Maria
da Glória Sá Rosa
Ali estava ela, olhos vermelhos de tanto
chorar, ouvindo pela enésima vez a voz do delegado:
-A senhora vendeu sua filha a este casal ?
-Doutor, isto é um absurdo. Eles roubaram minha menina,
enquanto eu dormia. Quando acordei fiquei desesperada, o
berço estava vazio, minha filhinha desaparecida.
Há meses passamos fome, Não há remédios
nem médicos. Em nossa aldeia falta de tudo mas preferia
morrer a vender uma criança que sofri tanto para
ver nascer e que é minha razão de viver. Quando
acordei e, não escutei o chorinho dela, senti logo
que algum malvado tinha roubado minha Luã.
-A senhora não sabia que aqui há índias
vendendo os filhos por cinco, dez reais e até em
troca de pinga?
É o desespero, doutor, o medo de ver morrer os filhos
à míngua. Uma moça em Dourados adotou
um bebezinho indígena, mas a mãe se arrependeu,
foi até lá, devolveu os 10 reais e arrancou
a criança à força dos braços
da nova mãe. Essa criança já havia
passado de mão em mão. Tinha três registros.
Já pensou a vergonha, quando um dia descobrir que
foi tratada como mercadoria barata? São os tristes
dias que vivemos em nossa tribo. Mas nem sempre foi assim.
Os olhos de Tiná estão longe, molhados nas
águas do rio, espelho das alegrias nos brinquedos
do banho diário, das pescarias, que prometiam mesa
farta, trabalho, confiança no futuro.
A cabeça de Tiná é um moinho de memórias.
Está longe, tecendo sonhos, tão leves como
o deslizar do vento nos mandiocais. Sonhos atravessados
por amores, pedaços de ilusões que se dissolvem
no espaço. Nem presta atenção ao casal
que saiu, levado pelo delegado.
O delegado saiu para terminar a investigação.
A sinceridade de Tiná comoveu esse homem rude que
até hoje se surpreende com a força dos crimes
no sertão.
Há um ano atrás
Tiná está na festa que mudou o rumo de sua
vida. Noite de lua cheia. Entre sussurros, a chegada do
amor. A vida em comum, a filha, os dias difíceis
depois que o marido saiu de casa para procurar emprego em
outro lugar. Agora a tragédia a rondar a aldeia .O
desespero mudo.A vida que nunca mais seria a mesma sem a
filha.
De repente a voz do delegado:
-O que tinha esse casal a ver com a senhora, com sua filha?
São meus vizinhos, senhor delegado, estão
sempre em minha casa, me conhecem bem.
-Pois esses seus "falsos amigos" foram filmados
por um produtor de programa de televisão, quando
tentavam vender sua meninazinha por quatro mil reais. No
começo queriam um preço alto, depois baixaram
para 300 reais. O produtor queria provar denúncias
de venda de crianças na aldeia. É claro que
tudo foi forjado. Por isso os criminosos foram agarrados
no ato.
-E agora o que vai ser de minha vida, doutor?
-Fique tranqüila. Sabemos que a senhora é inocente.O
casal confessou o crime e vai ficar preso. Enquanto isso,
sua filhinha esteve sob o cuidado de uma instiuição
religiosa. Vamos buscá-la Mas de agora em diante
muito cuidado. Não deixe a porta aberta e desconfie
dos maus vizinhos.
O coração de Tiná quase atravessou
as paredes do corpo. Voltaram de repente as alegrias das
manhãs em que a felicidade vivia solta, livre, como
os pássaros no ar.
A vida tinha gosto de fruta madura.
Luã sorria nos braços da mãe, nascera
de novo. Tiná também renascera, entre sonhos,
que recriavam a vida. Saberia ela entre presentes, promessas
de ajuda da população amiga que um dia desaparecera
e depois voltara para o calor da aldeia, numa data bordada
com o ouro do carinho, da confiança, reconquistada
para sempre?