|
.Prof. Divalte Garcia Figueira ( * )
Reino Unido a Portugal
e Algarves
Além das concessões
de ordem econômica, os tratados de 1810 com a Inglaterra
estabeleciam privilégios particulares a cidadãos
ingleses em território luso-brasileiros. Um desses
tratados, o de Comércio e Navegação,
garantia aos súditos fixados no Brasil o direito
de serem julgados segundo as leis da Inglaterra, aplicadas
por um juiz britânico instalado no Rio de janeiro
(direito de extraterritorialidade). Outro acordo determinava
a extinção gradual do tráfico negreiro
no Brasil.
Esse tratamento privilegiado ampliava a hegemonia inglesa,
que deixava de ser apenas econômica para assumir proporções
políticas importantes. Ao invadir essa esfera, os
ingleses encontraram forte resistência de alguns setores
do governo português, que não estavam dispostos
a transformar Portugal em simples vassalo da Inglaterra.
A primeira reação de desagrado partiu do próprio
Dom João, que, em 1815, reafirmou a soberania lusitana,
ordenando a ocupação militar da Banda Oriental
(atual Uruguai) por tropas luso-brasileiras. Dominar essa
região era uma antiga ambição dos portugueses,
que assim poderiam controlar o comércio com o interior
do continente através do rio da Prata. A intervenção
foi justificada pelo fato de o governo de Buenos Aires ter
ocupado Montevidéu em 1814.
A Inglaterra apoiava o governo de Buenos Aires, em luta
por sua amancipação da Espanha, e opunha-se
à decisão do príncipe regente. Dom
João, entretanto, manteve-se firme e, em 1821, anexou
a Banda Oriental aos domínios luso-brasileiros com
o nome de Privíncia Cisplatina.
Com o derrota de Napoleão na Europa, em 1814, a política
portuguesas entraria mais uma vez em choque com os ingleses.
O Congresso de Viena, visando restaurar os antigos governos
europeus (sobre o assunto, ver capítulo 40), exigia
o retorno da família real a Portugal para reassumir
o trono e colocar fim ao exílio na colônia.
Resistente à idéia, Dom João resolveu
elevar o Brail à categoria de Reino Unido a Portugal
e Algarves. Com isso, seu governo ficaria instalado em terras
do reino e não em território colonial. A idéia
de Reino Unido partira da Talleyrand, delegado francês
no Congresso de Viena, cuja política colidia frontalmente
com os interesses da Inglaterra.
Um novo Brasil
A presença da família
real em terras coloniais era um fato inusitado e acabou
provocando muitas transformações no Brasil.
Em 10 de setembro de 1808, por exemplo, começou a
circular o primeiro jornal editado no Brasil. Era a Gazeta
do Rio de Janeiro, impresso na tipografia da Imprensa Régia.
Com apenas quatro páginas, a publicação
se limitava a divulgar notícias oficiais e de interesse
da família real. Mas a partir daí surgiram
tipografias em diversas regiões do país e
outros jornais passaram a ser publicados. Mais significativa,
no entanto, foi a publicação, entre 1808 e
1822, do Correio Brasiliense, editado em Londres por Hipólito
José da Costa, um brasileiro que estudara na Universidade
de Coimbra e se filiara ao movimento liberal. Trazido clandestinamente
ao Brasil por comerciantes ingleses, o jornal de oposição
ao governo joanino contribuiu para incutir na elite brasileira
as idéias liberais que formariam a ideologia do movimento
de independência.
Muitas mudanças ainda ocorreriam. Veja algumas delas:
* a fundação do Banco do Brasil, em 1808;
* a criação da Imprensa Régia e a autorização
para o funcionamento de tipografias e para a publicação
de jornais em 1808;
* a abertura de algumas escolas, entre as quais duas de
medicina - uma na Bahia e outra no Rio de Janeiro;
* a instalação de uma fábrica de pólvora
e de indústrias de ferro em Minas Gerais e em São
Paulo;
* a vinda da Missão Artística Francesa, em
1816, e a fundação da Academia de Belas-Artes;
* a mudança de denominação das unidades
territoriais, que deixaram de se chamar capitanias e passaram
a denominar-se províncias;
* a criação da Biblioteca Real (1810), do
Jardim Botânico (1811) e do Museu Real (1818), mais
tarde Museu Nacional.
A Resolução
Pernambucana (1817)
Em 6 de março de
1817, eclodiu no Recife uma revolta de grandes proporções.
Senhores de terra, padres, diversos militares de prestígio
e comerciantes participaram do movimento, que se propagou
rapidamente pela cidade e pôs em fuga o governador
de Pernambuco. O rápido êxito da revolta decorreu
de um conjunto de fatores, como o difusão das idéias
iluministas, liberais e republicanas entre as classes dominantes
da região e a insatisfação popular
com o aumento dos impostos estabelecido pelo governo para
custear as invasões da Guiana Francesa e da Banda
Oriental do rio da Prata.
No dia 8 de março, os revolucionários formaram
um governo provisório, republicano, integrado por
cinco membros - representando a agricultura, o comércio,
o clero, a magistratura e os militares - e assessorado por
um Conselho de Estado. Prontamente, emissários do
governo recém-criado foram em busca de apoio à
sua causa em outras províncias e em alguns países,
como Estados Unidos, Argentina e Inglaterra. Na Paraíba,
formou-se um governo revolucionário que também
se declarou independente de Portugal.
