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Data de Publicação: 28 de fevereiro de 1999


Do Livro
Cronicas de fim de século

da mesma Autora

A Dúvida que Rói


Maria da Glória Sá Rosa


Querida mamãe


Nào deixe que o bichinho da dúvida continue a roer seu coração. Seus filhos estão no meio do Pantanal, vivendo a mais fantástica das aventuras..Lembre-se de que foi você quem nos ensinou a desafiar sem medo os perigos da floresta..Logo mais estaremos de volta com muitas histórias para contar.Tony e Edu.

Fazia mais de cinco dias que nos corredores do colégio a pergunta continuava presa na garganta. Vocês já sabem dos filhos do professor Afonso? Se mandaram de carro para o Pantanal e não mandaram mais notícias. Não se fala noutro assunto do qual começam a surgir as mais terríveis hipóteses.O carro foi encontrado abandonado na estrada e deles...nada. Os pais estão desesperados. Já não têm mais a quem recorrer.

-"Também quem andou deixar dois adolescentes sair sozinhos por estradas que não conhecem? Isso fatalmente ia acabar acontecendo. Não é a primeira vez que esses meninos se metem em loucuras".

"Há um ano atrás foram encontrados esfomeados perto de Aquidauana, as motos avariadas, comendo folhas de goiabeira para iludir a fome"

"São dois meninos bonitos, ricos, que de repente só querem saber de andar à toa pelas estradas de Mato Grosso do Sul. É o que acontece quando os pais perdem a autoridade. Professor Afonso tão rigoroso com os alunos não tem o menor domínio sobre os filhos. O pior é que a mãe acha graça na falta de juízo dos rapazes."

" Isso está me cheirando a algo ligado ao consumo ou talvez ao tráfico de drogas comum entre os moços de hoje que vendem os produtos para sustentarem o vício.. Vai ver, eles aprontaram alguma e foram pegos pelo chefe da gang.. que está cobrando o peço da leviandade.."..

Em casa a angústia em forma de mordaça congelara os pensamentos e os ponteiros do relógio. Os corações de Afonso e Suzana, paralisados pelo medo, suportavam sufocados cada segundo de uma espera que impedia o raciocínio e abria clareiras de desespero na mente de dois seres de mãos e idéias atadas, pelo horror de sombrias perspectivas .
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Os dois filhos eram a razão de ser do casal. Estavam se preparando para o vestibular, tinham boas notas , nunca se tinham envolvido em brigas nem tinham manifestado qualquer inclinação por qualquer tipo de drogas. Como já tinham mais de 16 anos o pai emprestava-lhes o carro para passeios de fim de semana pelo interior do Estado, de onde sempre regressavam no dia prometido, olhos cintilantes do prazer de ver de perto as belezas de uma região que a mãe não cessava de celebrar. Tinham partido numa manhã clara de sol, com a máquina de filmar e de fotografar, numa expedição que há muito lhes consumia horas de sono, ansiosos para registrar os tons verdes dos camalotes, o giro dos pássaros, no sobrevoo do infinito, o ritmo preguiçoso dos jacarés, dormitando á beira das lagoas. Pretendiam fazer um trabalho de reconhecimento pantaneiro para as aulas de Biologia, no qual se sentissem envolvidos pela magia dos animais e das plantas. Por que ter medo? Não foi assim que todas as expedições começaram, com gente que ousou, que foi além da dúvida, da possibilidade de ultrapassar perigos, para desenvolver esquemas de um sonho que os marcaria para sempre?

Quem mais se deixou seduzir pelos argumentos dos dois foi a mãe que agora se consumia no remorso de ter-lhes autorizado o passeio fatal pelos labirintos de uma possível destruição.

A princípio as notícias vieram em forma de mensagens alentadoras, algumas com descrições de passagens que enchiam os olhos dos pais do orgulho de quem se sente prolongado na cria. Para Afonso e Suzana os dois rapazes estavam realizando o que eles, quando mais novos sempre tiveram vontade de fazer. Impedidos outrora, pelo rigor preconceituoso dos pais e agora pelas dificuldades inerentes à vida profissional, projetavam nos filhos a conquista de uma liberdade, que lês alargava o espírito.

Na noite tormentosa de setembro, alguém bateu à a porta com a terrível notícia. Os dois rapazes tinham sido mortos, por aventureiros que lhes haviam roubado o carro, os mantimentos, a filmadora e a máquina fotográfica..Suzana horrorizada não quis ver os corpos. A vida não tinha mais sentido para ela. A dor era tão forte que despertou na escuridão, com uma pontada violenta no peito, certa de que acabara de ter um enfarto. Nem o abraço e as palavras consoladoras de Afonso conseguiram diminuir a fúria dos soluços.
Na véspera , quando lera no jornal Correio do Estado uma notícia sobre dois peões assassinados por coureiros, projetou em si mesma o horror de uma tragédia que lhe esmagava as entranhas, porque sabia estar passando por tormento igual. A imaginação transportou-a a um círculo imaginário do inferno onde os condenados sofriam mutilações terríveis. Ali estavam as mães e pais mães complacentes, que por tudo permitir aos filhos, haviam-nos precipitado nos abismos da morte. Nas cavernas do desespero, viveria por toda a eternidade com os pedaços do corpo sendo arrancados um a um.No entanto, a dor física era menos aguda do que a tortura infligida quando lhe arrancaram os filhos,carne de sua carne, pedaços de si mesma.

"Edu estou com frio. Onde estão os homens que nos assaltaram? Como vamos fazer para escaparmos daqui? Se ao menos tivéssemos, uma faca, um canivete qualquer.Acho que dessa vez não escapamos. Vamos morrer de fome, de sede, amarrados como dois bichos"
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Numa noite de tempestade, Afonso e Suzana sentados à mesa pareciam dois fantasmas de si mesmos. Os dias se arrastavam , sem qualquer indício do paradeiro dos filhos. A polícia sobrevoara diversas vezes o local sem qualquer vestígio dos dois. O granizo batia nas janelas, furava a pele de dois seres que não tinham força para escutar os gritos que atravessavam os vidros, como algo vindo do fundo de um filme, ou de regiões secretas em que o vento do desespero impede o raciocínio.

"Mamãe, papai, abram ,somos nós. Quando roubaram nosso carro, fomos amarrados numa árvore mas conseguimos fugir. Graças a Deus, Edu tinha um canivete no bolso com que cortamos as cordas. Passamos muitos s dias, caminhando feito loucos, sem destino pelo mato até que conseguimos nos esconder no galpão de uma fazendinha da Nhecolândia, onde a polícia nos encontrou..
Estamos sujos, arranhados,com muita fome. Não chorem. Perdoem o sofrimento que causamos. Seus filhos voltaram, é o que importa."

A tormenta parecia haver passado.Mas os roedores da dúvida continuavam dilacerando o coração de Suzana. O ar estava pesado, irrespirável. Apenas uma pausa fora feita, um intervalo na tragédia que cortara em pedacinhos a alma do casal. Mentalmente Afonso repetiu um verso antigo de Garcia Lorca; "Es verdad mas fue tan mentira que sigue siendo imposible siempre."

Que garantia lhes era conferida de que em poucos minutos tudo não se repetiria, talvez de forma mais cruel, nesse girar louco do redemoinho da existência em que a insegurança era a única das certezas? Como conviver com o fantasma do medo rondando cada passo da vida humana numa sociedade sufocada pelo ódio, pela desesperança? Como se preparar para cada novo lance de dados?