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Poderíamos dizer, a princípio, que a Cabala explica como Deus, único e absoluto, criou o mundo por divinas emanações de Si mesmo.
Irmão Malkut
Os cabalistas não definem Deus, mas o adoram em suas manifestações, proclamadas em seu Ain-Soph assim como os hindus o fazem em seu Parabrahm. Essas manifestações são a idéia e a forma, a inteligência e o amor. O poder supremo está apoiado sobre duas leis que são a sabedoria fixa e a inteligência ativa, ou seja, necessidade e liberdade.
Pela Trindade reconhece-se a primeira manifestação divina, aquela pela qual Deus cria o Princípio da Realidade e, conseqüentemente, sua própria imortalidade. Essa Trindade acompanha a história das religiões e encontra-se registrada em todos os povos e cultos com alguma alteração:
Sol, Lua e Terra
Brahma, Vishnu e Shiva;
Osíris, Ísis e Hórus;
Pai, Filho e Espírito Santo;
Júpiter, Juno e Vulcano.
Na Cabala ela recebe explicações sábias e completas e é designada por
Kether (a coroa),
Binah (a inteligência) e
Chockmah (a sabedoria).
Estas são as três primeiras das dez Sefirotes que exprimem os atributos de Deus. Conforme preceituado na "Tábua de Esmeraldas", de Hermes Trimegistus, "o que está em baixo é igual ao que está em cima e o que está em cima é igual ao que está em baixo", veremos que há uma perfeita correlação entre Macrocosmo e Microcosmo, pois o Universo e o Homem são compostos essencialmente de um Corpo, de uma Alma ou Mediador e de um Espírito e a fonte destes princípios ou manifestações a encontraremos no próprio Deus.
Kether, Chockmah e Binah representam Deus e o seu corpo é constituído por este Universo em sua tríplice manifestação. Na interpretação da Cabala, Deus pode ser definido da seguinte maneira: Deus é incognoscível em sua essência, mas cognoscível em suas manifestações. O Universo constitui o seu corpo, Adão e Eva sua Alma (princípio da polaridade) e Deus, propriamente dito, em sua dupla polarização, seu Espírito. Papus retirou do "Tarot dês Bohémiens" o seguinte esquema de correspondências de acordo com a figura 1.

Estes três ternários, sintetizados na Unidade, formam as Dez Sefirotes, as quais representam o desenvolvimento dos três primeiros princípios da Divindade em seus atributos. Desta maneira, Deus, o Homem e o Universo são constituídos por três termos, mas no desenvolvimento dos seus atributos são compostos cada um por Dez Termos ou Um Ternário que conseguiu seu desenvolvimento pelo Setenário (3+7= 10).
Resumindo, poderíamos dizer que a Cabala explica como Deus, único e absoluto, criou o mundo por divinas emanações de Si mesmo. A primeira delas foi Kether (também chamada Ancião do Tempo) que enviou duas subdivisões de si mesma: Chockmah, força positivo-masculina (o Yang chinês), cuja manifestação física é o Zodíaco; e Binah, a força negativo-feminina (o Yin chinês), a grande mãe, a visão da dor, cuja expressão física é Saturno. Assim foi formada a grande Trindade e novas emanações divinas se sucederam constituindo a Árvore da Vida.
Kether e o Alfabeto Hebraico
Composto por vinte e duas letras, o ponto de partida da Cabala é o alfabeto hebraico. Seu uso, no entanto, difere dos demais alfabetos porque suas letras não são colocadas uma após as outras. Cada letra representa um Ser hieroglífico, uma Idéia e um Número, daí corresponderem rigorosamente às leis divinas que formaram o mundo. Todas elas derivam de uma delas, o Iod, e cada uma delas é uma potência que está ligada com as forças criadoras do Universo que atuam nos três mundos: físico, astral e psíquico. Essa a razão pela qual palavras hebraicas são combinadas para fórmulas de evocação nas cerimônias mágicas. Segundo Eliphas Levy, a Cabala poderia chamar-se "matemática do pensamento humano" ou "álgebra da fé", pois ela resolve todos os problemas da alma como se fossem equações, isolando a incógnita.
Segundo o Sepher Yetzirah, um dos livros da Cabala, o Yod gerou as 22 letras do alfabeto, sendo três letras mães, sete duplas (porque exprimem dois sons, um forte, positivo, outro suave negativo) e doze simples formadas pelas demais letras.
A primeira letra-Mãe, Aleph, corresponde ao primeiro nome de Deus, EHEIEH, que significa a essência divina. Os cabalistas o chamam "aquele que a vista jamais viu" devido a sua elevação. Ele reside no mundo Ain-Soph, o infinito, e seu atributo é Kether, traduzido como coroa ou diadema. Ele domina sobre os anjos chamados pelos hebreus Haioth-Nakodish, isto é, os animais da santidade, formando os primeiros coros de Anjos que se denominam Serafins.
