|
Divalte Garcia Figueira ( * )
A escolha do melhor
ofício
Os escribas, compenetrados da própria importância,
julgavam a sua profissão muito superior à
dos trabalhadores manuais. Exemplo disso é o texto
a seguir, escrito por um velho escriba, que procura influenciar
seu filho na escolha do melhor oficio:
Não tens uma idéia
da vida do camponês que cultiva a terra? O coletor
das finanças acha-se no cais ocupado em recolher
os dízimos das colheitas. Tem consigo gente armada
de bastão, negros munidos de ripas de palmeira. Todos
gritam: Vamos, os grãos! Se o camponês não
os tem, atiram-no ao chão (...); arrastam-no ao canal,
onde o mergulham de cabeça para baixo (...)
O artesão não
é mais feliz do que o camponês. O pedreiro,
dir-te-ei como a doença o espreita, pois está
exposto a todos os ventos, sobre as vigas do andaime, pendurado
nos capitéis como lótus; seus dois braços
gastam-se no trabalho, suas vestes em desordem, não
se lava senão uma vez por dia. Quando consegue pão,
regressa à casa e bate em seus filhos (...) O tecelão
não arreda de sua casa; seus joelhos estão
à altura do estômago; se deixar de fabricar
um só dia a quantidade regulamentar, é atado
como os lótus dos pântanos.
Mas, a profissão
de oficial do exército será mais tentadora?
Vem, que eu te contarei a sorte de um oficial do exército.
Levam-no ainda criança e encerram-no na caserna.
Logo, o seu ventre estará todo gretado e os seus
supercílios fendidos, a sua cabeça, uma chaga.
Estendem-no e espancam-no
como a um papiro. Queres que te conte agora a sua campanha
em lugares longínquos? Leva os víveres e a
água ao ombro como a carga de um burro; a sua espinha
parte-se. Bebe água podre. Deve constantemente montar
guarda. Chega diante do inimigo? E um pássaro que
treme. Volta ao Egito? E apenas um velho pedaço de
pau roído pelos vermes.
O velho escriba conclui:
Vi a violência, por toda a parte a violência!
Eis por que te inclino para as letras (...).
|