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Quando uma história nos persegue e nos deslumbra
Maria da Glória Sá Rosa
Data de Publicação: 16 de dezembro de 1993

* Maria da Glória Rosa é Professora, Educadora, Escritora, foi Presidente da Fundação de Cultura do Estado

Do Livro Contos de Hoje e Sempre - Tecendo palavras
da Mesma Autora

Burrinho Pedrês

Maria da Glória Sá Rosa*

E ao meu macho rosado
Carregado de algodão,
Perguntei pra onde ia?
Pra rodar no mutirão.
(Velha cantiga solene da roça)



Tudo acontece num dia de trabalho da Fazenda da Tampa.
Quando uma estória se cola à pele do leitor, ele passa a torná-la como ponto de referência de seus pensamentos, conversas, tomando-se de certa forma parceiro do autor. Foi o que aconteceu comigo, recentemente, depois de reler o conto O Burrinho Pedrês, para comentá-lo numa aula de Literatura, ministrada ao sétimo semestre do Curso de Letras, da UNIDERP. Tanto eu quanto os alunos incorporamos o burrinho e todos os personagens da estória a nosso repertório de lembranças, como se navegássemos pela neblina mineira, embalados pelo canto dos vaqueiros, no mágico percurso pelo sertão/mundo.

A estória de aparência simples tem a verdadeira estrutura da criação ficcionista. Apesar das interpolações, das narrativas secundárias, que atuam como cortes cinematográficos, há perfeita unidade de ação, visto que tudo acontece num dia de trabalho (das seis da manhã à meia noite), da Fazenda da Tampa, no vale do Rio das Velhas, centro de Minas. A palavra do Major Saulo, um fazendeiro gordo, analfabeto, de olhos verdes e cintilantes, que gostava de prosear com os vaqueiros, desencadeia a ação, quando determina reunir doze vaqueiros num dia de chuva, para transportar uma boiada de quatrocentos e sessenta reses até o arraial onde seria embarcada. Como os cavalos haviam quase todos fugido, durante a noite, por um rombo no pasto, o burrinho Sete de Ouros, velho, sabido e principalmente muito introvertido, é convocado para também servir de montaria. Seu azar fora aparecer perto da casa?grande e, como "quem é visto é lembrado", toma-se, por obra do destino, a personagem principal de uma travessia em que bois, homens e cavalos marcham entre goles de cachaça e muita prosa, numa peregrinação que tem algo de religioso e de profano. Como numa tragédia grega ou numa ópera fantástica, transcorrida em pleno sertão, tornamo-nos participantes do jogo de vida e morte que permeia toda a narrativa. Perdemos a noção do tempo lógico para mergulhar numa atmosfera repleta de cenas surrealistas, com os animais mudando de forma, de acordo com as transformações da natureza: "os bois pareciam crescer no nevoeiro, virando sombras esguias de répteis desdebuxados, com o esguicho das bátegas espirrando dos costados". Passado e presente se confundem nas histórias dos vaqueiros, nas quais perpassam sentimentos de amor, ódio e desespero mudo. Os bichos humanizam?se, como Calundu, que mata o menino Vadico e, depois de uma simpatia, arrepende-se, entrega-se ao desespero e é encontrado morto no curral. O burrinho vive imerso em seus pensamentos. São cenas mostradas com grande senso de humor. Depois do embarque, a chuva engrossa, e a enchente leva no turbilhão os cavalos e oito cavaleiros. Salvam-se apenas os vaqueiros: Badu, montado firme no lombo de Sete de Ouros e Francolim, agarrado à cauda do burrinho que, sem susto, na hora certa, deixa-se deslizar nas águas caudalosas do riacho da Fome.

O final mostra a fragilidade de homens e animais diante das forças da natureza, onde sobrevivem apenas os simples, os que substituem a arrogância pela argúcia, o desespero pela calma. Sete de Ouros, o velho burrinho filósofo de quem todos faziam mofa, como nas histórias de fadas, pôde regressar à sombra e ao capim da fazenda, num final feliz, porque ao lutar contra o destino, valeu-se da astúcia para escapar a uma tragédia muitas vezes anunciada.

O conto O Burrinho Pedrês, a primeira das nove estórias de Sagarana, de João Guimarães Rosa, publicado pela primeira vez em 1946, afirma-se acima de tudo pelo ritmo. É através dele que o poder de encantamento da estória se comunica ao leitor. Jogos de palavras, metáforas surpreendentes, aliterações conferem ao conto um clima de poesia que é responsável pela validade estética da narrativa. Guimarães Rosa define-se nele como o grande ficcionista que suas obras posteriores iriam confirmar.