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Data de Publicação: 29 de abril de 2OOO

"Já devíamos ter aprendido e de uma vez para sempre que o destino tem que fazer muitos rodeios para chegara qualquer parte".
José Saramago



* Maria da Glória Rosa é Professora, Educadora, Escritora, foi Presidente da Fundação de Cultura do Estado


Augusto Matraga
A Salvação pela Força da Palavra

Maria da Glória Sá Rosa*

A Hora e a Vez de Augusto Matraga, uma das mais bem construídas narrativas do universo literário brasileiro, é a história da salvação pela força da palavra. Em todo o relato, é a palavra o elemento desencadeador das ações da personagem, na luta para escapar às armadilhas do destino e permanecer fiel às promessas de mudança de vida.

O herói é Augusto Matraga, indivíduo arrogante, agressivo, fanfarrão, que ostenta no próprio nome Augusto (divino) e Matraga (matraca, barulhento) as contradições que irão marcá?lo em todo o desenrolar dos acontecimentos. Acostumado a humilhar, a matar, a atacar os mais fracos para deles zombar depois, toma?se, de repente, por obra do destino, presa fácil dos capangas do Major Consilva, seu inimigo mor, que o moem de pancadas, marcam?no a ferro em brasa, como a uma rês para lançá?lo meio morto, no fundo de um vale. Socorrido por um casal de pretos velhos, com quem passa a morar, descobre no fundo de si mesmo uma luzinha brilhante, que ilumina a escuridão da existência desnorteada. A queda no abismo é a descida ao fundo do poço interior, símbolo metonímico do encontro consigo mesmo. A partir dali, como nas narrativas cinematográficas, regressa às lembranças da infância, arrepende?se dos malefícios cometidos e decide tomar?se um homem novo. De importância decisiva na conversão, são as orações ensinadas pela avó, que lhe retomam a memória, como bálsamo vivificador. Repetindo a cada instante "que vai para o céu nem que seja a porrete, que sua vez e sua hora há de chegar". Passa a levar a vida de asceta, a fazer caridade, na luta contra as forças do mal, de posse de fórmulas mágicas, que o ajudam a resistir às tentações. A vida é um dia de carpina, com sol quente, que às vezes custa a passar, mas sempre passa. E a de Augusto transcorre como a de um santo, que tivesse renunciado às pompas e vaidades do mundo, até o momento em que a tentação chega na figura do jagunço Seu Joãozinho Bem Bem, que o convida a integrar seu bando e a retomar ao mundo de loucas aventuras, que havia abandonado. Numa metáfora das mais pertinentes, nossa existência funciona como um jogo em que cada um tem seus seis meses de azar e para quem não sai em tempo de cima da linha até apito de trem é mau agouro. Augusto que, através da desgraça conseguira livrar?se do mal, repetindo a oração Jesus manso e humilde de coração, fazei meu coração semelhante ao vosso, resiste ao convite tentador e morre lutando contra Joãozinho Bem Bem na defesa dos mais fracos. Recorda com tristeza a filha e a mulher que outrora desprezara e entrega a alma a Deus. Sua hora e sua vez haviam finalmente chegado.

Aos que acham difícil a incursão no universo de Guimarães Rosa, este conto é a melhor maneira de fazê?lo. À medida que avançamos na leitura de uma história repleta de ritmo e de cor, de valorização da paisagem brasileira, tornamo?nos partidários da luta de Augusto contra seus demônios interiores, nesse mundo onde tudo é muito pequeno e os arrogantes, os prepotentes têm que sofrer as penas da humilhação e da desgraça para conseguirem o perdão dos pecados.

A Hora e a Vez de Augusto Matraga é o último conto de Sagarana, cuja leitura é essencial ao conhecimento do Brasil e de sua literatura. É a história da palavra, ajudando o homem a sobreviver ao aboio da tristeza, pois Deus mede a espora pela rédea e não tira pé de arrependido nenhum. É um drible contra as forças do mal.

A superação do destino pela palavra, arma secreta de nossa sobrevivência, é a grande mensagem da estória. Pela palavra resistimos. Na prosa. Na poesia. Na vida, sobretudo. Com ela nos salvamos.