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Maria da Glória Sá Rosa*
Vocês,
pesquisadoras modernas, riem da minha ignorância.
Querem saber por que continuo lúcida e feliz aos
noventa anos? 0 que me mantém viva é a inocência.
Parece incrível que a criatura, despojada hoje dos
mínimos atributos de beleza, tenha sido um dia, a
criança mais atraente, mais inteligente da cidade.
Todos gabavam o tom verde de meus olhos, o brilho dourado
de meus cabelos e, acima de tudo, comentavam a candura que
foi o traço distintivo de minha caminhada pelo mundo.
Acreditam que já tinha mais de quarenta anos, quando
fui saber que existia o homossexualismo? Essas palavras
corriqueiras: veado, travesti, assumir não faziam
parte do repertório das famílias de meu tempo.
Uma vez, quando dois garotos foram enviados às pressas
para um internato da capital, de onde nem mesmo nas férias
regressavam à nossa cidade, a razão do desaparecimento
de ambos apareceu embrulhada no papel de seda de uma justificativa
mentirosa, pois assuntos relativos ao sexo eram matéria
proibida no rol de nosso estatuto familiar.
Cresci,
cuidando dos irmãos menores, babá sem salário
de crianças teimosas, choronas, que era obrigada
a alimentar, a carregar comigo a qualquer parte a que me
dirigia. Minha mãe, envolvida com a sucessão
dos partos, só tinha tempo para os filhos recém-nascidos,
dos quais cuidava, enquanto durasse a amamentação.
Não tinha tempo nem condições físicas
e psicológicas para abordar assuntos referentes às
necessidades interiores dos filhos, visto que lhe faltava
a competência necessária. Também não
recebera de nossa avó qualquer tipo de orientação
sexual.
Uma vez, ouvi minhas tias, comentando a respeito do choque
que fora para elas a primeira menstruação.
Acreditavam que durante a noite haviam sido feridas e iam
acabar esvaindose num rio de sangue.
Sempre
pensei em meus pais como dois tipos assexuados, que se juntavam
na cama apenas para a função de procriar.
Nunca lhes surpreendi qualquer gesto de carícia.
Quando se despediam, não trocavam um beijo, ou mesmo
um aperto de mão. Podem escrever isso em seu livro.
A frieza no trato com os filhos era um traço distintivo
do comportamento de muitos pais nordestinos, que depois
se transmitia aos filhos e aos netos.
A severidade
de meu pai extrapolava qualquer descrição,
até mesmo a dos romances russos, como o personagem
daquele conde de Guerra e Paz que gostava de humilhar a
filha Maria e sentia prazer em afastar-lhe todos os pretendentes,
para conservá-la prisioneira a seu lado, como enfermeira
obediente. Meu pai implicava com as atividades dos filhos,
cerceava nossas aspirações. Quando me viu
tocando bandolim, ridicularizou minha sensibilidade musical.
Num ímpeto de raiva, queimou o livro Elzíra,
a Morta Virgem, que uma amiga me emprestara, com a desculpa
de que se tratava de material indecente. Naquele fogão
de nossa casa do Ceará, ficaram sepultadas minhas
tendências artísticas, minha fuga ao reino
do imaginário,
Quando descobri o amor? Ah, vocês, jovens de hoje,
que vivem trocando de parceiro, não sabem o que é
o valor de um sentimento sincero, desses que aceleram a
respiração, ampliam os limites da imaginação
até as fronteiras do infinito, sempre que cerramos
os olhos e visualizamos a figura da pessoa amada.
Foi
numa noite de novena que vi André pela primeira vez.
A paixão, que nos arrebatou, ainda hoje me percorre
as veias como seiva rejuvenecedora. Como esquecer os olhos
verdes, que ainda me visitam na escuridão da noite,
em sonhos, no quintal das memórias? Nenhum computador,
por mais moderno, consegue deletar certas recordações.
Erani
às escondidas nossos encontros com a cumplicidade
de minha irmã mais velha, responsável pela
entrega de nossa correspondência.
Quando
descobriu uma das cartas de André, papal aplicou
em mim uma surra que dói até hoje pela injustiça
do castigo imerecido. Sem possibilidade de defesa, proibida
de sair de casa, refugiei-me nas práticas religiosas.
Quem
deu aos pais esse terrível poder de destroçar
os desejos das filhas? De cortar o vôo, de dilacerar
a carne dos desejos, de transformar uma construção
de sonhos em terra calcinada?
