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História
de meu bisavô

Maria
da Glória Rosa*
Não conheci pessoalmente meu bisavô,
Antônio Ferreira mas é como se o tivesse visto
e convivido mil anos com ele, tão forte é sua
presença dentro de mim. Na pequena cidade do Ceará
em que viveu toda uma existência, seu nome permanece
nas ruas, nas escolas e hospitais que ajudou a fundar. Sem
ter feito estudos superiores, atuava como advogado a quem
a população recorria nos casos difíceis
de resolver. Por diversas vezes administrou a cidade, preocupado
acima de tudo com os problemas da população
carente
. Era daqueles cidadãos para os quais a palavra valia
um fio de cabelo. Extremamente religioso sentiu-se agraciado
por Deus, quando um dos filhos ingressou no seminário
decidido a ser padre.
Minha mãe que o adorava, gostava de lembrar as festas
celebradas por ocasião da ordenação daquele
que seria mais tarde Padre Carlos Sousa Ferreira, amado e
reverenciado por cada membro da família , orgulho da
cidade e do Estado.
Muito mais que uma pessoa meu bisavô era um mito, principalmente
depois que desapareceu da cidade sem deixar rastro. Nunca
mais foi visto no correio de onde pontualmente remetia a correspondência
para os filhos, nas festas das escolas e muito menos nas missas
dominicais, onde podia ser observado no banquinho de luxo,
com almofada de veludo, para os joelhos, no qual o nome gravado
em ouro definia a classe social a que pertencia.
O desaparecimento de meu bisavô ocorreu depois de uma
viagem ao Maranhão, onde fora a convite de Padre Carlos
para as festas da padroeira local . A partir daí sumiu
sem deixar rastros visíveis.
Minha bisavó vivia só no casarão
com os criados, fechada atrás de quatro paredes, como
viúva abandonada. Não procurava explicações,
não foi à policia, o que aumentava a curiosidade
em torno do caso.
A cidade com o tempo cansou de perguntar por ele. Muitas lendas
surgiram e desfizeram-se como ondas na praia. Diziam que estava
escondido no Maranhão, depois de ter atingido acidentalmente
um homem. Outros comentavam que fugira para outro estado depois
que descobrira através de uma carta que minha avó
fora noiva, no passado de seu pior inimigo. Até que
um dia a verdade veio a tona, através de uma criada
que não suportou o peso do segredo e vomitou a verdade
que a tantos atormentava. Meu bisavô, como cadáver
insepulto, estava bem vivo num quarto do velho casarão,
de onde não saía nem mesmo para as necessidades
elementares.
Chegara do Maranhão, altas horas da noite, calado,
cabisbaixo, isolara-se no quarto onde apenas minha avó
e uma criada tinham permissão de entrar. O que faria
no silêncio daquelas paredes que ajudara a levantar,
anos atrás,quando só havia risos. na casa outrora
povoada de sonhos e crianças?
Como um pecador que decide pagar em vida
os mal feitos da humanidade, iniciou atormentado calvário,
do qual a ninguém forneceu explicações.Contou
a criada que muitas vezes o surpreendeu chorando, enquanto
desfiava as contas do rosário.
Até que um dia, a cidade viu entrar no casarão
a figura do filho padre, chamado às pressas para abençoar
os últimos momentos do pai.
Ajoelhado ao pé da cama, o padre passou de confessor
a penitente no choro convulsivo, em que repetia dominado pelo
desespero:
-Me perdoe, meu pai..Me dê sua bênção.
Não vá embora sem falar comigo, sem me dar seu
perdão.
Só minha mãe assistiu a esse diálogo
que marcou seus dias e do qual não falou ao resto da
família.
As portas do casarão abriram-se para o embarque de
meu avô à morada final em que ricos e pobres
se identificam.
O mistério continuava desafiando as consciências,
multiplicando versões.
Segundo uma delas, meu avô descobrira no Maranhão
o caso do filho padre com uma mulher, casada com um primo
da família, em cuja casa ele se hospedava.
Horrorizado, censurou asperamente o filho que a tudo negou,
acusando o pai de malicioso, capaz de ver pecado, onde existia
apenas afeto.
Meu bisavô teve vontade de acreditar, mas a presença
de duas crianças, em tudo semelhantes ao sacerdote,
dissipou as dúvidas. Depois de amarga discussão,
em que se sentiu, humilhado, ultrajado, deixou o Maranhão
e escondeu a vergonha no silêncio da prisão domiciliar.
Segundo minha mãe, meu bisavô teve a sorte de
não viver para ouvir falar dos sucessos profissionais
de dois netos bastardos de cuja educação meu
tio se encarregou.
Teria sido essa verdadeira razão do isolamento de meu
bisavô?
Um pai tão dedicado não deveria compreender
e perdoar as fraquezas do filho?
Ou teriam prevalecido os rígidos princípios
do cidadão honrado para o qual as leis da religião
estavam acima das familiares?
Parodiando Machado de Assis. lembramos que as pessoas que
poderiam esclarecer as dúvidas estavam mortas e enterradas.
O mistério permanece nas indagações que
até hoje são sussurradas nas conversas tecidas
ao pé do fogo da pequena cidade nordestina.
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