|
Divalte Garcia Figueira ( * )
Pesquisadores acreditam que
a América foi provavelmente o último dos continentes
a ser ocupado pelo ser humano. A data em que isso teria
ocorrido, entretanto, é motivo de controvérsia.
Podemos dizer, de maneira simplificada, que as discussões
se concentram em duas questões:
quando teriam chegado os primeiros povoadores e que caminhos
teriam percorrido.
O debate é de extrema
importância. Por muito tempo, considerou-se que a
história da América só teve início
com a chegada dos europeus ao continente, no final do século
XV. Todo o período anterior era classificado como
pré-histórico, ou seja, sem história.
Sabe-se hoje que a história dos povos americanos
é bem mais rica e antiga do que os conquistadores
europeus imaginavam. O objetivo das pesquisas atuais é,
justamente, conhecer o passado dos povos americanos por
uma outra perspectiva: a dos primeiros povoadores do continente
e de seus descendentes.
No interior de Minas Gerais,
em Lagoa Santa, encontra-se um dos principais sítios
arqueológicos do Brasil. Ali foi encontrado o mais
antigo fóssil humano das Américas, com aproximadamente
11,5 mil anos de idade. Pertencente a uma mulher, o fóssil
foi batizado com o nome de Luzia. Por meio de técnicas
de computação foi possível reconstituir
a fisionomia de Luzia, como se pode observar na imagem.
O estudo do fóssil,
entre outras coisas, indicou características, como
idade provável da morte (por volta de 20 anos), altura
(1,50 m) e alguns hábitos alimentares (comia frutos,
raízes e folhas; raramente carne).
1. Teoria Clóvis
Por muito tempo, a teoria mais aceita nos meios científicos
foi a de que os primeiros povoadores teriam chegado à
América há cerca de 11,5 mil anos. Vindos
da Sibéria pelo extremo norte da Ásia, teriam
atravessado o estreito de Bering e chegado ao Alasca

Naquela época, o planeta Terra estava sofrendo o
efeito da última Glaciação, e o rebaixamento
dos oceanos facilitava o acesso entre os dois continentes.
As imensas geleiras existentes na América do Norte
impediram, durante longo tempo, que esses povos migrassem
em direção ao sul. A medida, porém,
que as massas geladas começaram a se desfazer, abriu-se
um caminho por onde os grupos humanos puderam passar e ir
ocupando todo continente.
Essa versão do povoamento
é conhecida como teoria Clóvis. Ela foi originada
das pesquisas arqueológicas realizadas na região
do Novo México, Estados Unidos, em 1937. Os vestígios
deixados pelos grupos humanos que aí viveram, basicamente
pontas de pedra lascada e ossadas dos animais que caçavam,
constituíram a chamada cultura Clóvis.
As análises feitas
pelo método do carbono-14 (C¹4) fixaram a data
da cultura Clóvis entre 10 e l1 mil anos atrás.
A partir daí determinou-se que o início da
ocupação humana no continente deu-se em torno
de 11,5 mil anos.
Descobertas recentes em outros sítios arqueológicos
colocam em dúvida essa teoria. Alguns desses sítios
são os de Meadowcroft, na Pensilvânia, Estados
Unidos; o de Monte Verde, no Chile; e os de Lagoa Santa,
em Minas Gerais, e Pedra Pintada, no Pará
Com as novas pesquisas realizadas nesses locais, já
se pode supor que os primeiros povoadores tenham chegado
ao continente há pelo menos 20 mil anos ou, quem
sabe, há 25, 30 ou 50 mil anos.
2. A pesquisa em Monte
Verde, no Chile
Entre os principais sítios arqueológicos a
fornecer dados que permitem questionar a teoria Clóvis
está o de Monte Verde, no Chile.
Na década de 1970,
foram encontrados objetos feitos de pedra, artefatos de
madeira, restos de plantas medicinais (que ainda hoje são
cultivadas pelos nativos) e até uma estrutura de
habitação, sustentada por toras e coberta
por peles de animais. As evidências mais antigas de
Monte Verde datam de aproximadamente 12,5 mil anos.
Essas descobertas podem
modificar consideravelmente as hipóteses sobre o
povoamento das Américas. Afinal, o sítio de
Clóvis ficava nos Estados Unidos e o de Monte Verde,
no sul do continente. Sabe-se que os deslocamentos humanos
em áreas despovoadas costumavam levar milhares de
anos. Assim, para que seres humanos tenham chegado tão
longe, numa época tão remota, seria preciso
que tivessem atravessado o estreito de Bering muitos milênios
antes. Dessa forma, já se começa a aceitar
que a chegada do ser humano à América pode
ter acontecido há 20 mil anos ou mais!
3. O sítio de
Pedra Pintada
A teoria Clóvis encontra oposição também
por parte de Anna Roosevelt, professora de antropologia
da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos. Ela coordenou,
em 1996, uma equipe que pesquisou a caverna de Pedra Pintada,
em Monte Alegre, Pará, na margem do rio Amazonas.
Entre outros vestígios da presença humana
foram encontradas pontas de lança e cacos de cerâmica
datados de 6,8 a 10 mil anos.
Em entrevista ao jornal
Folha de S.Paulo (15/6/1997), Anna Roosevelt declarou: "Levei
o material coletado para 69 laboratórios de vários
países. Os resultados foram parecidos e nos permitiram
concluir que os paleoíndios (como são chamados
os primeiros habitantes da América) viveram na região
amazônica de 11,2 a 10 mil anos atrás".
Para a pesquisadora, diversos
sítios no Brasil constituem provas mais do que convincentes
de que a ocupação humana na América
se deu há mais de 20 mil anos.
4. O sítio de
Pedra Furada
O sítio de Pedra Furada, localizado em São
Raimundo Nonato, no Piauí, foi encontrado na década
de 1960. Ele vem sendo estudado, desde o início dos
anos 1970, por uma equipe de estudiosos coordenada por Niède
Guidon, arqueóloga franco-brasileira.
No local foram encontrados
pedras lascadas e vestígios de fogueira. Segundo
a equipe, esses vestígios podem ter 48 mil anos,
o que faria de Pedra Furada o mais antigo sítio arqueológico
do continente.
Além disso, foram
encontrados fósseis humanos que, estima-se, têm
por volta de 11 mil anos.
Existem muitas dúvidas, entretanto, em relação
aos vestígios de Pedra Furada. A ausência de
fósseis humanos da mesma época leva alguns
críticos a alegar que as pedras lascadas e.as fogueiras
podem ter origens naturais (raios, por exemplo).
Caso se comprovem as estimativas
sobre a antiguidade da presença humana nesse local,
feitas pela equipe de Niède Guidon, vai ser preciso
admitir que os seres humanos viveram no nordeste brasileiro
há mais de 50 mil anos. Conseqüentemente, sua
chegada ao continente teria acontecido numa data ainda mais
remota.
|