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Maria
da Glória Sá Rosa*
E
ao meu macho rosado
Carregado de algodão,
Perguntei pra onde ia?
Pra rodar no mutirão.
(Velha cantiga solene da roça)

Tudo
acontece num dia de trabalho da Fazenda da Tampa.
Quando uma estória se cola à pele do leitor,
ele passa a torná-la como ponto de referência
de seus pensamentos, conversas, tomando-se de certa forma
parceiro do autor. Foi o que aconteceu comigo, recentemente,
depois de reler o conto O Burrinho Pedrês, para comentá-lo
numa aula de Literatura, ministrada ao sétimo semestre
do Curso de Letras, da UNIDERP. Tanto eu quanto os alunos
incorporamos o burrinho e todos os personagens da estória
a nosso repertório de lembranças, como se
navegássemos pela neblina mineira, embalados pelo
canto dos vaqueiros, no mágico percurso pelo sertão/mundo.
A estória
de aparência simples tem a verdadeira estrutura da
criação ficcionista. Apesar das interpolações,
das narrativas secundárias, que atuam como cortes
cinematográficos, há perfeita unidade de ação,
visto que tudo acontece num dia de trabalho (das seis da
manhã à meia noite), da Fazenda da Tampa,
no vale do Rio das Velhas, centro de Minas. A palavra do
Major Saulo, um fazendeiro gordo, analfabeto, de olhos verdes
e cintilantes, que gostava de prosear com os vaqueiros,
desencadeia a ação, quando determina reunir
doze vaqueiros num dia de chuva, para transportar uma boiada
de quatrocentos e sessenta reses até o arraial onde
seria embarcada. Como os cavalos haviam quase todos fugido,
durante a noite, por um rombo no pasto, o burrinho Sete
de Ouros, velho, sabido e principalmente muito introvertido,
é convocado para também servir de montaria.
Seu azar fora aparecer perto da casa?grande e, como "quem
é visto é lembrado", toma-se, por obra
do destino, a personagem principal de uma travessia em que
bois, homens e cavalos marcham entre goles de cachaça
e muita prosa, numa peregrinação que tem algo
de religioso e de profano. Como numa tragédia grega
ou numa ópera fantástica, transcorrida em
pleno sertão, tornamo-nos
participantes do jogo de vida e morte que permeia toda a
narrativa. Perdemos a noção do tempo lógico
para mergulhar numa atmosfera repleta de cenas surrealistas,
com os animais mudando de forma, de acordo com as transformações
da natureza: "os bois pareciam crescer no nevoeiro,
virando sombras esguias de répteis desdebuxados,
com o esguicho das bátegas espirrando dos costados".
Passado e presente se confundem nas histórias dos
vaqueiros, nas quais perpassam sentimentos de amor, ódio
e desespero mudo. Os bichos humanizam?se, como Calundu,
que mata o menino Vadico e, depois de uma simpatia, arrepende-se,
entrega-se ao desespero e é encontrado morto no curral.
O burrinho vive imerso em seus pensamentos. São cenas
mostradas com grande senso de humor. Depois do embarque,
a chuva engrossa, e a enchente leva no turbilhão
os cavalos e oito cavaleiros. Salvam-se apenas os vaqueiros:
Badu, montado firme no lombo de Sete de Ouros e Francolim,
agarrado à cauda do burrinho que, sem susto, na hora
certa, deixa-se deslizar nas águas caudalosas do
riacho da Fome.
O final
mostra a fragilidade de homens e animais diante das forças
da natureza, onde sobrevivem apenas os simples, os que substituem
a arrogância pela argúcia, o desespero pela
calma. Sete de Ouros, o velho burrinho filósofo de
quem todos faziam mofa, como nas histórias de fadas,
pôde regressar à sombra e ao capim da fazenda,
num final feliz, porque ao lutar contra o destino, valeu-se
da astúcia para escapar a uma tragédia muitas
vezes anunciada.
O conto
O Burrinho Pedrês, a primeira das nove estórias
de Sagarana, de João Guimarães Rosa, publicado
pela primeira vez em 1946, afirma-se acima de tudo pelo
ritmo. É através dele que o poder de encantamento
da estória se comunica ao leitor. Jogos de palavras,
metáforas surpreendentes, aliterações
conferem ao conto um clima de poesia que é responsável
pela validade estética da narrativa. Guimarães
Rosa define-se nele como o grande ficcionista que suas obras
posteriores iriam confirmar.
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