Maria da Glória Sá Rosa
Querida
mamãe
Nào deixe que o bichinho da dúvida continue
a roer seu coração. Seus filhos estão
no meio do Pantanal, vivendo a mais fantástica das
aventuras..Lembre-se de que foi você quem nos ensinou
a desafiar sem medo os perigos da floresta..Logo mais estaremos
de volta com muitas histórias para contar.Tony e
Edu.
Fazia
mais de cinco dias que nos corredores do colégio
a pergunta continuava presa na garganta. Vocês já
sabem dos filhos do professor Afonso? Se mandaram de carro
para o Pantanal e não mandaram mais notícias.
Não se fala noutro assunto do qual começam
a surgir as mais terríveis hipóteses.O carro
foi encontrado abandonado na estrada e deles...nada. Os
pais estão desesperados. Já não têm
mais a quem recorrer.
-"Também
quem andou deixar dois adolescentes sair sozinhos por estradas
que não conhecem? Isso fatalmente ia acabar acontecendo.
Não é a primeira vez que esses meninos se
metem em loucuras".
"Há um ano atrás foram encontrados esfomeados
perto de Aquidauana, as motos avariadas, comendo folhas
de goiabeira para iludir a fome"
"São
dois meninos bonitos, ricos, que de repente só querem
saber de andar à toa pelas estradas de Mato Grosso
do Sul. É o que acontece quando os pais perdem a
autoridade. Professor Afonso tão rigoroso com os
alunos não tem o menor domínio sobre os filhos.
O pior é que a mãe acha graça na falta
de juízo dos rapazes."
" Isso está me cheirando a algo ligado ao consumo
ou talvez ao tráfico de drogas comum entre os moços
de hoje que vendem os produtos para sustentarem o vício..
Vai ver, eles aprontaram alguma e foram pegos pelo chefe
da gang.. que está cobrando o peço da leviandade.."..
Em casa
a angústia em forma de mordaça congelara os
pensamentos e os ponteiros do relógio. Os corações
de Afonso e Suzana, paralisados pelo medo, suportavam sufocados
cada segundo de uma espera que impedia o raciocínio
e abria clareiras de desespero na mente de dois seres de
mãos e idéias atadas, pelo horror de sombrias
perspectivas .
.
Os dois filhos eram a razão de ser do casal. Estavam
se preparando para o vestibular, tinham boas notas , nunca
se tinham envolvido em brigas nem tinham manifestado qualquer
inclinação por qualquer tipo de drogas. Como
já tinham mais de 16 anos o pai emprestava-lhes o
carro para passeios de fim de semana pelo interior do Estado,
de onde sempre regressavam no dia prometido, olhos cintilantes
do prazer de ver de perto as belezas de uma região
que a mãe não cessava de celebrar. Tinham
partido numa manhã clara de sol, com a máquina
de filmar e de fotografar, numa expedição
que há muito lhes consumia horas de sono, ansiosos
para registrar os tons verdes dos camalotes, o giro dos
pássaros, no sobrevoo do infinito, o ritmo preguiçoso
dos jacarés, dormitando á beira das lagoas.
Pretendiam fazer um trabalho de reconhecimento pantaneiro
para as aulas de Biologia, no qual se sentissem envolvidos
pela magia dos animais e das plantas. Por que ter medo?
Não foi assim que todas as expedições
começaram, com gente que ousou, que foi além
da dúvida, da possibilidade de ultrapassar perigos,
para desenvolver esquemas de um sonho que os marcaria para
sempre?
Quem mais se deixou seduzir pelos argumentos dos dois foi
a mãe que agora se consumia no remorso de ter-lhes
autorizado o passeio fatal pelos labirintos de uma possível
destruição.