Kether e os Nomes Divinos
Reiterando nossa explicação anterior, cada letra do alfabeto hebraico tem três finalidades e expressa um hieróglifo, um número e uma idéia, sendo que suas combinações contêm potências ligadas às forças criadoras do Universo. Se individualmente cada letra já é uma potência, a reunião de um conjunto delas, segundo certas regras ocultas, formará centros ativos de força que agirão de forma eficaz quando postas em ação pela vontade do homem que as sabe manipular.
Os nomes divinos, em número de dez, encontrados em todos os talismãs e em todas as formas de evocação mágica, cada um deles exprime um atributo especial de Deus, ou seja, uma lei ativa da natureza e um centro universal de ação.
Estudaremos aqui apenas o primeiro nome divino, EHIEH (pronúncia: EIEA), correspondente a Kether.
EHIEH escreve-se misticamente na forma de um triângulo formado por três Yod, representando os três principais atributos da Divindade e emanando a criação do Sempre, que dá nascimento às dimensões temporais (exprime o começo e o fim de tudo).
O primeiro Yod mostra a Eternidade dando nascimento ao Tempo na sua Tríplice divisão: Passado, Presente e Futuro. É o Número e o Pai.
O segundo Yod mostra o Infinito dando nascimento ao Espaço na sua tríplice divisão: Comprimento, Largura e Profundidade. É a Medida e o Filho.
O terceiro Yod representa a Substância Eterna dando nascimento à Matéria na sua tríplice, especificação: Sólido, Líquido e Gasoso. É o Peso e o Espírito Santo.
Assim, reunindo em um Todo o Tempo, o Espaço, a Matéria e a Substância Eterna e Infinita, o Sempre se manifestará. Completa o "Caibalion": "Enquanto Tudo está n'O TODO, é também verdade que O TODO está em Tudo. Aquele que compreende realmente esta verdade alcançou o grande conhecimento".
O nome da essência divina EHIEH tem como Numeração Kether (coroa, diadema), significando o ser mais simples da Divindade: é chamado "aquilo que o olho nunca viu". Atribui-se a Deus, o Pai, e influi sobre a Ordem dos Serafins. Os hebreus denominavam Haioth Hacadosh; em latim, Animalia Sanctitatis, ou os célebres animais de santidade. Eles dão o nome do ser a todas as coisas que enchem o Universo em toda a sua circunferência até o centro. Sua inteligência particular chama-se Mithatron (Príncipe das Faces), cuja função é de introduzir outros diante da face do Príncipe. É por seu intermédio que o Senhor falou a Moisés.
Por desempenhar o principal papel do mundo das Sefirotes, Kether, que criou as outras Sefirotes, representa o papel de Mithatron, uma espécie de demiurgo (nome do deus criador na filosofia platônica), tão incompreensível e imaterial quanto o próprio Deus, é também o ponto de partida (sem dimensões e imaterial), a matéria-prima, a Face Santa, a Longa Face e todas as outras Sefirotes, em conjunto, não são senão a pequena face. Kether representa também a Vontade de Deus, a menos que a Vontade não esteja no próprio Deus é idêntica a Ele. A primeira tríade, Kether, Chockmah e Binali, é o plano do Universo, a tríade do mundo, e as sete Sefirotes seguintes são inferiores a estas três, são as Sefirotes da execução ou construção. Esta primeira tríade representa os atributos metafísicos de Deus, ou o mundo inteligível.
Sobre Kether, a coroa, e não sobre o rei, pois nisto implicaria a presença de um ídolo, é que repousa a potência suprema ou a coroa do universo. A criação inteira é o reino da coroa ou o domínio da coroa. "Ninguém pode dar aquilo que não tem e nós podemos admitir virtualmente na causa que se manifesta pelos efeitos" esclarece Eliplias Levi, que completa: "Deus é, portanto, a potência ou a coroa suprema (Kether) que repousa sobre a sabedoria imutável (Chockmah) e a inteligência criadora (Binah); nele estão a bondade (Chesed) e a justiça (Geburah), que são o ideal da beleza (Tiphereth). Nele estão o movimento sempre vitorioso (Netsah) e o grande repouso (Hod). Seu querer é uma criação contínua (Yesod), e seu reino (Malkuth) é a imensidade que povoa o Universo. ".
Essas emanações constituem a Árvore da Vida e por elas correm os trinta e dois caminhos da Sabedoria e as 5O Portas da Luz, os degraus para as Iniciações. A Árvore da Vida, com suas emanações da Vida e suas Sefirotes constitui-se nos estágios que o aspirante atravessa a medida que escala esta árvore para atingir a perfeição ou Divindade. |