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Prof
DivalteGarcia Figueira ( * )
Um
mundo dividido: os países pobres
No início
deste novo milênio, a globalização e
a revolução tecnológica oferecem para
a humanidade possibilidades de bem-estar inteiramente desconhecidas
até a década de 1970. Nunca o ser humano teve
bens à sua disposição. Nunca a expectativa
de vida foi tão alta.
No entanto, a distribuição da riqueza entre
os diversos países e entre os vários grupos
sociais de um mesmo país está cada vez mais
longe de ser igualitário. Segundo o Relatório
sobre o desenvolvimento humano, divulgado em junho de 2000
pela ONU, a diferença de rendimento entre o país
mais rico e o mais pobre, em 1820, era de 3 para 1. Em 1950,
passou a ser de 35 para 1. E, em 1992, aumentou ainda mais:
72 para 1.
Assim, enquanto um seleto grupo de países exibe uma
renda per capita superior a 2-0 000 dólares, cerca
de 3 bilhões de pessoas - a metade da população
mundial - sobrevivem com até 2 dólares por
dia. Essas pessoas fazem parte do chamado Terceiro Mundo,
designação sob a qual se reúnem os
países mais pobres do planeta, que são o tema
deste capítulo.
1.
Os deserdados da Terra
Embora estejam diferentes graus de desenvolvimento, os países
pobres, de modo geral, apresentam as seguintes características:
- baixos níveis de renda per capita;
- baixa expectativa de vida;
- altos índices de mortalidade infantil;
- grande número de analfabetismo;
- saneamento básico e serviços de assistência
médica insuficiente;
- baixos salários;
- desigualdade na distribuição de renda;
- propriedade da terra concentrada nas mãos de um
pequeno grupo:
- instabilidade política;
- altos índices de criminalidade e violência
urbana;
- dependência econômica;
- dependência científica e tecnológica;
- endividamento externo.
2.
América Latina: a década perdida
Uma das características dos países pobres,
como vimos, é o alto grau de dependência em
relação ao capital estrangeiro. Por razões
diversas, esses países não encontraram seu
próprio caminho para o desenvolvimento econômico
e social auto-sustentado. Dessa forma, dependem de recursos
externos - empréstimos e investimentos diretos ou
capitais especulativos investidos no mercado financeiro.
Essas formas de captação de recursos a criar
dois tipos de problema para o país receptor: a desnacionalização
da economia e o endividamento externo.
O caso da América Latina é um exemplo de como
a dívida externa pode levar ao estrangulamento da
economia. Formada principalmente por empréstimos
tomados em épocas em que os juros eram baixos, a
dívida externa latino-americana disparou nos anos
1980 devido ao aumento das taxas de juros internacionais.
Em 1989, a América Latina devia aos bancos e aos
governos dos países ricos mais de 400 bilhões
de dólares. Sem condições de continuar
pagando os juros e serviços da dívida, o México
(1982) e o Brasil (1987) declararam moratória unilateral,
suspendendo os pagamentos aos credores externos.
Além da "crise da dívida", a América
Latina enfrentou, no começo da década de 1980,
acentuada queda em seu comércio externo, o que gerou
recessão, desemprego e inflação. Foi
nesse contexto que o ciclo dos regimes militares latino-americanos
chegou ao fim. As dificuldades econômicas fortaleceram
os movimentos de oposição, que exigiam o retorno
ao Estado de direito (ou Estado democrático). As
pressões internas contaram com o apoio dos EUA a
partir de 1977, quando o presidente Jimmy Carter passou
a patrocinar no continente uma política em favor
dos direitos humanos e pela volta da democracia. Essa postura
norte-americana foi fundamental para que regimes autoritários
chegassem ao fim na Bolívia (1982), na Argentina
(1983), no Uruguai (1984) e no Brasil (1985). Em 1988, começava
no Chile a transição democrática.
Mas na maioria dos casos os militares entregaram aos civis
economias debilitadas pelo endividamento externo. Outro
problema que esses países enfrentaram foi o agravamento
da pobreza, acentuado pela política econômica
das ditaduras, que estimularam a concentração
de renda em prejuízo da maioria da população.
Dessa forma, quando os civis assumiram o poder, viram-se
diante de enormes despesas cujo pagamento não podiam
adiar.
Sem recursos para cumprir os compromissos, os novos governantes
foram obrigados a obter dinheiro por meios que faziam a
inflação aumentar, como vender títulos
do governo, oferecendo altas taxas de juros como forma de
atrair os investidores. Essa política reduziu o ritmo
de crescimento da economia, pois desviou recursos do setor
produtivo para a especulação com papéis
do governo, que apresentavam possibilidade de lucro rápido.
Também aumentou a dívida interna dos países
e elevou os juros bancários.
Com os juros em alta e o mercado em retração,
os empresários preferiram empregar seu dinheiro em
aplicações financeiras, em vez de investir
na produção. O resultado da queda nos investimentos
públicos e privados foi o agravamento da recessão.
Ao mesmo tempo, os juros altos provocaram a alta dos preços,
gerando inflação.
A
pobreza no mundo
O mundo encerra o século XX carregando problemas
do século XIX, com 1,2 bilhões de pessoas
vivendo com menos de 1 dólar por dia, mas 1 bilhão
sem acesso a água limpa, 2,4 bilhões sem saneamento,
790 milhões de subnutridos, 100 milhões de
crianças morando ou trabalhando nas ruas e, como
novidade, 34 milhões de infectados com o HIV. O ódio
racial, religioso e contra minorias sexuais continua provocando
violência.
Os dados aparecem no Relatório 2000 sobre o desenvolvimento
humano, divulgado em junho de 2000 pela Organização
das Nações Unidas (ONU).
(Adaptado de: O Estado de S Paulo, 2000, p. A18)
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