Só
as palavras do Evangelho me acalmavam. Se Deus Pai havia
condenado à morte o próprio filho, para salvar
a humanidade, sem que Ele esboçasse um ai de revolta,
também eu deveria aceitar as razões de meu
pai, que certamente seriam para meu bem. Dizem que os escravos
amam seus carrascos. Apesar de tudo eu gostava de meu pai,
tremia de medo de perdê-lo, de vê-lo doente
por minha causa.
De repente,
os negócios de família obrigaram meus pais
a tentar a sorte numa cidade de Mato Grosso. Foi determinada
para acompanhá-los Carmen Sílvia, a mais bela
de nossas irmãs. A razão da escolha era afastá-la
de um namoro que não era do agrado de nossos pais.
Foi
a partir daí que a morte nos feriu de forma brutal
e misteriosa, Numa noite que gelava a cidade e os corações
de seus habitantes, Carmen Sílvia foi encontrada
morta em seu leito de virgem.
Contaram-nos
que tivera um infarto. Na verdade, tirara a própria
vida, inconformada com a tirania paterna. Mais uma vez,
os acontecimentos chegaram até nós com a máscara
da hipocrisia.
Só muitos anos mais tarde, a verdade nos atingiu
com garras afiadas a nos dilacerar.
Em Campo
Grande, para onde nos mudamos, tivemos todos que arranjar
trabalho, para ajudar na manutenção da família.
A chegada a um Estado, de costumes totalmente diversos dos
nossos, abalou minhas estruturas interiores. Tinha pesadelos,
as imagens do Ceará não saíam de minha
cabeça. 0 mais terrível era, quando debochavam
de meu sotaque nordestino. Queria chorar, mas, aos poucos
descobri, que rir de mim mesma era o jeito melhor de conviver
com o inusitado das situações. Fui salva pelo
humor.
Comecei
a trabalhar como secretária de uma casa comercial.
Foi então que o sol se abriu tímido sobre
a paisagem nebulosa de minha vida. Jorge, um representante
de produtos para fazendas de gado, encantou-se comigo e
pediu-me em casamento. Dessa vez, foi toda a família
que interveio, temerosa de ver-me partir, o que representaria
dificuldades no orçamento doméstico e quebra
do suporte aos problemas familiares dos quais passei a ser
a responsável maior.
Meus
irmãos inventaram mil histórias sobre Jorge.
Disseram que era beberrão, separado da mulher e até
de trapaceiro foi chamado. Uma vez mais, baixei a cabeça,
aceitei a imposição familiar. Sentia-me cansada,
desiludida, prisioneira de um mundo sem perspectivas, no
qual só me ofereciam papeis secundários. Não
sofri, como acontecera com o namoro no Ceará. No
fundo, o que eu desejava mesmo era entregar-me à
vida religiosa. Um horizonte promissor se abriria, quando
vestisse o hábito de freira, para dedicar-me aos
enfermos, aos deserdados da sorte como eu. Como vocês
já podem imaginar, meu pai, que se encontrava enfermo
na ocasião, foi violentamente contra, ameaçando
até mesmo matar-se no dia em que eu cruzasse os umbrais
do convento.
Resignei-me.
Dediquei minha vida a uma família cujo egoísmo
alimentei de modo masoquista.
A palavra
servir passou a ser meu referencial maior. Foram anos de
cuidado com meus pais, irmãos e sobrinhos, cujas
vidas incorporei. Meus desejos eram os de minha família.
Cuidei
de meus pais até vê-los desaparecer no fundo
da terra. Minhas economias entreguei aos sobrinhos mais
pobres a quem tentei orientar no bom caminho. Sempre procurei
manterme casta, não me interessei por outros homens.
Aqui neste asilo, ainda me escandalizo com a linguagem solta
com que companheiras mais novas citam detalhes sórdidos
de aventuras passadas, como se das coisas sujas emanasse
a alegria que as sustenta. Não sinto solidão,
nem angústias. A religião dá-me forças
para aguardar a abertura dos portões, que logo cruzarei,
para a prestação definitiva de minhas contas.
Escrevam
em sua pesquisa que os entulhos da vida não me contaminaram.
Se sou
feliz?
Se a
palavra aceitação pode servir de parâmetro,
poderia afirmar que sim.
Se sou
virgem? É claro. Não conheci as preocupações,
os prazeres do sexo nem as alegrias da maternidade. Também
para quê ? Minha mãe, que teve dezessete filhos,
só teve a mim a seu lado nas agruras da velhice.
Passava os domingos grudada ao portão, à espera
de visitas dos filhos que não apareciam.
A felicidade
existe?
Dizem que ela está na tranqüilidade espiritual.
Deixo a vocês a conclusão final. Vocês
me acham uma pessoa feliz?
É possível ser feliz, num asilo, internada
pelos sobrinhos a quem serviu de mãe? Minha felicidade
é a inocência.
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