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Revelações
de uma Redimida
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Flor da acácia
paulodfilipe@hotmail.com
Maria da Glória Sá Rosa*
Ouvi barulho de pedras lançadas de muito longe. Corri
até o fundo do quintal. Fazia uma tarde de azuis
e vermelhos que penetravam os sentidos, como o cheiro forte
de lírios e rosas, que se misturava à mais
estranha das vozes:
—Não tenha medo, não
vou fazer-lhe nenhum mal. Preciso muito de você para
um trabalho de salvação de almas. Sou sua
tia Carminha, que as águas do rio Banabuiú
transportaram a outras esferas, quando você nem nascida
era. Do outro lado da vida, pago as conseqüências
de uma covardia que cobriu de vergonha e revolta uma criança.
Para redimir-me, tenho que cumprir uma missão, designada
por Deus, na qual você será minha mensageira.
Morta de susto, meus olhos fitavam o espaço
vazio, indagavam inutilmente minha participação
em tão estranho episódio.
- Diga à sua mãe para reunir a família
e contar a todos que quem quebrou a faca de prata e enterrou
os pedaços no quintal fui eu e não seu irmão
Renato, acusado injustamente por ser o mais danado da família.
Até hoje sofro na alma as surra violenta,que lhe
foi aplicada, apesar da falta de provas e dos gritos de
revolta com que tentava provar sua inocência. Volte
aqui amanhã com minha irmã Cleusa, que tenho
novas revelações. Por sua inocência,
você foi escolhida para emissária de uma missão
de liberação de culpas, de limpeza espiritual
de uma cidade, que está perdendo a pureza original.
- Mamãe, você precisa urgente
mandar celebrar uma missa pela alma de tia Carminha, que
está sofrendo os tormentos do purgatório e
só terá sossego quando cumprir as tarefas
que Nosso Senhor lhe confiou. Ela quer que amanhã,
à tarde, você esteja comigo no quintal para
testemunhar o que Deus exige em troca da redenção
dos pecados cometidos.
Na tarde seguinte, minha mãe e duas
tias ouviram o barulho das pedras e sentiram o forte odor
de rosas e de lírios, mas só a mim foi dado
o privilégio de conversar com a morta. Além
de repetir o caso da faca de prata, acrescentou:
- Diga à Cleusa para tomar cuidado
com as saídas noturnas do marido. Ele está
tendo um caso com Mariângela, sua melhor amiga. Os
dois riem juntos da ingenuidade de sua mãe.
Os fatos não deixavam margem a dúvidas,
pois naquela mesma noite minha mãe chegou de surpresa
à casa de Mariângela e encontrou papai nos
braços da amiga.
Mamãe reuniu os parentes e contou
as aparições que se espalharam e deixaram
a cidade em polvorosa. Meu irmão aproveitou a ocasião
para extravasar a mágoa de longos anos, resultante
da incompreensão dos pais. A ferida que não
parara de sangrar ainda levaria anos para cicatrizar. Uma
injustiça não se resolve com palavras. Que
pomada cura as dores da alma, principalmente as infligidas
na infância?
As revelações foram se sucedendo,
como plantas silvestres brotadas do fundo da terra. A cidade
aguardava a chegada de cada uma das mensagens, como quem
espera o resultado de um jogo ou de difícil operação.
- Mamãe, a senhora precisa procurar
o bispo e exigir dele a saída do Padre Olavo de nossa
paróquia. Há longos anos, ele vive com a mulher
do prefeito, sendo pai de suas duas filhas. É um
caso flagrante de pecado, que suja a moral de nossa cidade,
prejudica sua reputação.
Não foi preciso que minha mãe
visitasse o bispo. Antes disso, a noticia chegou aos ouvidos
do prefeito, que invadiu a sacristia, na tentativa de matar
o padre. Não encontrou viva alma. Na escuridão
da noite, Padre Olavo montara a cavalo e desaparecera sem
deixar pistas. Nunca mais foi visto, nem dele se ouviu falar.
O bispo nomeou Marcel Marceau, um jovem
de 30 anos, de idéias avançadas, para chefiar
a paróquia.
— Não acredito nessas fofocas
de assombração. Essa jovem tem a mente perturbada.
Trata-se de evidente paranóia. Em todo caso, vou
amanhã enfrentar cara a cara esse fantasma, que transformou
a cidade num caldeirão fervilhante de confusas indagações.
Na tarde da possível descoberta,
Padre Marcel ouviu o ruído das pedras, absorveu o
perfume dos lírios e das rosas. Disseram que caí
em transe. Chamei Padre Marcel e só a ele revelei
o conteúdo da mensagem. A pequena multidão
cercou-o, puxou-o pelas vestes, mas não saiu qualquer
som de sua boca. Só falou comigo:
—Não conte nada a ninguém
nem mesmo à sua mãe. É uma coisa tão
grave, tão terrível, que se conhecida poderá
trazer conseqüências imprevisíveis. Nunca
mais volte a se encontrar com sua tia, sob pena de ser excomungada.
Depois confessou à minha avo:
- É preciso saber conviver com certas
verdades cruéis que, se vindas à tona, podem
causar danos piores talvez do que a própria morte.
A cidade passou a viver sob o peso de dúvidas
que lhe roíam as entranhas, como as garras de feroz
animal. Na calada da noite, as mentes sussurravam pesadas
indagações:
Seria o crime do empresário Carlos
de Almeida que engravidara a própria filha? Segundo
alguns, a moça perdera o juízo e vivia a pesquisar
os arquivos dos orfanatos, tentando localizar a criança
entregue para adoção. Ou das Irmãs
Castro, que reuniam as amigas para beber, fumar maconha
e folhear revistas pornográficas? Ou do Professor
Altamiro, que convidava os alunos reprovados na sua disciplina
a ter aulas de recuperação em sua chácara,
em troca de boas notas?
Mil hipóteses, nenhuma certeza. Até
hoje as pessoas mais velhas ainda se indagam sobre a mensagem
secreta, que não chegou a ser conhecida.
A cidade retomou a calma aparente. Por baixo
da superfície, paixões continuaram a fervilhar.
Eu mesma, aos sessenta e cinco anos, me
pergunto se tudo não passou de sonho, de delírio
de meus sentidos adolescentes. O tempo, as desilusões
da vida esgarçam as idéias. Me lembro que
tia Carminha falou em guerras fratricidas, em religiosos
seduzindo crianças, coisas que na época não
entendi direito. Houve até quem dissesse que as mensagens
seriam fruto de minha cabeça perversa, desejosa de
vingar-me de alguém ou do próprio desprezo
que a cidade votava à nossa família.
A verdade é que nem eu nem você,
meu leitor, por mais que nos esforcemos, chegaremos a tocar
a essência de uma verdade cuja real extensão
ignoramos.
Quando mataram o padre Marcel, comentou-se
que o crime fora conseqüência de falta grave
do passado, que fazia parte da revelação de
tia Carminha. Nada ficou provado.
O mistério dos mortos, tentando se
comunicar com os vivos, nunca vai ser resolvido. Às
vezes tenho dúvidas do que ouvi, mas as pedras lançadas
do outro lado do mundo e o perfume dos lírios e das
rosas são testemunhas de minha verdade.
Teria tia Carminha conseguido a redenção
dos pecados cometidos? Nunca pude saber, porque não
mais a procurei, não ouvi sua voz nem mesmo em sonhos
e muito menos no fundo do quintal.
Muitos comentaram que de seu túmulo
passaram a brotar rosas muito brancas, das quais emanava
o mesmo perfume de suas aparições.
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