Enquanto isso, no Recife, os rebeldes adotaram uma Lei Orgânica,
destinada a regulamentar os poderes da república
de Pernambuco, Inspirada na Declaração dos
Direitos do Homem e do Cidadão da Revolução
Francesa (sobre o assunto, ver o capítulo 39), a
Lei Orgânica deveria vigorar até a convocação
de uma Assembléia Constituinte, que desse ao novo
país uma Constituição definitiva. Até
lá, ficavam estabelecidos como princípios
básicos a forma republicana de governo e a liberdade
de consciência, de opinião e de emprensa. O
trabalho escravo, entretanto, foi mantido.
O movimento rebelde contou com o apoio incondicional da
população do Recife, mas durou apenas 74 dias.
Em 19 de maio de 1817, tropas reais enviadas por mar e por
terra pelo governo do Rio de Janeiro ocuparam a capital
de Pernambuco desencadeando intensa repressão. Os
principais líderes do movimento foram presos e sumariamente
executados. Seguiram-se nove meses de prisões, julgamentos
e execuções. Em 1820, com a eclosão
da Revolução do Porto, que veremos a seguir,
alguns presos remanescentes foram anistiados. Entre eles
estavam frei Joaquim do Amor Divino Caneca e Antônio
Carlos Ribeiro de Andrada - irmão de José
Bonifácio de Andrada e Silva - , que logo seria eleito
um dos representantes do Brasil nas Cortes de Lisboa.
De inspiração republicana e liberal, a Revolução
Pernambucana de 1817 em Pernambuco e em outras províncias
do Nordeste não ousou, entretanto, proclamar a abolição
da escravidão. Apesar disso, foi brutalmente reprimida
pelas autoridades. Na ilutração, tela de Antônio
Parreiras representando a execução de líderes
do movimento no Campo da Pólvora, em Salvador
A Revolução
Liberal do Porto (1820)
Proclamado rei com nome
de Dom João VI em 1818, devido a morte de sua mãe,
Dom João continuava no Brasil, enquanto Portugal
passava por difícil situação. Expulso
o exército francês, cuja ação
de ocupação do reino motivara a fuga da família
real, tornou-se um governo regencial para administrar o
país. A suprema autoridade passou a ser exercida
por William Carr Beresford, comandante das tropas inglesas
que permaneceram no país mesmo após a derrota
definitiva de Napoleão em 1815.
A situação de submissão e um general
inglês provocava insatisfação e revolta,
Além disso, depois de 1815, rebeliões liberais
começaram a eclodir em toda a Europa (sobre o assunto,
ver o capítulo 45). Essa atmosfera de rebeldia acabou
provocando o surgimento de sociedades secretas e movimentos
de contestação em Portugal. Uma dessas sociedades
era o Sinédrio, criada por comerciantes, magistrados
e militares na cidade do Porto, em 1818.
Em agosto de 1820, a guarnição militar do
Porto rebelou-se contra ao domínio inglês.
No dia 15 do mês seguinte, a rebelião chegou
a Lisboa, sublevando a tropa com o apoio de manisfestações
populares contra a monarquia absolutista. As lideranças
rebeldes constituíram então um governo provisório,
que convocou as Cortes de Lisboa, uma espécie de
Parlamento português, para votar uma Constituição
e criar uma monarquia constitucional.
Com a evolução dos acontecimentos, as Cortes
de Lisboa se converteriam no mais importante órgão
do governo revolucionário lusitano. Compostas de
205 cadeiras, das quais 75 deveriam ser preenchidas por
representantes do Brasil, as Cortes contavam com esmagadora
maioria de delegados portugueses.
Recolonizar o Brasil
No Brasil, a notícia
de Revolução do Porto foi recebida com entusiasmo.
Entretanto, a partir de janeiro de 1821, quando as Cortes
começaram a se reunir, ficava cada vez mais claro
para os brasileiros que a política do novo governo
de Lisboa nada tinha de inovador em relação
ao Brasil.
As Cortes, na verdade, faziam parte do projeto da burguesia
comercial portuguesa, interessada em promover algumas reformas
no Antigo Regime, mas não em realizar transformações
redicais nas estruturas econômicas, políticas
e sociais do Reino Unido. Assim, uma de suas primeiras preocupações
foi desfazer a situação de relativa independência
alcançada pelo Brasil sob o governo de Dom João
VI e restaurar o monopólio português do comércio
brasileiro.
Nessa linha de ação, as Cortes determinaram
o regresso de Dom João VI a Portugal. Em abril de
1821, o rei voltou para a Europa, deixando em seu lugar
o príncipe regente, Dom Pedro. (Veremos esse assunto
com mais detalhes no próximo capítulo.) A
seguir, as Cortes subordinaram todas as províncias
brasileiras ao comando direto de Lisboa, como se não
existisse governo no Rio de Janeiro. Além disso,
fecharam diversos órgãos públicos instalados
no Brasil, favoreceram os comerciantes portugueses, com
o restabelecimento de privilégios no comércio
brasileiro e passaram a fazer pressão para que o
príncipe regente voltasse para Portugal. Com essa
política, as Cortes pretendiam, de fato, recolonizar
o Brasil.
(Continua...)
|