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Maria da Glária Rosa
Do retrato no
jornal eles me olham. São diferentes e iguais a um só
tempo. A mesma cara, o mesmo largo sorriso de Alba, fonte geradora
de talentos difíceis de serem explicados. Como justificar
que sete filhos sejam todos possuidores de incrível propensão
para alimentar-se de música, como se nada mais na vida fosse
importante, além do fato de criar, nesse mistério
que os torna raros e únicos diante de nosso olhar extasiado?
No palco, ali
estavam eles como personagens de um momento, que cada um de nós
sorvia na certeza de que nunca mais se repetiria com a intensidade,
o calor a emoção, que acendia brilho diferente no
olhar do público participante. Eles, os atores, estavam ali
voluntariamente para celebrar o prazer de cantar, para fazer renascer
no silêncio feito de sonhos, de folhas brotando no firmamento
da arte, os laços de família, que os tornam tão
singulares no panorama da arte de MS.
Quando surgiram, um ao lado do outro, vestidos de negro, para entoar
em conjunto Quyquyhô, um arrepio percorreu a pele da platéia.
Estava consubstanciada em matéria de poesia a história
de vida de uma família que há mais de trinta anos
tece em notas musicais a biografia de nossa cultura.
Humberto, Sérgio,Geraldo, Celito, Tetê , Alzira e Jerry
são símbolos de uma geração que acredita
na importância do trabalho como sobrevivência da sociedade
em que se inserem. Por isso, dores e amores misturados aos traços
distintivos de MS ressoaram nas vozes de todos eles , como estrelas
a brotar na solidão da noite.
O imprevisível foi a tônica do show.
Quando Geraldo cantou É Necessário acompanhado ao
violão, sua infância, sua participação
nos festivais, a luta para lançar as próprias composições,
afloraram nas notas da melodia, como parábola de curvas misteriosas.
A entrada de Celito com um visual novo, ao qual incorporou gestos
adequados à interpretação de Gata Vadia, constituiu
surpresa para quem costuma acompanhar suas performances habitualmente
sóbrias. E o encantamento do público que lotava o
Palácio Popular da Cultura, na noite de 22 do corrente ,alcançou
o clímax na forma dramática que Humberto conferiu
ao tango Malditos Astros. Conhecido como artista plástico,
demonstrou com voz possante , gestos largos, que transita nas vias
do teatro e da música com a mesma facilidade que nas da pintura.
Nunca mais a canção de sua autoria será vivida
com tanta intensidade.
Entre as várias interpretações de Tetê,
a mais bela, a meu ver, foi quando se transformou em deusa da floresta,
ao soltar pássaros de todas as cores e plumagens de uma garganta
transformada em fonte criadora.
Alzira não se preocupou em enfatizar a suavidade que caracteriza
sua voz privilegiada Com firmeza, estabeleceu conexão das
mais intensas com o público, quando cantou Bomba H, em que
as palavras eram punhais rasgando a escuridão.
Sérgio trouxe a presença de um desempenho marcado
pela segurança . Gilson , primo do grupo, com importante
obra lançada , acrescentou novos tons à beleza do
espetáculo, que contou com excelente banda para acompanhar
os intérpretes. Jerry imprimiu o calor da juventude à
canção Me Beije Agora.
Daniel filho de Tetê e Iara, filha de Alzira provaram, como
no verso de Drummond, que a identidade do sangue age como cadeia.
A sensibilidade, o talento da família se fizeram presentes
nas performances dos dois.
À meia noite, desfez-se a moldura do retrato, seus componentes
desferiram vôo. A magia do momento ficou na memória
de quem teve o privilégio de participar do show Espíndola
Canta.
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