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Irm Antonio Carlos
de Souza Godoi ( * )
UMA ENCRUZILHADA FATAL?
Uma questão preocupante nos dias de hoje
refere-se ao apagamento do velho Humanismo diante do cientismo intolerante
que assumiu um domínio tirânico sobre a civilização
humana nas últimas décadas.
Derivada desse questionamento, tem-se colocado
uma pergunta crucial: poderá o Humanismo renascer de suas
cinzas, qual a Fênix mitológica? No âmago dessa
questão se encontra o quadro do Homem e do Humanismo praticamente
à beira do precipício, esmagados que estão
sob o peso de tantas ciências, que deveriam estar contribuindo
para libertar o Homem mas sobre as quais se questiona, seriamente,
se não estão apenas preparando o cataclismo final
da perdição desse mesmo Homem, provocando seu triste
retorno a um inconcebível Nada.
Inegáveis, por outro lado, as muitas contribuições
que têm sido trazidas pelas ciências. Mas, no balanço
final, apesar de tudo, ainda permanece um sabor de perda, de um
alargamento maior da brecha que cindiu o Homem no pós-Guerra
e o levou abruptamente a saltar, sem a devida reflexão, da
Filosofia Humanística para o culto quase idólatra
da Tecnologia, em cujo altar passou a sacrificar as primícias
de seu suor e trabalho.
No ponto onde a Humanidade hoje se encontra o Homem
contemporâneo caminha trôpego, oscilando em insuportável
angústia da qual são testemunhas trágicas o
crescimento dos suicídios, a escalada das drogas e da violência,
além da criminalidade impune que não são, quem
sabe, senão os sinais antecipados de um suicídio coletivo
que levaria o Homem a se tornar apenas um objeto de lembrança,
isso se houver ainda na face da Terra alguém para se lembrar.
Diante dessas perspectivas sombrias, parece fora
de dúvida que o Homem precisa necessária e urgentemente
voltar ao Humanismo, para que a Humanidade retome alento e recoloque
a educação dos povos no contexto imensamente rico
das Humanidades. E isso não significa que, retornando às
origens, estaríamos paralelamente retornando ao passado.
O que pertence ao passado é verdadeiramente passado e não
se pode fazer voltar ao inexorável relógio do tempo.
Mas, o passado pode ajudar a construir o futuro incorporando-se
ao presente.
Também é fora de dúvida que
se faz necessário dar às Humanidades dimensões
diferentes das que tinham na época pré-científica.
O Humanismo nos dias atuais não terá valor algum se
não mergulhar fundo, sem reservas, no universo das ciências;
todavia, de seu lado, essas mesmas ciências perderão
o direito ao nosso respeito se não se aliarem, franca e eficazmente,
para o serviço do Homem impregnando-se de Humanidades a fim
de que nelas, então, o Homem seja reconhecido em toda a sua
dignidade, em toda a plenitude de sua orígem divina.
Dois grandes pensadores, filósofos e críticos
de nossos tempos, Koestler e Poppe, deixaram-nos duas obras de admirável
conteúdo filosófico ao exercitarem uma vigorosa, porém
objetiva, crítica da postura do Homem tecnologicizado diante
dos grandes e fundamentais questionamentos que lhe afligem a alma:
A Busca do Absoluto e A Busca Inacabada.
Aquelas duas mentes poderosas perceberam que para
além do longo caminho científico, permaneciam as questões
às quais as ciências não têm como responder
por estarem ilhadas no estreito território do Relativismo.
Ora, ao mesmo tempo em que a tudo responde o Relativismo não
responde a nada, exceto ao nível das causas imediatas e secundárias
dos acontecimentos; entretanto e lamentavelmente, deixa o Homem
insaciado e desejoso ainda de saber qual a origem primeira dessas
mesmas causas, pois que ele jamais se satisfaz com o que conhece.
