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Maria da Glória Rosa
Nelly Martins,
artista de múltiplos dons, que reinventava nas telas : flores,
mulheres, pássaros, santos, que tecia histórias e
poemas, com o fio mágico das palavras, mulher que gerações
aprenderam a respeitar e amar pela doçura da voz, a coerência
do comportamento, a generosidade das ações, partiu
com a mesma delicadeza com que viveu. Ausentou-se de nossos olhos
atônitos, incapazes de compreender o mistério de uma
vida acesa para a arte, para a família para os necessitados,
que de repente se apagou, como uma vela sobre a qual soprou o vento
crepuscular.
No entanto, Nelly apenas se ausentou. O olhar clínico, herdado
do pai, o médico Vespasiano Martins continua presente nos
rostos femininos cujo grito silencioso pressentiu, mulheres que
gritam “até quando” e por quê” num
protesto contra a violência, a fome, o medo do amanhã.
O gosto pela pesquisa persiste nos livros em que resgatou as figuras
do pai, do avô Bernardo Franco Baís e da tia Lydia
Baïs , da qual herdou o talento para as artes plásticas.
O prazer de brincar com as palavras pode ser descoberto nas inúmeras
crônicas e poemas, que, segundo ela, brotavam a pretexto das
coisas mais desimportantes, como a visão de uma flor ou o
vôo de um sabiá.
Suas narrativas de viagens pelos Estados Unidos, Europa e países
Orientais são páginas de grande sensibilidade que
nos transportam a regiões de sonhos.
Em tudo que fazia, ou produzia, deixava transparecer o amor pelo
marido, Wilson Martins, companheiro de 60 anos de lutas, pelos filhos
Thaís, Celina e Nelson e pelos sete netos.
Os amigos sabiam que podiam contar a qualquer momento com o apoio
dessa mulher que detestava homenagens e nunca se valeu do prestígio
do marido para se projetar.
Seu compromisso era com a arte e a cultura de MS que muito devem
à luta que encetou pela preservação da história,
e dos monumentos do Estado, com as atividades que promoveu para
corrigir a desigualdade social..
Vai ser triste não ouvir mais sua voz ao telefone nem poder
contar com sua força nas decisões da Academia Sul-mato-grossense
de Letras.
Como no poema de Manuel Bandeira, sua presença, continuará
forte na vida feita de arte, de dedicação ao próximo,
nas lembranças de tantas coisas que ajudou a compor.
Os anos, os minutos e segundos passarão, mas Nelly vai ficar,
conforme escreveu um dia, numa de suas crônicas, a respeito
das mulheres de seus quadros : “anos que se passaram e as
mulheres ficaram.”
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