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O texto reproduzido pertence ao livro editado pela
Editora Ática.
"História"
do mesmo autor.

( * ) Divalte Garcia Figueira.
Bacharel e licenciado em História.
Mestre em História Econômica
Doutorando pela Universidade de São Paulo
Autor entre outros de “Cidades Históricas e barroco mineiro” “Soldados e negociantes na Guerra do Paraguai”
e_mail:- divalte@yahoo.com

 

 

A cabeça de Luzia foi reconstituída na Universidade de Manchester, Inglaterra, e revelou surpreendentes traços negróides.


 

A ocupação da América II


Divalte Garcia Figueira ( * )

Pesquisadores acreditam que a América foi provavelmente o último dos continentes a ser ocupado pelo ser humano. A data em que isso teria ocorrido, entretanto, é motivo de controvérsia.

Podemos dizer, de maneira simplificada, que as discussões se concentram em duas questões:
quando teriam chegado os primeiros povoadores e que caminhos teriam percorrido.

O debate é de extrema importância. Por muito tempo, considerou-se que a história da América só teve início com a chegada dos europeus ao continente, no final do século XV. Todo o período anterior era classificado como pré-histórico, ou seja, sem história. Sabe-se hoje que a história dos povos americanos é bem mais rica e antiga do que os conquistadores europeus imaginavam. O objetivo das pesquisas atuais é, justamente, conhecer o passado dos povos americanos por uma outra perspectiva: a dos primeiros povoadores do continente e de seus descendentes.

No interior de Minas Gerais, em Lagoa Santa, encontra-se um dos principais sítios arqueológicos do Brasil. Ali foi encontrado o mais antigo fóssil humano das Américas, com aproximadamente 11,5 mil anos de idade. Pertencente a uma mulher, o fóssil foi batizado com o nome de Luzia. Por meio de técnicas de computação foi possível reconstituir a fisionomia de Luzia, como se pode observar na imagem.

O estudo do fóssil, entre outras coisas, indicou características, como idade provável da morte (por volta de 20 anos), altura (1,50 m) e alguns hábitos alimentares (comia frutos, raízes e folhas; raramente carne).

1. Teoria Clóvis
Por muito tempo, a teoria mais aceita nos meios científicos foi a de que os primeiros povoadores teriam chegado à América há cerca de 11,5 mil anos. Vindos da Sibéria pelo extremo norte da Ásia, teriam atravessado o estreito de Bering e chegado ao Alasca

Naquela época, o planeta Terra estava sofrendo o efeito da última Glaciação, e o rebaixamento dos oceanos facilitava o acesso entre os dois continentes.
As imensas geleiras existentes na América do Norte impediram, durante longo tempo, que esses povos migrassem em direção ao sul. A medida, porém, que as massas geladas começaram a se desfazer, abriu-se um caminho por onde os grupos humanos puderam passar e ir ocupando todo continente.

Essa versão do povoamento é conhecida como teoria Clóvis. Ela foi originada das pesquisas arqueológicas realizadas na região do Novo México, Estados Unidos, em 1937. Os vestígios deixados pelos grupos humanos que aí viveram, basicamente pontas de pedra lascada e ossadas dos animais que caçavam, constituíram a chamada cultura Clóvis.

As análises feitas pelo método do carbono-14 (C¹4) fixaram a data da cultura Clóvis entre 10 e l1 mil anos atrás. A partir daí determinou-se que o início da ocupação humana no continente deu-se em torno de 11,5 mil anos.
Descobertas recentes em outros sítios arqueológicos colocam em dúvida essa teoria. Alguns desses sítios são os de Meadowcroft, na Pensilvânia, Estados Unidos; o de Monte Verde, no Chile; e os de Lagoa Santa, em Minas Gerais, e Pedra Pintada, no Pará

Com as novas pesquisas realizadas nesses locais, já se pode supor que os primeiros povoadores tenham chegado ao continente há pelo menos 20 mil anos ou, quem sabe, há 25, 30 ou 50 mil anos.

2. A pesquisa em Monte Verde, no Chile
Entre os principais sítios arqueológicos a fornecer dados que permitem questionar a teoria Clóvis está o de Monte Verde, no Chile.

Na década de 1970, foram encontrados objetos feitos de pedra, artefatos de madeira, restos de plantas medicinais (que ainda hoje são cultivadas pelos nativos) e até uma estrutura de habitação, sustentada por toras e coberta por peles de animais. As evidências mais antigas de Monte Verde datam de aproximadamente 12,5 mil anos.

Essas descobertas podem modificar consideravelmente as hipóteses sobre o povoamento das Américas. Afinal, o sítio de Clóvis ficava nos Estados Unidos e o de Monte Verde, no sul do continente. Sabe-se que os deslocamentos humanos em áreas despovoadas costumavam levar milhares de anos. Assim, para que seres humanos tenham chegado tão longe, numa época tão remota, seria preciso que tivessem atravessado o estreito de Bering muitos milênios antes. Dessa forma, já se começa a aceitar que a chegada do ser humano à América pode ter acontecido há 20 mil anos ou mais!

3. O sítio de Pedra Pintada
A teoria Clóvis encontra oposição também por parte de Anna Roosevelt, professora de antropologia da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos. Ela coordenou, em 1996, uma equipe que pesquisou a caverna de Pedra Pintada, em Monte Alegre, Pará, na margem do rio Amazonas. Entre outros vestígios da presença humana foram encontradas pontas de lança e cacos de cerâmica datados de 6,8 a 10 mil anos.

Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo (15/6/1997), Anna Roosevelt declarou: "Levei o material coletado para 69 laboratórios de vários países. Os resultados foram parecidos e nos permitiram concluir que os paleoíndios (como são chamados os primeiros habitantes da América) viveram na região amazônica de 11,2 a 10 mil anos atrás".

Para a pesquisadora, diversos sítios no Brasil constituem provas mais do que convincentes de que a ocupação humana na América se deu há mais de 20 mil anos.

4. O sítio de Pedra Furada
O sítio de Pedra Furada, localizado em São Raimundo Nonato, no Piauí, foi encontrado na década de 1960. Ele vem sendo estudado, desde o início dos anos 1970, por uma equipe de estudiosos coordenada por Niède Guidon, arqueóloga franco-brasileira.

No local foram encontrados pedras lascadas e vestígios de fogueira. Segundo a equipe, esses vestígios podem ter 48 mil anos, o que faria de Pedra Furada o mais antigo sítio arqueológico do continente.

Além disso, foram encontrados fósseis humanos que, estima-se, têm por volta de 11 mil anos.
Existem muitas dúvidas, entretanto, em relação aos vestígios de Pedra Furada. A ausência de fósseis humanos da mesma época leva alguns críticos a alegar que as pedras lascadas e.as fogueiras podem ter origens naturais (raios, por exemplo).

Caso se comprovem as estimativas sobre a antiguidade da presença humana nesse local, feitas pela equipe de Niède Guidon, vai ser preciso admitir que os seres humanos viveram no nordeste brasileiro há mais de 50 mil anos. Conseqüentemente, sua chegada ao continente teria acontecido numa data ainda mais remota.