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"Nós somos a substância de que são feitos os sonhos" Shakespeare

* Maria da Glária Rosa é Professora, Educadora, Escritora, foi Presidente da Fundação de Cultura do Estado

História da indiazinha que desapareceu

Maria da Glória Sá Rosa




Ali estava ela, olhos vermelhos de tanto chorar, ouvindo pela enésima vez a voz do delegado:

-A senhora vendeu sua filha a este casal ?

-Doutor, isto é um absurdo. Eles roubaram minha menina, enquanto eu dormia. Quando acordei fiquei desesperada, o berço estava vazio, minha filhinha desaparecida.

Há meses passamos fome, Não há remédios nem médicos. Em nossa aldeia falta de tudo mas preferia morrer a vender uma criança que sofri tanto para ver nascer e que é minha razão de viver. Quando acordei e, não escutei o chorinho dela, senti logo que algum malvado tinha roubado minha Luã.

-A senhora não sabia que aqui há índias vendendo os filhos por cinco, dez reais e até em troca de pinga?

É o desespero, doutor, o medo de ver morrer os filhos à míngua. Uma moça em Dourados adotou um bebezinho indígena, mas a mãe se arrependeu, foi até lá, devolveu os 10 reais e arrancou a criança à força dos braços da nova mãe. Essa criança já havia passado de mão em mão. Tinha três registros. Já pensou a vergonha, quando um dia descobrir que foi tratada como mercadoria barata? São os tristes dias que vivemos em nossa tribo. Mas nem sempre foi assim.

Os olhos de Tiná estão longe, molhados nas águas do rio, espelho das alegrias nos brinquedos do banho diário, das pescarias, que prometiam mesa farta, trabalho, confiança no futuro.

A cabeça de Tiná é um moinho de memórias. Está longe, tecendo sonhos, tão leves como o deslizar do vento nos mandiocais. Sonhos atravessados por amores, pedaços de ilusões que se dissolvem no espaço. Nem presta atenção ao casal que saiu, levado pelo delegado.

O delegado saiu para terminar a investigação. A sinceridade de Tiná comoveu esse homem rude que até hoje se surpreende com a força dos crimes no sertão.

Há um ano atrás

Tiná está na festa que mudou o rumo de sua vida. Noite de lua cheia. Entre sussurros, a chegada do amor. A vida em comum, a filha, os dias difíceis depois que o marido saiu de casa para procurar emprego em outro lugar. Agora a tragédia a rondar a aldeia .O desespero mudo.A vida que nunca mais seria a mesma sem a filha.

De repente a voz do delegado:

-O que tinha esse casal a ver com a senhora, com sua filha?

São meus vizinhos, senhor delegado, estão sempre em minha casa, me conhecem bem.

-Pois esses seus "falsos amigos" foram filmados por um produtor de programa de televisão, quando tentavam vender sua meninazinha por quatro mil reais. No começo queriam um preço alto, depois baixaram para 300 reais. O produtor queria provar denúncias de venda de crianças na aldeia. É claro que tudo foi forjado. Por isso os criminosos foram agarrados no ato.

-E agora o que vai ser de minha vida, doutor?

-Fique tranqüila. Sabemos que a senhora é inocente.O casal confessou o crime e vai ficar preso. Enquanto isso, sua filhinha esteve sob o cuidado de uma instiuição religiosa. Vamos buscá-la Mas de agora em diante muito cuidado. Não deixe a porta aberta e desconfie dos maus vizinhos.

O coração de Tiná quase atravessou as paredes do corpo. Voltaram de repente as alegrias das manhãs em que a felicidade vivia solta, livre, como os pássaros no ar.

A vida tinha gosto de fruta madura.
Luã sorria nos braços da mãe, nascera de novo. Tiná também renascera, entre sonhos, que recriavam a vida. Saberia ela entre presentes, promessas de ajuda da população amiga que um dia desaparecera e depois voltara para o calor da aldeia, numa data bordada com o ouro do carinho, da confiança, reconquistada para sempre?