|
Irm. Ambrósio Peters ( * )
Esse é um extrato da história
da expansão da Maçonaria Especulativa para os
territórios da França compilado a partir de uma
brochura intitulada "Qui-Sommes-nous?" (Quem somos
nós?), editada pelo Grande Oriente da França (Edições
EDIMAF), no ano de l979, tratando-se de informações
diretamente compiladas por aquele próprio Grande Oriente.
As primeiras lojas, ao modelo das lojas da Grande Loja de Londres,
se instalaram em Paris nos anos de 1725/26, portanto apenas
dois ou três anos após a promulgação,
em 1723, do Livro das Constituições daquela Grande
Loja. Rapidamente as lojas se multiplicaram tanto que já
em 1728 elas foram agrupadas numa entidade denominada "Lojas
do Reino de França". Cerca do ano de 1735 se criou
efetivamente a Grande Loja da França que em 1773 se transformaria
no atual Grande Oriente da França.
Essa rápido progresso em Paris se estendeu imediatamente
às províncias. Tanto em Paris como nas províncias
os iniciados eram quase exclusivamente aristocratas, eclesiásticos,
membros da alta burguesia e oficiais militares. A classificação
social dos iniciandos deixa claro que no início o recrutamento
se restringiu às classes socialmente privilegiadas, como
aliás já havia acontecido com os novos membros
aceitos na Maçonaria Especulativa da Inglaterra desde
o século XVI. O Regulamento
Em relação às novas idéias de reformas
políticas que dominaram a França no século
XVIII mantiveram-se oficialmente as Lojas em prudente posição
de reserva e neutralidade. Porém, no campo cultural,
muitos Maçons franceses contribuíram efetivamente
para o desenvolvimento cultural do seu pais. Foi inestimável
sua colaboraram na compilação, edição
e difusão da famosa Enciclopédia projetada pelos
iluministas Diderot e D'Alembert. Foi graças a colaboração
financeira levantada entre irmãos e amigos que o primeiro
volume pôde vir a lume já em 1751. Isso confirma
que havia muitos adeptos do Iluminismo entre os Maçons.
É provável que a fundação da Grande
Loja da França em 1735 tenha chamado a atenção
do Papado para uma sociedade que se reunia secretamente sem
dar satisfações às autoridades, e tenha
influenciado a condenação da Maçonaria
e a excomunhão dos Maçons pelo Papa Clemente XII
em 1738.
Entre os anos de 1743 e 1771 esteve a Grande Loja da França
sob o Grão Mestrado do conde de Clermont. Apesar de o
número de Lojas continuar crescendo, estes foram tempos
difíceis e agitados, tanto pela desconfiança do
poder real em relação a Maçonaria, agravada
pela condenação papal, como pela falta de organização
interna e de sistematização dos trabalhos. Essa
situação se agravou a partir de 1771 agravada
pela falta de coordenação cada vez maior das iniciativas
muito diversificadas das Lojas.
A 24 de maio de 1773 a Grande Loja da França, para por
fim aquele período de instabilidade e dificuldades administrativas,
foi adotada uma nova constituição, um novo regulamento
geral e o novo nome de Grande Oriente da França. A 22
de outubro do mesmo ano Philippe d'Orleans, duque de Chartres,
foi instalado Grão Mestre da Maçonaria na França.
No ano de 1789, ano da eclosão da Revolução
Francesa, contava o Grande Oriente da França com 635
Lojas, sendo 60 em Paris, 448 nas províncias, 40 nas
colônias, 19 em outros países e 68 Lojas militares.
O Grande Oriente da França por seu ideal de igualdade
e tolerância, por sua posição de livre debate
nas Lojas e por seu universalismo, contribuiu certamente para
a maturação dos princípios de justiça
social durante o século XVIII, embora sempre se tenha
mantido distante de movimentos revolucionários por reformas
políticas por pretender alcança-los pacificamente.
Certamente muitos Maçons podem ter participado ativamente
da Revolução de 1979, mas o fizeram individualmente,
como franceses.
Uma prova dessa neutralidade foi a situação enfrentada
pela Maçonaria durante o período mais cruel da
Revolução, o Terror. Já desde 1791 muitas
Lojas haviam deixado de funcionar e seus membros se dispersado
O próprio Grande Oriente da França permaneceu
em recesso durante todo o período do Terror que foi de
setembro de 1793 a julho de 1794, certamente temendo uma eventual
ação adversa das forças revolucionarias.
