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Maria da Glória Sá Rosa



A Divisão do Estado
Como Fator de Transformação de Nossa Capital


* Maria da Glória Sá Rosa

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o Mundo é composto de mudança.Camões

A 11 de outubro de 1977, Mato Grosso deixou de ser uno para repartir-se em dois blocos distintos, cada qual com suas características próprias, sua cultura, seu jeito peculiar de situar-se diante dos problemas do universo. Surgiram assim os estados de Mato Grosso (capital Cuiabá) e Mato Grosso do Sul, com sede administrativa em Campo Grande.

As duas regiões, possuidoras de traços distintivos próprios, podiam agora crescer livres, principalmente Mato Grosso do Sul, que sempre foi objeto de descaso do poder central, emanado de Cuiabá, preocupado acima de tudo com a contribuição advinda do desenvolvimento econômico de nossa região, para usufruir das riquezas aqui produzidas.

As primeiras notícias da Divisão do Estado, transmitidas à população pela Rádio Cultura, geraram explosões merecidas de fogos de artifício e de entusiasmo do povo de Campo Grande que correu ao centro da cidade para saudar o início de uma nova era de profundas mudanças na paisagem econômica, social e cultural da cidade.Uma das mais visíveis transformações ocorreu na área da arquitetura.

Campo Grande, uma cidade de horizontal, de construções aparentemente iguais, viu-se de repente cercada de edifícios elegantes, como flores erguendo-se sobranceiras em novos espaços. Casas funcionais, sólidas e leves, abertas ao sol, à felicidade de existir, substituíram as velhas habitações.

Ao tornar-se capital, a cidade tomou consciência do potencial criativo, capaz de atrair empresas, fomentar indústrias, o que provocou a comunicação, em nível de igualdade com os principais centros econômicos do País e do mundo. De tímida e provinciana, criticada um dia pelo mau gosto do centro comercial pelo crítico de arte Pietro Maria Bardi, quando nos visitou nos anos 60, foi-se transformando numa metrópole ousada, de largas avenidas repletas de verde, com uma população vinda de todos os recantos do País e do mundo para colaborar em seu rejuvenescimento.
As mudanças sucederam-se em cadeia multiplicadora, manifestando-se nítidas nos sistemas de comunicação que através do rádio, da TV, do telefone, acabaram com o isolacionismo a que nos condenara o passado. Surgiram novas escolas, a Universidade Estadual foi federalizada, ao mesmo tempo em que novos centros de ensino superior garantiram aos estudantes a possibilidade de continuação dos estudos sem abandonar o local. de origem.A Divisão funcionou assim como sopro renovador de idéias de emoções, acentuou a busca da identidade, a vontade de saber quem somos, de que matéria é feito o sul-mato-grossesnse. Como se o vento da mudança tivesse tomado conta da população, modificaram-se comportamentos, rejeitaram-se velhos esquemas, num processo de nascimento e morte, que marca a vida de todas as cidades.

O setor cultural antes tratado de modo supérfluo ganhou status de cidadania.Criou-se, em 1978, com sede em Campo Grande a primeira Fundação Estadual de Cultura, que deu início a uma série de órgãos do mesmo gênero destinados a estimular as artes, a dar feições de modernidade à nossa capital. Multiplicaram-se os concertos, as galerias de arte, os espetáculos teatrais, as feiras de artesanato, os lançamentos de livros, os debates, com a Imprensa divulgando e democratizando o acesso à arte.Campo Grande,considerada antes uma cidade sem preocupação com o passado, transformou-se num centro valorizador de símbolos, heróis e monumentos, com a revitalização da Pensão Pimentel (Morada dos Baís) com o Museu José Antônio Pereira, com o Relógio da 14 de julho, com a gravação do Hino da cidade pela Fundação Barbosa Rodrigues. Aconteceram diversos tombamentos de sítios históricos e o Centenário de Campo Grande foi resgatado através de livros e discos. Ao lado do progresso material,o coração da cidade renovou-se com o calor da música, da dança, do teatro,da literatura, como se dentro de si pulsasse o sangue dos trabalhadores da arte,construindo monumentos de pedra e sonho,de cal e de esperança numa sociedade,em que os valores espirituais justificassem a presença do homem sobre a terra.

24 anos após a Lei Complementar de 31 de outubro, é gratificante avaliar os benefícios de todas as ordens que sua publicação trouxe a uma cidade de antenas parabólicas, shoppings, parques, universidades e que, embora inserida na modernidade, permanece fiel ás origens, aos traços essenciais, pelo poder da Cultura.

 

 



* Maria da Glória Rosa é Professora, Educadora, Escritora, foi Presidente da Fundação de Cultura do Estado