|
Irm Antonio Carlos de Souza Godoi ( * )
Eu assino uma lista de RH creio fazer mais
de 3 anos. Pelo que sei somos mais de 400 pessoas de todo o Brasil
trocando mensagens.
Esse convívio virtual levou-me a algumas
considerações sobre a natureza humana. Eu vejo que
somos como caixinhas que contém nossos valores, crenças,
temores, verdades individuais e nessa caixa há furos que
se comunicam com o mundo, cada um de nós, que estamos em
nossas respectivas caixas.
Acontece freqüentemente nessa lista, para
a qual também envio esta mensagem toda a sexta-feira, como
há um cadastramento constante e o correspondente descadastramento,
pessoas novas na lista quererem impor limites às mensagens
enviados por outros, tendo como critério o conteúdo
de suas próprias caixinhas.
A minha pequena caixinha eu cultivo tentando fazer
furos para que me facilitem ver o mundo das outras caixinhas, já
que a minha é pequena, humildemente pequena.
Algumas poucas pessoas sobem sobre suas tamancas
e vociferam sobre o que consideram impuro ser visto por seus olhos
! A convivência democrática, a aceitação
do próximo, como o próximo é, e não
como eu gostaria que ele fosse para satisfazer minhas necessidades,
a falta de empatia, o individualismo exacerbado, extremo, aparecem
de tempos em tempos. Cada caixinha julgando o que outras caixinhas
devem colocar na lista, sendo juizes inclementes.
Já entrei neste debate um par de vezes sob
o título "A aceitação do próximo".
Hoje, aproveitando que o assunto veio à
baila, novamente, e encaminho para que cada um de nós reflita
e aja, após a leitura do POEMA EM LINHA RETA, do meu poeta
Fernando Pessoa.
POEMA EM LINHA RETA
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irresponsavelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo
ainda;
Eu que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem
pagar,
Eu, que quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisa ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes
- na vida ...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia !
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem não há neste largo mundo que me confesse que
uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses !
Onde é que há gente neste mundo ?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca !
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com meus superiores sem titubear ?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
|