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Ficou o espírito mais livre Que o corpo.
Henriqueta Lisboa


* Maria da Glória Rosa é Professora, Educadora, Escritora, foi Presidente da Fundação de Cultura do Estado

Do Livro Contos de Hoje e Sempre - Tecendo palavras
da Mesma Autora

Felicidade Existe?

Maria da Glória Sá Rosa*

Vocês, pesquisadoras modernas, riem da minha ignorância. Querem saber por que continuo lúcida e feliz aos noventa anos? 0 que me mantém viva é a inocência. Parece incrível que a criatura, despojada hoje dos mínimos atributos de beleza, tenha sido um dia, a criança mais atraente, mais inteligente da cidade. Todos gabavam o tom verde de meus olhos, o brilho dourado de meus cabelos e, acima de tudo, comentavam a candura que foi o traço distintivo de minha caminhada pelo mundo. Acreditam que já tinha mais de quarenta anos, quando fui saber que existia o homossexualismo? Essas palavras corriqueiras: veado, travesti, assumir não faziam parte do repertório das famílias de meu tempo. Uma vez, quando dois garotos foram enviados às pressas para um internato da capital, de onde nem mesmo nas férias regressavam à nossa cidade, a razão do desaparecimento de ambos apareceu embrulhada no papel de seda de uma justificativa mentirosa, pois assuntos relativos ao sexo eram matéria proibida no rol de nosso estatuto familiar.

Cresci, cuidando dos irmãos menores, babá sem salário de crianças teimosas, choronas, que era obrigada a alimentar, a carregar comigo a qualquer parte a que me dirigia. Minha mãe, envolvida com a sucessão dos partos, só tinha tempo para os filhos recém-nascidos, dos quais cuidava, enquanto durasse a amamentação. Não tinha tempo nem condições físicas e psicológicas para abordar assuntos referentes às necessidades interiores dos filhos, visto que lhe faltava a competência necessária. Também não recebera de nossa avó qualquer tipo de orientação sexual.
Uma vez, ouvi minhas tias, comentando a respeito do choque que fora para elas a primeira menstruação. Acreditavam que durante a noite haviam sido feridas e iam acabar esvaindose num rio de sangue.

Sempre pensei em meus pais como dois tipos assexuados, que se juntavam na cama apenas para a função de procriar. Nunca lhes surpreendi qualquer gesto de carícia. Quando se despediam, não trocavam um beijo, ou mesmo um aperto de mão. Podem escrever isso em seu livro. A frieza no trato com os filhos era um traço distintivo do comportamento de muitos pais nordestinos, que depois se transmitia aos filhos e aos netos.

A severidade de meu pai extrapolava qualquer descrição, até mesmo a dos romances russos, como o personagem daquele conde de Guerra e Paz que gostava de humilhar a filha Maria e sentia prazer em afastar-lhe todos os pretendentes, para conservá-la prisioneira a seu lado, como enfermeira obediente. Meu pai implicava com as atividades dos filhos, cerceava nossas aspirações. Quando me viu tocando bandolim, ridicularizou minha sensibilidade musical. Num ímpeto de raiva, queimou o livro Elzíra, a Morta Virgem, que uma amiga me emprestara, com a desculpa de que se tratava de material indecente. Naquele fogão de nossa casa do Ceará, ficaram sepultadas minhas tendências artísticas, minha fuga ao reino do imaginário,

Quando descobri o amor? Ah, vocês, jovens de hoje, que vivem trocando de parceiro, não sabem o que é o valor de um sentimento sincero, desses que aceleram a respiração, ampliam os limites da imaginação até as fronteiras do infinito, sempre que cerramos os olhos e visualizamos a figura da pessoa amada.

Foi numa noite de novena que vi André pela primeira vez. A paixão, que nos arrebatou, ainda hoje me percorre as veias como seiva rejuvenecedora. Como esquecer os olhos verdes, que ainda me visitam na escuridão da noite, em sonhos, no quintal das memórias? Nenhum computador, por mais moderno, consegue deletar certas recordações.

Erani às escondidas nossos encontros com a cumplicidade de minha irmã mais velha, responsável pela entrega de nossa correspondência.

Quando descobriu uma das cartas de André, papal aplicou em mim uma surra que dói até hoje pela injustiça do castigo imerecido. Sem possibilidade de defesa, proibida de sair de casa, refugiei-me nas práticas religiosas.

Quem deu aos pais esse terrível poder de destroçar os desejos das filhas? De cortar o vôo, de dilacerar a carne dos desejos, de transformar uma construção de sonhos em terra calcinada?

