| Augusto
Matraga |
A
Salvação pela Força da Palavra |
Maria da Glória Sá Rosa*
A Hora e a Vez de Augusto Matraga, uma das
mais bem construídas narrativas do universo literário
brasileiro, é a história da salvação
pela força da palavra. Em todo o relato, é
a palavra o elemento desencadeador das ações
da personagem, na luta para escapar às armadilhas
do destino e permanecer fiel às promessas de mudança
de vida.
O herói é Augusto Matraga,
indivíduo arrogante, agressivo, fanfarrão,
que ostenta no próprio nome Augusto (divino) e Matraga
(matraca, barulhento) as contradições que
irão marcá?lo em todo o desenrolar dos acontecimentos.
Acostumado a humilhar, a matar, a atacar os mais fracos
para deles zombar depois, toma?se, de repente, por obra
do destino, presa fácil dos capangas do Major Consilva,
seu inimigo mor, que o moem de pancadas, marcam?no a ferro
em brasa, como a uma rês para lançá?lo
meio morto, no fundo de um vale. Socorrido por um casal
de pretos velhos, com quem passa a morar, descobre no fundo
de si mesmo uma luzinha brilhante, que ilumina a escuridão
da existência desnorteada. A queda no abismo é
a descida ao fundo do poço interior, símbolo
metonímico do encontro consigo mesmo. A partir dali,
como nas narrativas cinematográficas, regressa às
lembranças da infância, arrepende?se dos malefícios
cometidos e decide tomar?se um homem novo. De importância
decisiva na conversão, são as orações
ensinadas pela avó, que lhe retomam a memória,
como bálsamo vivificador. Repetindo a cada instante
"que vai para o céu nem que seja a porrete,
que sua vez e sua hora há de chegar". Passa
a levar a vida de asceta, a fazer caridade, na luta contra
as forças do mal, de posse de fórmulas mágicas,
que o ajudam a resistir às tentações.
A vida é um dia de carpina, com sol quente, que às
vezes custa a passar, mas sempre passa. E a de Augusto transcorre
como a de um santo, que tivesse renunciado às pompas
e vaidades do mundo, até o momento em que a tentação
chega na figura do jagunço Seu Joãozinho Bem
Bem, que o convida a integrar seu bando e a retomar ao mundo
de loucas aventuras, que havia abandonado. Numa metáfora
das mais pertinentes, nossa existência funciona como
um jogo em que cada um tem seus seis meses de azar e para
quem não sai em tempo de cima da linha até
apito de trem é mau agouro. Augusto que, através
da desgraça conseguira livrar?se do mal, repetindo
a oração Jesus manso e humilde de coração,
fazei meu coração semelhante ao vosso, resiste
ao convite tentador e morre lutando contra Joãozinho
Bem Bem na defesa dos mais fracos. Recorda com tristeza
a filha e a mulher que outrora desprezara e entrega a alma
a Deus. Sua hora e sua vez haviam finalmente chegado.
Aos que acham difícil a incursão
no universo de Guimarães Rosa, este conto é
a melhor maneira de fazê?lo. À medida que avançamos
na leitura de uma história repleta de ritmo e de
cor, de valorização da paisagem brasileira,
tornamo?nos partidários da luta de Augusto contra
seus demônios interiores, nesse mundo onde tudo é
muito pequeno e os arrogantes, os prepotentes têm
que sofrer as penas da humilhação e da desgraça
para conseguirem o perdão dos pecados.
A Hora e a Vez de Augusto Matraga é
o último conto de Sagarana, cuja leitura é
essencial ao conhecimento do Brasil e de sua literatura.
É a história da palavra, ajudando o homem
a sobreviver ao aboio da tristeza, pois Deus mede a espora
pela rédea e não tira pé de arrependido
nenhum. É um drible contra as forças do mal.
A superação do destino pela
palavra, arma secreta de nossa sobrevivência, é
a grande mensagem da estória. Pela palavra resistimos.
Na prosa. Na poesia. Na vida, sobretudo. Com ela nos salvamos. |