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Irm Antonio Carlos de Souza Godoi ( * )
Se levarmos em conta a idade da Humanidade é inegável
a conclusão de que os árduos caminhos que levam à
Paz têm sido trilhados muito lentamente. Tristemente damo-nos
conta de que, no alvorecer de um novo milênio, dois conflitos
mundiais de trágicas proporções as duas
Guerras Mundiais sem levar em conta todos os demais conflitos
de menores proporções que as vêm sucedendo desde
então, mas igualmente trágicos para o Homem, foram
insuficientes para que pudéssemos construir um patrimônio
de experiência humana no sentido de que os povos projetassem
esforços realmente sinceros na construção do
próprio ser humano e da paz social.
Esquecemo-nos, nós Homens, de que a Paz,
em qualquer de suas múltiplas facetas, é construída
pelos caminhos já de muito esquecidos e abandonados da Compreensão,
da Tolerância, da Renúncia, do Amor Fraterno, esse
conjunto univérsico de virtudes que representam o carisma
do Homem Integral e do qual brotam todos os atos externos daquele
que é verdadeiramente grande, que assume uma atitude de eterno
aprendiz e não se considera mestre de ninguém.
Um velho ensinamento judaico já dizia que
o Homem pode ter tanto a terra quanto o céu sob os seus pés,
o que equivale a dizer que ele tem a força e sabedoria suficientes
para construir tanto o Bem quanto o Mal. Lamentavelmente, ele raramente
se detém a refletir que não é uma criatura
definitiva, pois só é completo nos demais, é
essencialmente um ser para os demais, um ser em relação
que depende dos demais e para eles foi criado.
É fundamental que recobremos a consciência
de que os caminhos que trilhamos podem nos levar ao caos final e
o que sobrar da Humanidade, então, trará inevitavelmente
as marcas da dor e o amargo da derrota final.
Assim, pois, todos nós devemos, em especial
os Maçons,que têm a missão da salvaguarda da
Humanidade, movidos por sadio egoísmo reconquistar a paz
interior através da libertação dos espíritos,
pelo desenvolvimento da auto-crítica, do auto-controle, pelo
conhecimento objetivo de nossas capacidades e limitações,
pelo realismo sereno de nossas ambições, pela compreensão
e pela tolerância sábias das diferenças entre
os seres humanos, por um senso mais apurado de justiça social;
e não para, necessariamente, ajudar os outros mas para respeitar
nos outros o que é realmente deles, a começar pela
Liberdade, por uma implantação mais inteligente e
amadurecida da magnanimidade em nossos corações, por
uma crença mais viva no Ser Supremo, a quem reverenciamos
como o Grande Arquiteto do Universo, Aquele que não está
eivado das mesquinhas e ridículas discriminações
e preconceitos tão próprios de nossa espécie.
Em paralelo com a conquista dessa inefável
Paz Interior, é imperativo que façamos, nós
Maçons, o que é preciso ser feito sem jamais nos eximirmos
da responsabilidade que nos cabe no tocante à solução
dos três grandes grupos antagônicos da paz entre os
Homens: o conflito gerado pela ambição desmedida pelo
poder e que se manifesta especialmente na Política e na politicagem
dentro das instituições tanto quanto entre elas; o
conflito gerado pela ambição desmedida de liberdade
e que se manifesta particularmente no choque entre as gerações
e de forma fundamental no seio da família, esquecidos os
conflitantes de que não existe liberdade verdadeira sem lei;
e o conflito provocado pela ambição desmedida por
riquezas materiais e que se manifesta na injustiça com que
se impede, em todos os agrupamentos sociais, desde a menor das estruturas
até o ambiente internacional, que os mais fracos e menos
favorecidos possam desfrutar com dignidade daquilo que, sendo de
todos por herança divina, é usufruído abusivamente
por alguns poucos.
Mas, não podemos nos esquecer, no desempenho
dessa missão divina,que de nada adiantará tentarmos
persuadir os espíritos se não convencermos também
os corações. Devemos procurar mostrar ao Homem que
ele é um canal para os seus irmãos universais e o
canal só cumpre sua finalidade quando está ligado
à fonte e permite que as águas desta fluam livremente
através de sí.
É preciso que nós, Maçons,
exercitemos em larga escala o processo da educação
construtiva do Homem para o espírito de paz pois fazê-lo
é como evangelizar, transformando pelo seu influxo a Humanidade
a partir de dentro. Mas, a começar sempre da pessoa e fazendo
continuamente um apelo às relações das pessoas
entre sí e com os princípios, valores e crenças
por elas adotados, formando as opiniões e criando mentalidades
orientadas no sentido da convivência pacífica, superando
considerações parciais e unilaterais, removendo pré-julgamentos
e criando, ao invés, o espírito da compreensão
e recíproca solidariedade para que haja a aceitação
da lógica da convivência pacífica na diversidade.
Tudo isso devemos fazer para levar o Homem na direção
da busca do conhecimento sobre si mesmo e para sua interiorização,
pois se assim ele não o fizer, como diz Lao-Tzú, no
Tao Te King: ele poderá ver todas as coisas sem nada compreender,
assim como um analfabeto pode folhear os maiores livros da Humanidade
sem entender coisa alguma.
Trabalhemos, pois, para que consigamos fazer do
mundo o Jardim da Paz que o Ser Supremo nos doou e o cultivemos
com Amor e Sabedoria, não colocando a felicidade em terras
distantes ou em tarefas exageradas pela lente de aumento da imaginação.
Que façamos bem as pequenas coisas até que possamos
realizar as grandes e que possamos, finalmente, compreender que
a felicidade é uma jornada, não um destino.
E enquanto cultivamos esse jardim, preparemos a
seara do espírito. Para educarmo-nos, não fiquemos
dependendo só dos outros. Sigamos nossas inclinações
sadias com toda a coragem, satisfazendo a curiosidade que o próprio
Deus imprimiu em nosso espírito, dando expressão a
nós mesmos e criando nossa própria harmonia. E que
compreendamos que a felicidade não vem da imitação
e nem da conformidade. A educação, assim como a felicidade,
é coisa individual; tem que vir-nos da vida e de nós
mesmos. Não há outra fonte e cada peregrino deste
mundo abre sua própria senda. Como disse Chamfort: a felicidade
não é encontrada facilmente; difícil achá-la
em nós mesmos e quase impossível achá-la nos
outros.
Cada idade tem a sua característica. Brincar
é a efervescência da infância; o amor é
o vinho da mocidade; a compreensão é o alívio
da velhice. Que aprendamos, pois, a cada dia mais alguma coisa pois
só sabemos o que sabemos mas não sabemos ainda, necessariamente,
o que os outros sabem. Enriqueçamo-nos, então, com
eles.
Quando conseguirmos afastar, finalmente, de nós
a mesquinhez e tivermos aprendido a honrar a Verdade ainda quando
ela se inclina na direção contrária aos nossos
desejos, aí então estaremos preparados para ser discípulos
dos Espíritos Iluminados. E conquanto não vejamos
nisso o ardente delírio da mocidade, certamente poderemos
conhecer a duradoura e suave felicidade que o tempo não destrói.
Por meio da compreensão que sejamos, pois,
de todas as idades e aptos a sentir as alegrias de todas as idades,
conscientes de que a Vida é um continuum, em todos os sentidos
e que o passado culmina no Aqui e Agora, com o futuro também
contido nele. E que não nos esqueçamos, jamais, de
que viver o Aqui e Agora plenamente é tudo pois nele está
implícito o sentido da Vida.
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