
Maria
da Glória Rosa*
Quando menina, ouvi de minha mãe
uma história que tirou o sossego da pequenina cidade
do Ceará onde morávamos. Luisinha, uma afilhada
de minha avó, moça tranqüila, religiosa,
comunicou à madrinha que todas as tardes, nossa tia
Vinha, que morrera afogada há vários anos,
aparecia no fundo do quintal para alertar a família
sobre diversos erros cometidos e que precisavam ser desfeitos.O
primeiro deles se tratava de inocentar meu primo Felipe
do desaparecimento de 50 reais da carteira de meu avô,
o que custara ao menino, na época do acontecido,
surra das mais doídas, além da humilhação
diante da família. Quem roubara o dinheiro fora ela,
Vinha, que agora curtia o remorso de ter assistido impassível
a uma injustiça praticada contra uma criança.
-Madrinha, venha comigo hoje à tarde ao fundo do
quintal que lhe provarei com outras histórias como
não estou mentindo. A alma de sua filha, Dona Vinha
está sofrendo as penas do purgatório e só
terá sossego, quando ela cumprir as missões
que Nosso Senhor lhe confiou. Missões de justiça,
de liberação da culpa de inocentes.
Quando o sol começou a se esconder, minha avó
e minhas duas tias, acompanhadas de outras curiosas, compareceram
ao local combinado. Aterrorizadas, ouviram um barulho de
pedras lançadas de longe, enquanto Luisinha caía
em transe.Quando despertou, voltou-se para minha avó:
-A senhora tem que inocentar seu neto Felipe, contando a
todos essa história. Depois tem que mandar celebrar
uma missa pela alma de Dona Vinha. Ela disse, também,
para a senhora tomar cuidado com as saídas de meu
padrinho. Ele está andando com Dona Carmen, sua melhor
amiga.Os dois estào rindo de sua ignorância.
Os fatos eram claros demais para minha avó deixasse
de acreditar neles. O caso do roubo do dinheiro era uma
ferida que até hoje ainda magoava meu tio. Minha
avó reuniu a família e proclamou envergonhada
a inocência do neto, que entre recriminaçòes
queixou-se amargamente da falta de compreensão dos
pais. O caso de meu avô era comentado em segredo.À
noitinha minha avó comprovou a versão da afilhada
ao surpreender o marido na cama com a melhor amiga.
O mistério durou meses, atiçou a curiosidade,
o ódio e a vingança da população.
Cada nova revelação abalava os frágeis
alicerces morais, de famílias que se julgavam invulneráveis,
semeava dúvidas, plantava certezas cruéis.
-Madrinha, Dona Vinha disse que o Padre Conrado precisa
deixar nossa paróquia. Ele vive em pecado com a mulher
do prefeito. É o pai das duas crianças dela.
A senhora tem que procurar o bispo e contar tudo a ele.
Mas antes que isso fosse preciso, a a notícia chegou
à casa do Prefeito, que invadiu a sacristia e tentou
matar o padre. Não encontrou viva alma. Padre Conrado
montara a cavalo e desaparecera na noite. Nunca mais foi
visto nem dele se souberam notícias.
O bispo nomeou um novo pároco que decidiu ir pessoalmente
ao encontro da assombração. Não a viu,
mas ficou impressionado com a reação da moça,
depois de ouvir o relato da última exigência,
só a ele confiada. A pequena multidão que
aguardava curiosa, retirou-se sem nada descobrir. Padre
Antônio, com a energia de quem nada deve, ordenou
a Luisinha que nada contasse a outrem. Segundo ele era algo
tão grave, tão terrível, que divulgado,
traria conseqüências imprevisíveis, impossíveis
de serem avaliadas e suportadas.
Padre Antônio dispersou a multidão, proibiu
Luisinha, sob pena de excomunhão, de voltar a ouvir
os apelos da morta.
A cidade durante dias viveu sufocada sob o peso de uma dúvida
que roía as entranhas de cada habitante, como os
dentes de um animal cuja crueldade crescesse em função
da mórbida curiosidade.local.
Padre Antônio mandou celebrar missas ao ar livre,
organizou semanas de penitências, mas nunca revelou
o que ouvira. À minha avó confidenciou um
dia. É preciso ter a coragem de conviver com certas
verdades cruéis, que vindas ä tona podem levar
a coisas piores do que a morte.
Cada mente ruminava horrores. Seria o caso de Seu Carlos
Almeida que engravidara a própria filha, que escondera
a gravidez e enterrara a criança no quintal? Ou das
irmãs Melo que adoravam reunir as amigas para contar
histórias pornográficas lidas às escondidas?
Ou do Professor Altamiro que convidava os alunos reprovados
em sua matéria a visitá-lo na calada da noite
para "aulas particulares", em troca de boas notas?
Mil hipóteses, nenhuma certeza. Até hoje as
pessoas mais velhas ainda indagam qual teria sido a mensagem
aterrorizadora de Dona Vinhas.
A cidade retomou a calma, as visagens desapareceram. A dúvida
continua martelando algumas consciências locais mas
nem você, leitor nem eu, por mais que nos esforcemos,
conseguiremos penetrar a essência de uma verdade,
cuja extensão ignoramos.
Afinal, as aparições teriam sido verdadeiras
ou uma ilusão dos sentidos exacerbados de Luisinha?
Até onde a invenção, até onde
a realidade?
Não seria a jovem uma dessas mentes perversas que
sob a capa da piedade, encondem desejos sádicos mal
resolvidos? Nenhuma resposta
.
Quando mataram o Padre Antônio cresceram as duvidas.
Murmurava-se que tinha sido castigo de grave falta cometida
no passado mas nada ficou provado. Mais de uma pessoa comentou
que o tal segredo estava ligado ao assassinato do padre.
Diz Miguel Torga em um de seus contos que quanto menor,
mais mesquinha, mais egoísta uma cidade é.
Não teriam sido as histórias fruto do inconsciente
coletivo de uma cidade pequena sem nada de importante a
construir, na qual os habitantes para preencher o tempo
inventavam maldades sobre a vida alheia?
Minha mãe morta e enterrada não está
mais aqui para conjecturar respostas. Foram-se os fatos,
ficaram as versões. Escolha você leitor a que
lhe parecer mais lógica.
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