Maria da Glória Sá Rosa

Minha
primeira impressão, ao desembarcar no aeroporto de
Pequim, foi de estranhamento. Seria eu mesma que estava
no coração do Grande Império do Meio
Mundo para sentir de perto uma civilização
milenar, que durante toda a vida foi parte de tantos desejos
e divagações? A realidade me atordoava, eu
teimava em permanecer no território dos sonhos, enquanto
a cidade cintilava no colorido dos ideogramas, brilhando
no alto dos edifícios.
Criança
ainda, fascinada pela Ópera de Pequim, aprendi que
na China as cores funcionam como símbolos de ideologias
e sentimentos. Elas estão presentes na bandeira,
nos cartazes publicitários, na vestimentas, no livrinho
vermelho dos pensamentos de Mao, como simulacros de algo
ligado às tradições. Como a cor, cada
objeto, cada monumento tem um significado oculto, que precisa
ser inserido no campo semântico das tradições.
Uma
de minhas primeiras visitas foi à Praça Tian'anmem
(da Paz Celestial), considerada a maior do mundo. Ali, revi
mentalmente, o massacre de 1986, quando a polícia,
não conseguindo dizimar todos os que lutavam pela
liberdade de expressão, derrubou e destruiu a estátua
que simbolizava os ideais dos estudantes, tentando com isso
esfacelar, através de um ícone, as aspirações
da juventude. Naquele espaço enorme, senti a força
por trás dos ideogramas (que preservam séculos
de cultura e continuam indecifráveis aos estrangeiros).
Para entendê-los é preciso tornar-se chinês,
apropriar-se de seus valores.
Impressionaram-me
as figuras dos jovens de bicicleta e o retrato de Mao Tse
Tung, brilhando no alto, como a recordar tristes tempos
de medo e sofrimento.
A impressão
de grandiosidade cresceu, quando percorri a Cidade Proibida,
labirinto fechado ao mundo exterior e senti-me como figurante
do filme de Bernardo Bertolucci, O Último Imperador.
Naqueles imensos pátios, que podiam abrigar mais
de dez mil soldados, o imperador, verdadeiro filho do céu,
comandava seu exército. Foi ali que Mao Tse Tung
subiu as escadas, em 1949, para falar às massas e
proclamar a República Popular da China. O mesmo Mao
que expulsou os estrangeiros, livrou a China da fome, foi
o autor da Revolução Cultural, que acabou
com a liberdade de expressão, condenou à prisão
e à morte milhares de chineses e chegou até
a promulgar um decreto, proibindo a música de Beethoven,
considerada perigosa para os ideais revolucionários.
Por tudo isso, vejo a China como nação de
duas faces, lutando entre energias opostas (Yin e Yang),
numa busca permanente de equilíbrio.
No Templo do Céu, estranha construção
voltada para si mesma, onde o imperador vinha conversar
com os deuses, distraí-me contemplando nos telhados
os animais míticos que protegiam as cerimônias.
No entanto, o grande encontro aconteceu na Grande Muralha,
um colosso de quase três mil quilômetros de
extensão, símbolo de um país recluso,
cercado pela barbárie exterior e a civilização
de dentro. Como um majestoso castelo, desdobrando-se no
ar, ela atrai e causa medo a quem ousa enfrentá-la.
Até onde minhas forças agüentaram, subi
os degraus por onde desfilavam milhares de turistas, filmando
e fotografando. Nos arredores, o comércio fervilhava
com a venda de produtos exóticos.
À
noite, assistimos a um fantástico espetáculo
de malabarismo executado por crianças, treinadas
desde cedo, que equilibravam dezenas de cadeiras, taças
e copos, sem perder o ritmo da música que acompanhava
os movimentos.
Em Pequim,
desde cedo, dez milhões de bicicletas circulavam
numa verdadeira massa de gente, que se dirigia para o trabalho.
Nas ruas largas e arborizadas, sem a Limpeza das de Tóquio,
vi chineses dormindo, comendo, cortando o cabelo, fazendo
a barba e massagens, praticando tai-chi em longas evoluções
de dança. Não vi um único exemplar
de cão ou gato, pois ambos são proibidos para
não dar despesas de alimentação.
O fechamento
de nossa excursão foi um jantar onde provamos o pato
laqueado. É uma receita famosa, deliciosa, mas que
leva umas doze horas para ser preparada e, como consome
muito gás, não serve para nossa economia.
Precisaria
de inúmeras páginas para descrever Pequim,
cidade de mulheres altas, de pele muito alva e cabelos negros,
que já tinha visitado nos sonhos. Pequim são
fantásticas imagens que se desdobram no tempo e no
espaço, em permanente desafio à imaginação.