Só as palavras do Evangelho me acalmavam. Se Deus Pai havia condenado à morte o próprio filho, para salvar a humanidade, sem que Ele esboçasse um ai de revolta, também eu deveria aceitar as razões de meu pai, que certamente seriam para meu bem. Dizem que os escravos amam seus carrascos. Apesar de tudo eu gostava de meu pai, tremia de medo de perdê-lo, de vê-lo doente por minha causa.

De repente, os negócios de família obrigaram meus pais a tentar a sorte numa cidade de Mato Grosso. Foi determinada para acompanhá-los Carmen Sílvia, a mais bela de nossas irmãs. A razão da escolha era afastá-la de um namoro que não era do agrado de nossos pais.

Foi a partir daí que a morte nos feriu de forma brutal e misteriosa, Numa noite que gelava a cidade e os corações de seus habitantes, Carmen Sílvia foi encontrada morta em seu leito de virgem.

Contaram-nos que tivera um infarto. Na verdade, tirara a própria vida, inconformada com a tirania paterna. Mais uma vez, os acontecimentos chegaram até nós com a máscara da hipocrisia.
Só muitos anos mais tarde, a verdade nos atingiu com garras afiadas a nos dilacerar.

Em Campo Grande, para onde nos mudamos, tivemos todos que arranjar trabalho, para ajudar na manutenção da família. A chegada a um Estado, de costumes totalmente diversos dos nossos, abalou minhas estruturas interiores. Tinha pesadelos, as imagens do Ceará não saíam de minha cabeça. 0 mais terrível era, quando debochavam de meu sotaque nordestino. Queria chorar, mas, aos poucos descobri, que rir de mim mesma era o jeito melhor de conviver com o inusitado das situações. Fui salva pelo humor.

Comecei a trabalhar como secretária de uma casa comercial. Foi então que o sol se abriu tímido sobre a paisagem nebulosa de minha vida. Jorge, um representante de produtos para fazendas de gado, encantou-se comigo e pediu-me em casamento. Dessa vez, foi toda a família que interveio, temerosa de ver-me partir, o que representaria dificuldades no orçamento doméstico e quebra do suporte aos problemas familiares dos quais passei a ser a responsável maior.

Meus irmãos inventaram mil histórias sobre Jorge. Disseram que era beberrão, separado da mulher e até de trapaceiro foi chamado. Uma vez mais, baixei a cabeça, aceitei a imposição familiar. Sentia-me cansada, desiludida, prisioneira de um mundo sem perspectivas, no qual só me ofereciam papeis secundários. Não sofri, como acontecera com o namoro no Ceará. No fundo, o que eu desejava mesmo era entregar-me à vida religiosa. Um horizonte promissor se abriria, quando vestisse o hábito de freira, para dedicar-me aos enfermos, aos deserdados da sorte como eu. Como vocês já podem imaginar, meu pai, que se encontrava enfermo na ocasião, foi violentamente contra, ameaçando até mesmo matar-se no dia em que eu cruzasse os umbrais do convento.

Resignei-me. Dediquei minha vida a uma família cujo egoísmo alimentei de modo masoquista.

A palavra servir passou a ser meu referencial maior. Foram anos de cuidado com meus pais, irmãos e sobrinhos, cujas vidas incorporei. Meus desejos eram os de minha família.

Cuidei de meus pais até vê-los desaparecer no fundo da terra. Minhas economias entreguei aos sobrinhos mais pobres a quem tentei orientar no bom caminho. Sempre procurei manterme casta, não me interessei por outros homens. Aqui neste asilo, ainda me escandalizo com a linguagem solta com que companheiras mais novas citam detalhes sórdidos de aventuras passadas, como se das coisas sujas emanasse a alegria que as sustenta. Não sinto solidão, nem angústias. A religião dá-me forças para aguardar a abertura dos portões, que logo cruzarei, para a prestação definitiva de minhas contas.

Escrevam em sua pesquisa que os entulhos da vida não me contaminaram.

Se sou feliz?

Se a palavra aceitação pode servir de parâmetro, poderia afirmar que sim.

Se sou virgem? É claro. Não conheci as preocupações, os prazeres do sexo nem as alegrias da maternidade. Também para quê ? Minha mãe, que teve dezessete filhos, só teve a mim a seu lado nas agruras da velhice. Passava os domingos grudada ao portão, à espera de visitas dos filhos que não apareciam.

A felicidade existe?

Dizem que ela está na tranqüilidade espiritual. Deixo a vocês a conclusão final. Vocês me acham uma pessoa feliz?

É possível ser feliz, num asilo, internada pelos sobrinhos a quem serviu de mãe? Minha felicidade é a inocência.