação.