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Maria da Glória Rosa*
A foto não deixava margem a qualquer dúvida.
Era ele mesmo, Reinaldo, o colega superdotado, que todos
nós contemplávamos com o respeito misturado
à inveja dirigida aos que estão muito acima
de nós. Bonito, rico, costumava sentar-se no fundo
da classe, isolado de todos, confinado ao mundo das idéias,
do conhecimento que a todos surpreendia. Fluente em diversos
idiomas, resolvia sozinho as difíceis questões
de Matemática, Física e Química, que
desafiavam nosso poder de concentração, nossa
incapacidade de desvendar os mistérios que se escondem
por detrás de signos e de fórmulas. Pequeno
gênio, perdido em nosso círculo de iguais,
não costumava perder tempo com amigos, que não
se situavam no mesmo patamar de uma sabedoria revestida
de arrogância. Também nunca soubemos que tivesse
tido namorada. Quando alguma das meninas o procurava, a
resposta era de frieza, de desinteresse.
Uma
ocasião, passei à noite, diante do casarão
onde residia com os pais. Ele me viu e baixou os olhos,
como se não nos conhecêssemos. Depois retomou
o livro que deixara sobre o banco do jardim e desapareceu
no silêncio de uma vida em que os livros eram a razão
maior. O olhar carregava o desafio que até hoje me
persegue. Quem era ele realmente? O que viera fazer num
mundo onde não cabia seu olhar?
Casal
de velhos aparece morto no quarto de dormir.
Ao lado da manchete de jornal, Reinaldo me olhava. Saltava
do cristal do tempo para perturbar meus sentimentos. Para
envolver-me na atração mórbida de uma
personalidade que me mantinha hipnotizado em enigmas nunca
resolvidos. O tempo correra, mas ele parecia não
haver mudado. Pelo menos a solidão era a mesma. Ou
pior, agigantara-se, agora que os pais haviam sido assassinados
de forma cruel. A história me perseguia. Quem invadiria
uma casa para matar a golpes de faca dois velhos indefesos,
que não perturbavam a vida de ninguém? Eu,
nem de longe, podia aventar a hipótese de Reinaldo
ter qualquer coisa com o crime. O olhar da foto era de espanto,
traduzia a inocência de quem se encontra desarmado
diante do tenor.
A polícia
descartou a hipótese de roubo, porque não
houve desaparecimento de objetos. Não se forçaram
portas, nem os vizinhos perceberam qualquer ruído
que tivesse quebrado o sossego da noite. Testemunhas próximas
ao casal negaram discussões dos velhos entre si ou
com o filho.
Na noite
do crime, os criados dormiam fora. Reinaldo passara a noite
na casa de um amigo.
Os testemunhos
de familiares e de criados foram todos a favor de Reinaldo.
Alguns
falaram do devotamento daquele filho que abdicara do casamento
para continuar cuidando dos pais. Impossível pensar
que um intelectual como ele pudesse sequer conceber um ato
monstruoso, que clama aos céus vingança, pela
frieza, aliada à astúcia com que fora executado.
Mas,
devagar, outros fatos foram se juntando, como fios de uma
teia que iria tomando forma até revelar-se em sua
realidade dolorosa.
Só
que foram acontecimentos que se passaram nas cavernas da
mente, nas quais nenhum instrumento da mais moderna tecnologia
consegue penetrar.
Monólogo interior de Reinaldo
Eu sempre odiei aqueles dois velhos mesquinhos e egoístas,
que se compraziam em me humilhar, tratando-me como criança,
numa casa onde exerciam a força de uma autoridade
que me enchia de nojo, de desprezo, cada vez maior.
Desde
criança me negaram as mínimas coisas. Cercearam
totalmente o direito à liberdade. Proibiam-me de
ter amigos, de trazê-los à casa, negavam-me
dinheiro, enquanto esbanjavam milhares de dólares
em viagens estúpidas a estações de
águas, ou na aquisição de novos imóveis
com que aumentavam a fome de um poder nunca saciado. Foi
assim que, pouco a pouco, cresceu dentro de mim o desejo
de livrar-me deles, numa obsessão que tomou conta
de meu ser. Acordava de noite, imaginando novas formas de
livrar-me dos dois, sem dar margens a suspeitas. Pensei
em consumi-los de dor pelo envenenamento, que corrói
as entranhas com a lentidão de perverso carrasco,
mas recuei com medo de que a autópsia pudesse denunciar-me.
Então, numa noite em que estávamos só
os três, sufoquei-os primeiro com os travesseiros,
depois bastaram algumas facadas para completar minha vingança.
Eliminei cuidadosamente minhas impressões digitais
nos móveis e em outros recantos da casa, enxuguei
o sangue da faca e saí, deixando o quarto deles fechado
por dentro. Escapei de mansinho, como um gato, joguei a
faca no mar e fui visitar meu amigo Adalberto, com quem
fiquei conversando até de manhã. Depois ele
foi meu álibi, a prova da minha inocência.
Hoje
estou rico, leve como uma pluma, dono de meu destino.
Uma
mente brilhante sabe armar e executar esquemas que não
falham.
Depoimento do tio de Ricardo
O telefone nos trouxe a terrível notícia.
Podíamos imaginar tudo, menos que alguém quisesse
tirar a vida de meu irmão e de sua mulher, de forma
tão covarde e cruel. Fomos sócios durante
longos anos e nunca houve divergências entre nós.
Como eu poderia pensar em destruir pessoas que me ajudaram
financeiramente, às quais devo inúmeras obrigações?
Senhor juiz, essa acusação à minha
pessoa é totalmente absurda e só pode ter
partido de mente doentia.
Depoimento
dos criados
O casal levava vida tranqüila. Nunca soubemos que tivessem
inimigos. Não recebiam visitas a não ser de
algum parente. O relacionamento com o filho era dos melhores.
Tinham pequenas discussões por coisas sem importância.
Ele achava que os pais deviam aproveitar mais a vida. Uma
única vez escutei Seu Reinaldo querendo dinheiro
para comprar um carro. O velho alegou dificuldades na firma,
e não falaram mais no assunto.
Depoimento
de um colega de Reinaldo
Conheci Reinaldo no curso colegial. Sempre foi um cara frio,
arrogante, que não queria amizade com ninguém.
Um dia, quando soube que um colega fizera comentários
irônicos sobre seu modo de vestir, esperou-o numa
esquina e deu-lhe violento soco no estômago. Ao ser
denunciado na diretoria, negou o ato disse que fora tudo
invenção, pois era incapaz de tocar, quanto
mais de bater numa pessoa mais fraca do que ele. Deixou
o diretor convencido de que o mentiroso era o denunciante.
Depoimento
de Reinaldo
Meus pais têm vários irmãos que têm
raiva da prosperidade deles. Vivem nos explorando, pedindo
dinheiro, fazendo ameaças e chantagem. Sempre fomos
muito invejados pela família, eu porque sobressaio
nos estudos, na carreira, meus pais porque trabalharam e
conquistaram posição privilegiada no mundo
dos negócios. Sou inocente. Que motivos teria para
ferir meus pais, se a eles devo tudo e, além disso,
sou seu único herdeiro?
Palavras
do juiz
A Imprensa insiste em culpar o filho do casal que já
passou por dois julgamentos, sem que houvesse provas contundentes
para condená-lo. Se foi ele, o crime foi tão
bem feito que não deixou rastros de sua participação
no terrível episódio. Por outro lado, se não
foi ele, onde estão os reais culpados?
O crime
desafiou a polícia por muito tempo. Suspeitaram dos
criados, das pessoas da família e, naturalmente,
de Reinaldo contra quem nunca foram encontradas provas suficientes
para prendê-lo. Muitas vezes, a história voltou
à minha cabeça, como algo de que não
consigo me libertar. O monólogo interior de Reinaldo,
que escrevi acima, foi inventado por mim ao lembrar-me daquele
adolescente estranho, isolado no fundo da classe, sem qualquer
contacto a não ser com a frieza dos livros e das
fórmulas matemáticas. Teria ele realmente
tido coragem de utilizar a brilhante inteligência
para destruir a vida dos pais?
Ou foi
vingança de outras pessoas com quem o casal mantinha
negócios mal resolvidos?
Reinaldo
mudou-se para o exterior. Depois do último julgamento,
nunca mais se ouviu falar daquele jovem retraído,
cujos pais desapareceram numa noite fria de São Paulo.
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