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Maria da Glória Rosa
Os
encantos de Campo Grande residem em suas aparentes desarmonias e
contradições. Tudo é contraditório nesta
cidade de 104 anos que não pede licença para crescer
e fita com espanto o passado de relativa tranqüilidade, sem
drogas, seqüestros, automóveis, telefones, computadores
e televisões. Naquele tempo havia as alegrias do circo e
das sessões de cinema, das crianças jogando pião
e bolita nas calçadas, caminhando tranqüilas para as
escolas.
As novelas eram substituídas por casos contados nas rodas
de amigos, sem a preocupação com os problemas do amanhã.
No ar flutuava a suavidade da convivência
Hoje Campo Grande parece ter perdido os caminhos da lógica.
Como se descrevesse piruetas no ar, a vida se processa às
avessas, sobre padrões flutuantes, ambíguos. Em certos
momentos, a cidade parece mergulhada na fantasia dos romances de
Gabriel Garcia Márquez, em que a consciência do absurdo
promove a ruptura com o passado, criando uma atmosfera onírica
em que as pessoas não se reconhecem.
Olham-se no espelho e descobrem-se situadas num grande ritual carnavalesco,
no qual os poderes hierárquicos de classe, título
idade e fortuna desapareceram..A ambivalência toma conta das
ações expressas em símbolos que incorporam
elementos de renovação e de morte..
Campo Grande é hoje uma cidade fantástica, detentora
dos mais modernos veículos de comunicação mas
que ignora quase tudo de si mesma.
Pelas ondas dos satélites, pelas antenas parabólicas,
pelos celulares, pelos canais de TV a cabo seus habitantes percorrem
as ruas de São Paulo, os arredores do Rio de janeiro, de
Nova Iorque e de Milão, mas não sabem os nomes dos
principais ruas e bairros da cidade. Poucos poderiam dizer quem
foi Conceição dos Bugres, Vespasiano Martins, Emílio
Schnoor e outros que dão nome a ruas e monumentos.
Aqui os intelectuais costumam ser alvo de ironia, de desprezo. Para
o lugar, que lhes caberia por direito, são chamadas pessoas
de outras regiões . Suas produções só
costumam ser valorizadas, quando quando a imprensa nacional os reconhece.
A cada momento, surgem shopping centers, arranha-céus,supermercados,
edifícios monumentais de luxo e de bom gosto. Enquanto isso,
pedra por pedra são destruídas as edificações
que guardam a memória das passadas gerações.
A sociedade, preconceituosa fechada de modo geral, sabe mostrar-se
liberal com as minorias étnicas : homossexuais, negros, índios,
quando se trata de assunto de seu interesse.
O fluxo migratório deu ensejo a vasto repertório de
tensões, intrigas, assuntos conflitantes. Entretanto, até
hoje, nenhum escritor soube utilizar-se desse potencial para escrever
significativo romance.
Estudantes de do ensino fundamental, médio e superior povoam
as ruas . Não existe uma livraria que preencha de modo pleno
suas carências intelectuais.
Apesar de ser farta a produção de carne e peixe, a
população é obrigada a adquiri-los por alto
preço.
Todos os níveis de modernidade : o consumismo, a paixão
pela máquina, pelo diheiro devoram sufucam e alienam a cidade
em que a desarmonia está presente nos contrastes sociais,
nas diferenças entre as moradias das periferias e as dos
os bairros no ato da Afonso Pena.
Por um processo de metaforização seus habitantes reduziram-se
aos dentes de uma máquina, numa personalização
do todo.
O que é hoje Campo Grande?
Um campo semântico de sinais luminosos, de ruas, de casas,
de imagens que atordoam nossos ouvidos e cansam nossas retinas.
Nessa harmonia secreta, fruto da desarmonia, viceja nosso amor por
Campo Grande.
Há algo no ar que nos arrasta, nos prende à cidade
da qual sentimos saudades, quando estamos longe e que não
trocamos por nenhuma outra.
Confesso-me viciada em seus cheiros, seu trânsito louco, na
conversa distraída de seu povo.
Como deixa-la se se minhas raízes estão impregnadas
do vermelho de seu solo fincadas nele para toda a eternidade?
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