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Divalte Garcia Figueira ( * )
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Luzia, a primeira "brasileira"?
Em 1975, foi desenterrado
em Lagoa Santa, local próximo de Belo Horizonte,
Minas Gerais, o mais antigo fóssil humano já
encontrado no continente americano. Ele foi localizado no
interior de uma caverna, a 13 metros de profundidade.
Como já vimos, pelo
exame do fóssil foi possível saber que se
tratava de uma mulher, com altura aproximada de 1,5 metro
e que deve ter falecido com pouco mais de 20 anos de idade,
há cerca de 11,5 mil anos.
Estudado recentemente por
uma equipe chefiada pelo pesquisador Walter Neves, da Universidade
de São Paulo (USP), o fóssil revelou dados
desconcertantes. Após inúmeros estudos e comparações
com outros fósseis, inclusive europeus e asiáticos,
os pesquisadores concluíram que Luzia apresenta traços
anatômicos que se diferenciam dos de outros habitantes
já conhecidos do continente americano, incluindo
os índios. Enquanto estes possuem características
típicas dos povos mongolóides da Ásia,
Luzia apresenta traços negróides, muito mais
próximos dos africanos e mesmo dos povos da Austrália.
Esses dados podem mudar
radicalmente muitas das teorias a respeito da chegada dos
primeiros seres humanos ao continente americano.
Novas pesquisas, novas
hipóteses
Alguns estudiosos começam a admitir que os povoadores
da América tenham chegado em diferentes e sucessivas
levas ao continente.
Em 1986, três pesquisadores
norte-americanos conceberam um modelo para explicar a ocupação
da América por meio de três ondas migratórias.
A primeira teria dado origem a todos os índios da
América do Sul, da América Central e de parte
da América do Norte. A segunda teria resultado nos
grupos nômades da região noroeste da América
do Norte. A terceira seria aquela que originou os inuits
(esquimós).
Nesse modelo, porém,
não há ainda lugar para Luzia e seus parentes.
Por essa razão, Walter Neves e outros pesquisadores
estudam a hipótese de ter havido uma quarta onda
migratória. Para eles, Luzia seria descendente de
um grupo aparentado dos atuais aborígines australianos,
que teriam migrado da Ásia.
A tese tem sido reforçada
pela descoberta, em várias partes do continente,
de outros fósseis com as características de
Luzia. Esses grupos humanos, entretanto, não sobreviveram.
A hipótese levantada é de que eles teriam
sido exterminados por grupos mais fortes ou mais numerosos
que teriam chegado posteriormente e dado origem aos indígenas
atuais.
O povoamento da América
Vimos ao longo deste capitulo que é intenso o debate
sobre a chegada dos primeiros povoadores do atual território
brasileiro. Entretanto, para resolver a questão existe
um grande obstáculo: as características ambientais
da região, que não favorecem a preservação
dos vestígios de nossos primeiros ancestrais, como
mostra o texto a seguir.
Os sítios arqueológicos
são locais onde foram preservados vestígios
reconhecíveis da presença. e das atividades
humanas. Estando tais condições raramente
reunidas, as chances de um local de ocupação
ser preservado e encontrado pelos arqueólogos depois
de milênios de abandono são sempre reduzidas.
As primeiras ondas de imigrantes devem ter sido formadas
por populações muito esparsas, e as probabilidades
de seus sítios serem encontrados são estatisticamente
ainda menores. Os vestígios ósseos (restos
alimentares ou de sepultamentos) conservam-se particularmente
mal em regiões quentes, onde a atividade bacteriana
ou a ação de raízes é intensa
e as terras são geralmente ácidas. Além
disso, em regiões tropicais onde havia abundância
de madeira, a maioria dos instrumentos deve ter sido feita
com esse tipo de matéria-prima, que é rapidamente
destruída.
Os primeiros povoadores
podem até ter dispensado instrumentos de pedra, praticamente
indestrutíveis e que formam os vestígios mais
visíveis nos sítios de regiões frias.
Mas veremos que os supostos sítios arqueológicos
americanos apresentam vestígios que podem ser atribuídos
tanto à ação dos seres humanos quanto
aos fenômenos naturais.
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