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* Maria da Glária Rosa é Professora, Educadora, Escritora, foi Presidente da Fundação de Cultura do Estado


Data de Publicação: 28 de fevereiro de 1999



Do Livro
Cronicas de fim de século

da mesma Autora


"Tenho pena de fitar estas coisas, querer estas coisas,guardar estas coisas
Sinto pena de sonhar que volto a buscá-las, voltando a buscar-me
Povoando outra tarde como esta de ramos que minha alma guarda
Aprendo comigo que um sonho não pode ser sonhado outra vez"

Jost Hierro

Pequim no Grande Império do Meio


Maria da Glória Sá Rosa


Minha primeira impressão, ao desembarcar no aeroporto de Pequim, foi de estranhamento. Seria eu mesma que estava no coração do Grande Império do Meio Mundo para sentir de perto uma civilização milenar, que durante toda a vida foi parte de tantos desejos e divagações? A realidade me atordoava, eu teimava em permanecer no território dos sonhos, enquanto a cidade cintilava no colorido dos ideogramas, brilhando no alto dos edifícios.

Criança ainda, fascinada pela Ópera de Pequim, aprendi que na China as cores funcionam como símbolos de ideologias e sentimentos. Elas estão presentes na bandeira, nos cartazes publicitários, na vestimentas, no livrinho vermelho dos pensamentos de Mao, como simulacros de algo ligado às tradições. Como a cor, cada objeto, cada monumento tem um significado oculto, que precisa ser inserido no campo semântico das tradições.

Uma de minhas primeiras visitas foi à Praça Tian'anmem (da Paz Celestial), considerada a maior do mundo. Ali, revi mentalmente, o massacre de 1986, quando a polícia, não conseguindo dizimar todos os que lutavam pela liberdade de expressão, derrubou e destruiu a estátua que simbolizava os ideais dos estudantes, tentando com isso esfacelar, através de um ícone, as aspirações da juventude. Naquele espaço enorme, senti a força por trás dos ideogramas (que preservam séculos de cultura e continuam indecifráveis aos estrangeiros). Para entendê-los é preciso tornar-se chinês, apropriar-se de seus valores.

Impressionaram-me as figuras dos jovens de bicicleta e o retrato de Mao Tse Tung, brilhando no alto, como a recordar tristes tempos de medo e sofrimento.

A impressão de grandiosidade cresceu, quando percorri a Cidade Proibida, labirinto fechado ao mundo exterior e senti-me como figurante do filme de Bernardo Bertolucci, O Último Imperador. Naqueles imensos pátios, que podiam abrigar mais de dez mil soldados, o imperador, verdadeiro filho do céu, comandava seu exército. Foi ali que Mao Tse Tung subiu as escadas, em 1949, para falar às massas e proclamar a República Popular da China. O mesmo Mao que expulsou os estrangeiros, livrou a China da fome, foi o autor da Revolução Cultural, que acabou com a liberdade de expressão, condenou à prisão e à morte milhares de chineses e chegou até a promulgar um decreto, proibindo a música de Beethoven, considerada perigosa para os ideais revolucionários. Por tudo isso, vejo a China como nação de duas faces, lutando entre energias opostas (Yin e Yang), numa busca permanente de equilíbrio.


No Templo do Céu, estranha construção voltada para si mesma, onde o imperador vinha conversar com os deuses, distraí-me contemplando nos telhados os animais míticos que protegiam as cerimônias. No entanto, o grande encontro aconteceu na Grande Muralha, um colosso de quase três mil quilômetros de extensão, símbolo de um país recluso, cercado pela barbárie exterior e a civilização de dentro. Como um majestoso castelo, desdobrando-se no ar, ela atrai e causa medo a quem ousa enfrentá-la. Até onde minhas forças agüentaram, subi os degraus por onde desfilavam milhares de turistas, filmando e fotografando. Nos arredores, o comércio fervilhava com a venda de produtos exóticos.

À noite, assistimos a um fantástico espetáculo de malabarismo executado por crianças, treinadas desde cedo, que equilibravam dezenas de cadeiras, taças e copos, sem perder o ritmo da música que acompanhava os movimentos.

Em Pequim, desde cedo, dez milhões de bicicletas circulavam numa verdadeira massa de gente, que se dirigia para o trabalho. Nas ruas largas e arborizadas, sem a Limpeza das de Tóquio, vi chineses dormindo, comendo, cortando o cabelo, fazendo a barba e massagens, praticando tai-chi em longas evoluções de dança. Não vi um único exemplar de cão ou gato, pois ambos são proibidos para não dar despesas de alimentação.

O fechamento de nossa excursão foi um jantar onde provamos o pato laqueado. É uma receita famosa, deliciosa, mas que leva umas doze horas para ser preparada e, como consome muito gás, não serve para nossa economia.

Precisaria de inúmeras páginas para descrever Pequim, cidade de mulheres altas, de pele muito alva e cabelos negros, que já tinha visitado nos sonhos. Pequim são fantásticas imagens que se desdobram no tempo e no espaço, em permanente desafio à imaginação.