Maria da Glória Sá Rosa

Dizem
que a vida da gente é um tecido no qual o homem desenha
seu próprio bordado. O talento, a capacidade de trabalho,
as idéias, os sentimentos são responsáveis
pelo resultado final. Cada um de nós constrói
seu próprio destino. Vocês, que me vêem
hoje andando pela rua, enrolado num cobertor velho, fiquem
sabendo que o único responsável por ter-me
tornado um deserdado da vida sou eu mesmo. Se vivo de olhos
no chão, à procura de um tesouro perdido,
foi porque o tive entre as mãos e deixei-o ir embora,
na inconsciência de quem acha que as coisas boas duram
para sempre.
Nasci
numa família pobre de Campo Grande, no tempo das
casas com quintais, liberdade de brincar na calçada,
tomar banho no córrego, caçar passarinhos
com bodoque. Nos dias claros de minha infância, jogar
pião, andar descalço eram signos de liberdade
e não estigmas de pobreza. Na escola, distinguia-me
entre os colegas pela facilidade de fazer contas, de conseguir
as coisas com um piscar de olhos, um riso malicioso que
me fazia conquistar rápido a simpatia dos professores
e dos colegas. Foi o meu reinado nas ondas da inocência.
A vida me parecia fácil como uma partida de futebol,
em que sempre conseguia marcar um gol. Assim que terminei
o ginásio, precisei trabalhar para não depender
de meus pais e também para colaborar no sustento
da família. Rolei por diversos empregos, até
que um dia me vi dominado pelo desejo febril de ganhar dinheiro,
quando uns amigos me falaram de um garimpo, às margens
do rio Aquidauana, no patrimônio Fala Verdade, onde
achar um diamante era algo tão fácil, como
abrir uma janela e deixar a alma inundar-se de sol. Nessa
época, comecei a descobrir no fundo de mim mesmo
o demônio da ambição mastigando cada
pequenina parcela de meu ser. Acordava suado com as mãos
cheias de pedras preciosas, com as quais me tornaria respeitado,
compraria todos os objetos do desejo, inclusive a sinceridade
dos homens e o amor das mulheres. A partir de meus vinte
anos tornei-me escravo das paixões. Primeiro da riqueza,
que julguei fácil de adquirir. As outras vieram depois.
Contra
vontade de minha família, mandei-me para a vida do
garimpo, onde passei a conviver com a escória humana,
gente da mais baixa classe social, cujo único objetivo
era descobrir entre os cascalhos o brilho das pedras produtoras
da felicidade.
Trabalhei
movido pelo desespero, pela gula mórbida de morder
um dia o fruto cobiçado. Que um dia surgiu como surgem
todos os produtos resultantes de lance de dados. De forma
súbita, imprevisível tive entre as mãos
um diamante do tamanho de um planeta, cintilante como um
sonho realizado, belo como os olhos de uma morena por quem
me apaixonei nas águas do Aquidauana e com quem mais
tarde me casei.
Não
vou encompridar a história, que começa realmente
depois da descoberta da riqueza que mudou totalmente meu
modo de ser e de viver.
Com
a venda da pedra, adquiri hábitos de novo rico, proporcionei
dias de conforto à minha mulher e aos filhos que
vieram depois. Só que o demônio da ambição
tinha tomado contada de minha alma. Descobri no jogo um
jeito de aumentar a fortuna que o diamante me proporcionava.Tinha
uma sorte incrível no carteado, na roleta, no jogo
de dados. Nada mais me interessava a não ser a mesa
de jogo, a aventura de tentar a sorte, na manipulação
dos números que acrescentavam dezenas de moedas a
uma fortuna que consumia meu destino. Um verme roía
minhas entranhas, a ansiedade tomava conta de minha alma
nada me retinha em casa, quando chegava a hora de entrar
no cassino e tentar a sorte.
Descuidei
de minha família, inventava mentiras, para sair e
penetrar no templo da perdição. Nenhum prazer
me era tão gratificante como ganhar uma partida.
Amizade, sexo, distrações não tinham
mais o menor apelo para mim . Tocar nas cartas vencedoras,
no dinheiro ganho era o clímax dos clímax,
o único que percorria meu sangue, como seiva revitalizadora.
Só
que a sorte é instável, enganadora. E quando
menos esperava a minha começou a abandonar-me. O
pior é que quanto mais perdia, mais lances dava,
na tentativa de recuperar as somas perdidas.
Numa
noite, vi-me pobre, abandonado e entregue ao desespero.
Saí de casa e passei a vagar pelos becos da vida,
sem dinheiro sem sonhos, sem família. Dormia nas
ruas, comia o que conseguia. Um dia, sonhei que um diamante
enorme estava debaixo de meus olhos, que só me bastava
procurá-lo sem descanso, para torná-lo meu.
Descalço, enrolado num velho cobertor, fiz da calçada
do Cine Rialto, meu domicílio. O sonho de recuperar
o diamante perdido não me abandona, é o licor
com que restauro as forcas, quando a fragilidade dos sentimentos
ameaça entorpecer-me. Essas recaídas acontecem
quando reencontro aqueles amigos do tempo das vacas gordas
que me olham com desprezo e fogem de minha presença
como se tivessem diante de si um monstro repugnante. Meu
ex-amigo Oswaldinho Banderas, que bebeu centenas de doses
de meu uísque escocês, companheiro de partidas
de pôquer, me encontrou dormindo na porta da Catedral
de São José, fingiu não me reconhecer
e ainda foi denunciar-me ao padre, como cachaceiro, para
que me expulsasse dali, com a desculpa de perturbação
da ordem religiosa. Logo eu , que detesto bebida, que o
salvei muitas vezes de situações constrangedoras,
que lhe emprestava dinheiro para solver dívidas com
mulheres, bebidas e jogo. O mais triste foi um dia quando
as meninas do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora,chegaram
em fila duas a duas para assistir a um filme no Rialto.
Quando vi minha filha Marilena no meio delas, não
resisti, perdi o controle . Queria ao menos uma palavra,
um olhar daquela criança de cabelos crespos, tão
parecida com a mãe, mas dela recebi apenas um olhar
de espanto, de horror, quando gritei:- Filha, sou eu pai,
você não me reconhece? As freiras horrorizadas
recolheram as meninas no mesmo ônibus em que tinham
vindo, nem esperaram pelo filme e eu continuei gritando:
ela é minha filha, irmã, só quero vê-la
nada mais. Ouvi as palavras louco, bêbado, mas logo
retornei ao mundinho de sonhos , de esperanças onde
a visão do diamante me dá forças para
continuar vivendo.Sei que um dia vou. tê-lo nas mãos
como dádiva sonhada e reconquistada.Aí então,
estou certo de que vão voltar os amigos, o respeito,
as bajulações. A vida é uma roleta,
quando menos se espera, tudo muda para melhor. Não
tenho pressa. Tudo tem sua hora de acontecer. Aos que se
assustam de ver de olhos baixos, andando solitário
pelas ruas de Campo Grande, envio uma mensagem virtual:
Este é o bordado, a tela em que tracei minha vida.
Não me lamentem .Fui o construtor de meu destino.
Ainda
vou reconquistar a fortuna dos velhos tempos. O sonho dá
corda em meu destino.