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"Um povo não pode morrer para pagar a dívida."
(Monsenhor Eduardo Miras, arcebispo de Rosario, 17/11/2001

Sistema Financeiro Mundial


Marivilia Carrasco

Col Erivado Cavalcanti

A ARGENTINA É APENAS O INÍCIO DA DESINTEGRAÇÃO FINAL DO SISTEMA FINANCEIRO MUNDIAL

A monumental explosão da crise econômica e política que derrubou uma sucessão de governos na Argentina, nos últimos dias de 2001, fez com que, um após outro, os aturdidos governantes de vários países ibero-americanos, do presidente mexicano Vicente Fox ao brasileiro Fernando Henrique Cardoso, se apressassem em assegurar ao mundo:

"Nós não somos a Argentina. Continuaremos aplicando as medidas de austeridade do FMI e pagando inquestionavelmente as nossas dívidas. Aqui não ocorrerá a mesma coisa."

São dignos de pena. A explosão da bomba da dívida na Argentina é apenas o começo de algo que, prontamente, avassalará a região e o mundo.

É um sintoma - pequeno, é certo - do atordoante desmoronamento de todo o sistema financeiro mundial, exatamente como vem advertindo há anos o economista e pré-candidato presidencial estadunidense Lyndon LaRouche.

Chegamos ao fim do sistema. A bolha especulativa de 400 bilhões de dólares se desintegra, e as medidas do FMI não poderão reestabilizar a situação.

Os governos que as aceitem somente produzirão mais miséria e morte, e sofrerão o destino do Governo Fernando de la Rúa na Argentina.

É HORA DE CONSTRUIR UMA ALTERNATIVA

O Governo de Adolfo Rodriguez Saá, em sua efêmera semana de duração, deu passos na direção correta - como declarar uma moratória da dívida externa -, mas falhou na questão decisiva de como criar crédito nacional para reativar a economia interna, sendo logo derrubado pelos aterrorizados interesses de Wall Street e da City de Londres, por meio de seus representantes locais.

É urgente que a Argentina e toda a Ibero-América extraiam os ensinamentos do caso, os mesmos que LaRouche tem estado explicando durante anos.

A realidade insofismável é que todo os sistema financeiro mundial está irremediavelmente quebrado. Basta ver o caso do Japão, onde mais de uma década de emissão hiperinflacionária de ienes criou uma bolha especulativa que torna minúsculos os 220 bilhões de dólares da dívida externa real da Argentina.

Como resultado, a banca japonesa está em quebra, afogando-se num mar de dívidas vencidas que já não podem ser cobertas com truques financeiros.

Vários dos principais bancos japoneses já cambaleiam à beira da insolvência.

Agora, o primeiro-ministro Junichiro Koizumi aproveitou a semana de feriado bancário do fim do ano para convocar uma reunião extraordinária dos líderes financeiros e políticos do país, para tentar improvisar medidas de emergência. Após a reunião, o secretário-geral do Partido Liberal Democrático,
Taku Yamazaki, prometeu: "Tomaremos todas as medidas possíveis para evitar retiradas em massa das contas bancárias. Não deixaremos que o público entre em pânico."

Porém, a crise do Japão é, em realidade, uma crise do dólar estadunidense.

O iene tem sido o principal escudo do dólar nos mercados financeiros mundiais: quando se desintegrar, o dólar irá a pique juntamente com ele.

A bolha especulativa de Wall Street - 140 trilhões de dólares em dívidas estadunidense e contratos de derivativos - equilibra pelo alto uma economia produtiva estadunidense cada vez mais débil, e qualquer vento forte pode derrubá-la.

A queda de 65% do índice Nasdaq nos últimos 18 meses é apenas o início.

Em setembro de 2001, a produção industrial dos EUA havia se reduzido em 5,8% em relação ao ano anterior, tendo o setor manufatureiro caído ainda mais, em 6,7%.

Olhando para a Polônia ou a Turquia, cada uma abriga uma bomba de dívida pelo menos tão explosiva como a que acaba de detonar na Argentina.

O mesmo vale para o México, que se dirige a uma explosão econômica e social ao estilo da Argentina, talvez ainda no primeiro semestre de 2002.