A princípio
as notícias vieram em forma de mensagens alentadoras,
algumas com descrições de passagens que enchiam
os olhos dos pais do orgulho de quem se sente prolongado
na cria. Para Afonso e Suzana os dois rapazes estavam realizando
o que eles, quando mais novos sempre tiveram vontade de
fazer. Impedidos outrora, pelo rigor preconceituoso dos
pais e agora pelas dificuldades inerentes à vida
profissional, projetavam nos filhos a conquista de uma liberdade,
que lês alargava o espírito.
Na noite tormentosa de setembro, alguém bateu à
a porta com a terrível notícia. Os dois rapazes
tinham sido mortos, por aventureiros que lhes haviam roubado
o carro, os mantimentos, a filmadora e a máquina
fotográfica..Suzana horrorizada não quis ver
os corpos. A vida não tinha mais sentido para ela.
A dor era tão forte que despertou na escuridão,
com uma pontada violenta no peito, certa de que acabara
de ter um enfarto. Nem o abraço e as palavras consoladoras
de Afonso conseguiram diminuir a fúria dos soluços.
Na véspera , quando lera no jornal Correio do Estado
uma notícia sobre dois peões assassinados
por coureiros, projetou em si mesma o horror de uma tragédia
que lhe esmagava as entranhas, porque sabia estar passando
por tormento igual. A imaginação transportou-a
a um círculo imaginário do inferno onde os
condenados sofriam mutilações terríveis.
Ali estavam as mães e pais mães complacentes,
que por tudo permitir aos filhos, haviam-nos precipitado
nos abismos da morte. Nas cavernas do desespero, viveria
por toda a eternidade com os pedaços do corpo sendo
arrancados um a um.No entanto, a dor física era menos
aguda do que a tortura infligida quando lhe arrancaram os
filhos,carne de sua carne, pedaços de si mesma.
"Edu
estou com frio. Onde estão os homens que nos assaltaram?
Como vamos fazer para escaparmos daqui? Se ao menos tivéssemos,
uma faca, um canivete qualquer.Acho que dessa vez não
escapamos. Vamos morrer de fome, de sede, amarrados como
dois bichos"
.
Numa noite de tempestade, Afonso e Suzana sentados à
mesa pareciam dois fantasmas de si mesmos. Os dias se arrastavam
, sem qualquer indício do paradeiro dos filhos. A
polícia sobrevoara diversas vezes o local sem qualquer
vestígio dos dois. O granizo batia nas janelas, furava
a pele de dois seres que não tinham força
para escutar os gritos que atravessavam os vidros, como
algo vindo do fundo de um filme, ou de regiões secretas
em que o vento do desespero impede o raciocínio.
"Mamãe,
papai, abram ,somos nós. Quando roubaram nosso carro,
fomos amarrados numa árvore mas conseguimos fugir.
Graças a Deus, Edu tinha um canivete no bolso com
que cortamos as cordas. Passamos muitos s dias, caminhando
feito loucos, sem destino pelo mato até que conseguimos
nos esconder no galpão de uma fazendinha da Nhecolândia,
onde a polícia nos encontrou..
Estamos sujos, arranhados,com muita fome. Não chorem.
Perdoem o sofrimento que causamos. Seus filhos voltaram,
é o que importa."
A tormenta parecia haver passado.Mas os roedores da dúvida
continuavam dilacerando o coração de Suzana.
O ar estava pesado, irrespirável. Apenas uma pausa
fora feita, um intervalo na tragédia que cortara
em pedacinhos a alma do casal. Mentalmente Afonso repetiu
um verso antigo de Garcia Lorca; "Es verdad mas fue
tan mentira que sigue siendo imposible siempre."
Que
garantia lhes era conferida de que em poucos minutos tudo
não se repetiria, talvez de forma mais cruel, nesse
girar louco do redemoinho da existência em que a insegurança
era a única das certezas? Como conviver com o fantasma
do medo rondando cada passo da vida humana numa sociedade
sufocada pelo ódio, pela desesperança? Como
se preparar para cada novo lance de dados?