Voltar para página principal.

De teus olhos sairão dois cravos sangrentos E de teu seio rosas brancas como a neve - Federico García Lorca

* Maria da Glária Rosa é Professora, Educadora, Escritora, foi Presidente da Fundação de Cultura do Estado

Do Livro Contos de Hoje e Sempre - Tecendo palavras
da Mesma Autora

Revelações de uma Redimida


Flor da acácia
paulodfilipe@hotmail.com

Maria da Glória Sá Rosa*

Ouvi barulho de pedras lançadas de muito longe. Corri até o fundo do quintal. Fazia uma tarde de azuis e vermelhos que penetravam os sentidos, como o cheiro forte de lírios e rosas, que se misturava à mais estranha das vozes:

—Não tenha medo, não vou fazer-lhe nenhum mal. Preciso muito de você para um trabalho de salvação de almas. Sou sua tia Carminha, que as águas do rio Banabuiú transportaram a outras esferas, quando você nem nascida era. Do outro lado da vida, pago as conseqüências de uma covardia que cobriu de vergonha e revolta uma criança. Para redimir-me, tenho que cumprir uma missão, designada por Deus, na qual você será minha mensageira.

Morta de susto, meus olhos fitavam o espaço vazio, indagavam inutilmente minha participação em tão estranho episódio.

- Diga à sua mãe para reunir a família e contar a todos que quem quebrou a faca de prata e enterrou os pedaços no quintal fui eu e não seu irmão Renato, acusado injustamente por ser o mais danado da família. Até hoje sofro na alma as surra violenta,que lhe foi aplicada, apesar da falta de provas e dos gritos de revolta com que tentava provar sua inocência. Volte aqui amanhã com minha irmã Cleusa, que tenho novas revelações. Por sua inocência, você foi escolhida para emissária de uma missão de liberação de culpas, de limpeza espiritual de uma cidade, que está perdendo a pureza original.

- Mamãe, você precisa urgente mandar celebrar uma missa pela alma de tia Carminha, que está sofrendo os tormentos do purgatório e só terá sossego quando cumprir as tarefas que Nosso Senhor lhe confiou. Ela quer que amanhã, à tarde, você esteja comigo no quintal para testemunhar o que Deus exige em troca da redenção dos pecados cometidos.

Na tarde seguinte, minha mãe e duas tias ouviram o barulho das pedras e sentiram o forte odor de rosas e de lírios, mas só a mim foi dado o privilégio de conversar com a morta. Além de repetir o caso da faca de prata, acrescentou:

- Diga à Cleusa para tomar cuidado com as saídas noturnas do marido. Ele está tendo um caso com Mariângela, sua melhor amiga. Os dois riem juntos da ingenuidade de sua mãe.

Os fatos não deixavam margem a dúvidas, pois naquela mesma noite minha mãe chegou de surpresa à casa de Mariângela e encontrou papai nos braços da amiga.

Mamãe reuniu os parentes e contou as aparições que se espalharam e deixaram a cidade em polvorosa. Meu irmão aproveitou a ocasião para extravasar a mágoa de longos anos, resultante da incompreensão dos pais. A ferida que não parara de sangrar ainda levaria anos para cicatrizar. Uma injustiça não se resolve com palavras. Que pomada cura as dores da alma, principalmente as infligidas na infância?

As revelações foram se sucedendo, como plantas silvestres brotadas do fundo da terra. A cidade aguardava a chegada de cada uma das mensagens, como quem espera o resultado de um jogo ou de difícil operação.

- Mamãe, a senhora precisa procurar o bispo e exigir dele a saída do Padre Olavo de nossa paróquia. Há longos anos, ele vive com a mulher do prefeito, sendo pai de suas duas filhas. É um caso flagrante de pecado, que suja a moral de nossa cidade, prejudica sua reputação.

Não foi preciso que minha mãe visitasse o bispo. Antes disso, a noticia chegou aos ouvidos do prefeito, que invadiu a sacristia, na tentativa de matar o padre. Não encontrou viva alma. Na escuridão da noite, Padre Olavo montara a cavalo e desaparecera sem deixar pistas. Nunca mais foi visto, nem dele se ouviu falar.

O bispo nomeou Marcel Marceau, um jovem de 30 anos, de idéias avançadas, para chefiar a paróquia.

— Não acredito nessas fofocas de assombração. Essa jovem tem a mente perturbada. Trata-se de evidente paranóia. Em todo caso, vou amanhã enfrentar cara a cara esse fantasma, que transformou a cidade num caldeirão fervilhante de confusas indagações.

Na tarde da possível descoberta, Padre Marcel ouviu o ruído das pedras, absorveu o perfume dos lírios e das rosas. Disseram que caí em transe. Chamei Padre Marcel e só a ele revelei o conteúdo da mensagem. A pequena multidão cercou-o, puxou-o pelas vestes, mas não saiu qualquer som de sua boca. Só falou comigo:

—Não conte nada a ninguém nem mesmo à sua mãe. É uma coisa tão grave, tão terrível, que se conhecida poderá trazer conseqüências imprevisíveis. Nunca mais volte a se encontrar com sua tia, sob pena de ser excomungada. Depois confessou à minha avo:

- É preciso saber conviver com certas verdades cruéis que, se vindas à tona, podem causar danos piores talvez do que a própria morte.

A cidade passou a viver sob o peso de dúvidas que lhe roíam as entranhas, como as garras de feroz animal. Na calada da noite, as mentes sussurravam pesadas indagações:

Seria o crime do empresário Carlos de Almeida que engravidara a própria filha? Segundo alguns, a moça perdera o juízo e vivia a pesquisar os arquivos dos orfanatos, tentando localizar a criança entregue para adoção. Ou das Irmãs Castro, que reuniam as amigas para beber, fumar maconha e folhear revistas pornográficas? Ou do Professor Altamiro, que convidava os alunos reprovados na sua disciplina a ter aulas de recuperação em sua chácara, em troca de boas notas?

Mil hipóteses, nenhuma certeza. Até hoje as pessoas mais velhas ainda se indagam sobre a mensagem secreta, que não chegou a ser conhecida.

A cidade retomou a calma aparente. Por baixo da superfície, paixões continuaram a fervilhar.

Eu mesma, aos sessenta e cinco anos, me pergunto se tudo não passou de sonho, de delírio de meus sentidos adolescentes. O tempo, as desilusões da vida esgarçam as idéias. Me lembro que tia Carminha falou em guerras fratricidas, em religiosos seduzindo crianças, coisas que na época não entendi direito. Houve até quem dissesse que as mensagens seriam fruto de minha cabeça perversa, desejosa de vingar-me de alguém ou do próprio desprezo que a cidade votava à nossa família.

A verdade é que nem eu nem você, meu leitor, por mais que nos esforcemos, chegaremos a tocar a essência de uma verdade cuja real extensão ignoramos.

Quando mataram o padre Marcel, comentou-se que o crime fora conseqüência de falta grave do passado, que fazia parte da revelação de tia Carminha. Nada ficou provado.

O mistério dos mortos, tentando se comunicar com os vivos, nunca vai ser resolvido. Às vezes tenho dúvidas do que ouvi, mas as pedras lançadas do outro lado do mundo e o perfume dos lírios e das rosas são testemunhas de minha verdade.

Teria tia Carminha conseguido a redenção dos pecados cometidos? Nunca pude saber, porque não mais a procurei, não ouvi sua voz nem mesmo em sonhos e muito menos no fundo do quintal.

Muitos comentaram que de seu túmulo passaram a brotar rosas muito brancas, das quais emanava o mesmo perfume de suas aparições.