O MAREMOTO MEXICANO

Como a Argentina, o México está à beira de uma crise de processos financeiros hiperinflacionários e físico-econômicos hiperdeflacionários simultâneos.

Na Argentina, isto tomou a forma do demencial "orçamento de déficit zero" imposto pelo ministro da Economia Domingo Cavallo, por pressão do FMI.

A idéia é simples - e totalmente incompetente. Primeiro, se declara sacrossanto o pagamento de juros da dívida pública, que será sempre coberta, passe o que passe. Segundo, o Governo somente deve gastar o que sobre dos rendimentos fiscais e outros, depois de atendido o serviço da dívida.

Ou seja, o Governo nem terá déficit nem pedirá emprestado para cobri-lo: o déficit será sempre igual a zero.

Mas, o que ocorre se o pagamento de juros continua subindo e a arrecadação fiscal continua caindo, como vem ocorrendo na Argentina?

Por exemplo, o pagamento de juros subiu de 11% do orçamento total, em 1998, para 15%, em 2000 e 18%, em 2001, enquanto a base tributária se contraía simultaneamente. Em dezembro de 2001, a arrecadação fiscal se reduziu a um impressionante índice anual de 33% - ou seja, o parasita está
crescendo mais que o hospedeiro.

Assim, deflagrou-se na Argentina um processo hiperinflacionário de pagamento da dívida, juntamente com um processo hiperdeflacionário de contração da economia física real.

Os resultados são visíveis: a força de trabalho sofre com índices recordistas de desemprego; os aposentados passam fome; a base tributária desmorona; os bancos estão paralisados; e o caos político está na ordem do dia.

O arcebispo de Rosario, monsenhor Eduardo Miras, advertiu há pouco que "um povo não pode morrer para pagar a dívida".

Mas isto é exatamente o que exigem os credores da Argentina e o que trataram de fazer os seus últimos governos.

Quanto ao México, do jeito como vai, poderá sofrer uma explosão semelhante antes de meados de 2002.

O Governo de Vicente Fox adotou a versão mexicana da insanidade do "déficit zero": prometeu aos seus credores estrangeiros que pagará fielmente o serviço da dívida e que não terá um déficit orçamentário superior a 0,65% do PIB.

O orçamento de 2002 destina ao pagamento da dívida pública cerca de 21 bilhões de dólares, ou seja 15% dos gastos totais, a mesma proporção observada na Argentina em 2000.

Enquanto a oligarquia financeira der o sinal, as agências classificadoras internacionais como a Moody's e a Standard & Poor's farão ao México o que fizeram à Argentina: aumentar unilateralmente a taxa de "risco-país" e subir em até 100% o custo dos juros.

A arrecadação fiscal do Governo mexicano já começou a cair: em 2001, a arrecadação do imposto sobre o valor agregado caiu 3%, o das empresas estatais, 6% e os impostos de importação, em nada menos que 28%.

O ministro da Fazenda Francisco Gil Díaz, um egresso da Universidade de Chicago, assim como seu colega argentino de Harvard Domingo Cavallo, traduziu o problema em 1,4 bilhão de dólares em cortes nos gastos do Governo.

O que aguarda o México é um maremoto que fará a Argentina parecer uma reles marola, gerado pelo terremoto que sacode atualmente a economia dos EUA.

Nos últimos 20 anos, o México passou a depender doentiamente da economia estadunidense, em particular de sua bolha de crédito ao consumo.

Atualmente, o país destina 90% de suas exportações aos EUA; cerca de metade disto sai das maquiladoras da fronteira México-EUA. Mas, durante 2001, o "importador de último recurso" que têm sido os EUA começou a fechar o negócio, com conseqüências devastadoras para o México.

O emprego nas maquiladoras, por exemplo, que havia subido ano após ano por duas décadas, ainda quando caía o emprego industrial restante, caiu cerca de 13% em 2001. Os 200.000 desempregados resultantes se somaram aos outros 850.000 mexicanos que perderam o emprego no mesmo ano.

Isso é só parando seu ex-presidente João Passos, há 200 favelas ativas na Faferj.