Mesmo quando sabe o como das coisas o Homem continua
inquieto e, permanentemente insaciado, quer descobrir o porque e
os porquês das coisas, de si mesmo, de sua existência,
ao mesmo tempo em que o para que dessa sua viagem inexplicável
através do tempo. Em resumo, permanece uma só inquietação
no espírito do Homem, lancinante e dolorosa: a interrogação
a respeito do sentido de seu Ser e de sua Vida.
Essa inquietação, essa procura do
inacabado e do absoluto, como mencionam Koestler e Poppe, admiravelmente
sintetizada por Paul Tillich em A Procura do Último, levam
o Homem a mergulhar no pleno contexto filosófico. Por estranho
movimento das coisas a Física devolve-o à Metafísica
sem que ele consiga escapar desse retorno. Nesse sentido, inclusíve,
são dignas de menção as obras de Fritjof Capra
intituladas O Tao da Física e O Ponto de Mutação.
Compreende-se, assim, mais claramente hoje que
a procura do Homem jamais acaba e que quando penetra nas trevas
do relativo ela ainda persegue o absoluto. Por isso, temos que lutar
para que o Homem volte à arte do Pensar, especialmente a
nossa juventude, reiniciando-o na Filosofia que nada mais é
do que a arte de se interrogar para além das respostas curtas
que os currículos científicos podem oferecer.
E não se trata, aqui, de impor-lhes as histórias
das Filosofias pois que isso nada mais seria do que um exercício
de memória, um conjunto de informações que
nada acrescentaria à formação dos espíritos,
particularmente dos jovens. Se memorizar é importante, pensar
será ainda mais importante para o Homem de nosso tempo.
E o que é pensar? Qual o sentido de pensar?
Freqüentemente confundimos o pensar com estudar. Entretanto,
são duas coisas diferentes pois estudar é trabalhar
com vontade em algo e assim pode-se afirmar que estudamos quando
enfrentamos um livro, por exemplo e o compreendemos, depois o recordamos,
o sintetizamos e expomos. Isso certamente é estudar, masnão
pensar.
Pensar é refletir, é como que um
ruminar mental, um voltar-se sobre as coisas. Por isso, são
poucos os que pensam e muitos os que só memorizam ou, então,
acumulam determinadas informações. Se o Homem, pois,
reaprender a pensar, se fizer desse estado uma atividade de sua
vida ele então viverá em contínuo distanciamento
e abandono da tirania do cotidiano e poderá mudar. Se não
se muda o que deve ser mudado no mundo é precisamente porque
não se pensa.
Esse novo pensar, pois, deve ser um aprendizado
da interrogação para além da interrogação
à qual as ciências já deram uma primeira resposta,
seguindo as pegadas dos grandes mestres do pensamento que foram
Sócrates, Platão, Aristóteles e Tomás
de Aquino. Aquelas mentes poderosas e insuperadas até hoje
se preocupavam muito pouco em conquistar discípulos; alimentavam
apenas um propósito divino: despertar pensadores!
Esse deve ser, imperativa e inalienavelmente, o
propósito de todos aqueles indivíduos ou instituições
que se proponham a educar a Humanidade e nesse contexto, inegavelmente,
insere-se a Ordem Maçônica. Nessa civilização
tão rica de ciências, é necessário reensinar
o Homem a pensar para que parta em busca do Inacabado, do Absoluto,
do Último, para que todo o seu saber se transforme, pelo
influxo divino, em Sabedoria.
Mas, para que o pensamento finque suas raízes
e floresça, faz-se necessária a presença da
Lógica a impor o seu ritmo para protegê-lo contra as
deformações, desejadas ou não, do raciocínio
nesse universo tão carente da educação humana,
ameaçada de completa cegueira tal a extensão da falta
de pensamento.
Se assim for feito, a Humanidade estará
formando sábios que serão, ao mesmo tempo, pensadores.
Talvez a Humanidade venha a depender um dia de sua força
para não perecer na vertigem da loucura.
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