Esse recesso causou a desativação maioria das
lojas e a dispersão de seus membros com graves prejuízos
ao excepcional seu ritmo de desenvolvimento anterior a 1789.
Contudo algumas Lojas de Paris e outras das províncias
continuaram suas atividades secretamente. Cessado o período
do Terror retornou o Grande Oriente de França retomou
lentamente a suas atividades.
Após a Revolução o Grande Oriente de França,
encorajado por Napoleão, se tomou de intensa atividade,
particularmente no exército. Em 1805 Joseph Bonaparte,
irmão mais velho do Imperador, foi proclamado seu Grão
Mestre. As Lojas militares se tornaram um eficiente instrumento
de expansão da Maçonaria na Europa continental
e nas colônias francesas, à semelhança do
que havia acontecido na Grande Loja de Londres cujas lojas militares
haviam expandido a Maçonaria para as colônias inglesas.
Em 1814 o Grande Oriente de França contava com 905 Lojas
simbólicas e 314 Lojas dos graus superiores. Em 1853
se estabeleceu em sua sede própria no endereço
da rua Cadet - 16bis, em Paris.
Durante a primeira metade do século XIX a vigilância
exercida pelo governo sobre as atividades do Grande Oriente
de França e de suas lojas, se não inibiu o desenvolvimento
da Maçonaria limitou contudo a sua influencia direta
nas transformações sociais da França. Apesar
disso os ideais democráticos sempre continuaram a evoluir
no recesso de suas Lojas.
O governo da IIª República instalada em 1848 reconheceu
o idealismo democrático da Ordem recebendo solenemente
grandes dignitários do Grande Oriente da França
na Prefeitura de Paris. Na ocasião o republicano-maçon
Granier-Paget, ao falar em nome do governo, proclamou: La République
est dans la Franc´Maçonerie. A partir do segundo
império, instalado em 1852, foi necessário ampliar
o campo social do recrutamento de candidatos buscando-se novos
membros entre os cidadãos da pequena e media burguesia,
consolidando-se assim as concepções politico-democráticas
dos Maçons.
Após a queda do II Império e instalação
oficial da III República a 1871 veio a invasão
da França pelas tropas prussianas sendo proclamada em
18 de março de 1871 a Comuna de Paris. Os Maçons
do Grande Oriente de França foram recebidos no decorrer
de uma cerimonia grandiosa na Prefeitura Municipal pelos cidadãos
Felix Pyat, Beylay, Leo Meillet, membros do governo da Comuna.
A saída da Prefeitura um balão solto, marcado
com os três pontos simbólicos, propagava um manifesto
do Grande Oriente de França pedindo o fim da guerra civil.
Após um ultimo e decisivo encontro em Versalhes com uma
delegação do Grande Oriente de França,
Thiers recusou qualquer acerto. Os Maçons então
se reuniram a 30 de abril na sala Durant de Paris e decidiram
fincar suas bandeiras e suas insígnias sobre as barricadas
frente às tropas de Thiers. Lado a lado com os Comunards
ali lutaram até o ultimo cartucho. O Grande Oriente instalou
uma ambulância em suas posições para socorrer
feridos que estavam sob a mira do furor dos Versalheses de Thiers
que foi afinal feito presidente da República da França.
Após a consolidação da IIIª Republica
em 1873, passaram os Maçons a trabalhar no silencio de
suas lojas e, tendo por lema um ideal de progresso e de paz,
contribuíram para a elaboração das importantes
leis de justiça social almejadas pela nova República.
Logo que essas metas sociais alcançaram a maturidade
política, cuidou a franco-maçonaria de fazer de
suas Lojas recintos de reflexão e de confraternização
para aqueles Maçons que tanto haviam contribuído
para o progresso social da França. Em sua maioria os
Maçons do Grande Oriente de França souberam compreender,
por primeiro, as novas aspirações de uma sociedade
cada vez mais complexa e colaborar na busca dos meios para as
atingir.
No ano de 1877, depois de madura reflexão e cuidadosos
estudos e a vista do pronunciamento favorável da maioria
esmagadora das assembléias de suas Lojas, uma Convenção
do Grande Oriente de França resolveu abolir de sua Constituição
a obrigatoriedade da crença em um Ser Supremo e imortalidade
da alma.
Logo no início da Segunda Guerra Mundial, a 19 de Agosto
de 1940, após a tomada de Paris pelas forças alemãs,
foi decretada pelos invasores a interdição do
Grande Oriente da França que passou a agir na clandestinidade.
A 15 de dezembro de 1943 o Governo provisório da França
estabelecido na Algéria ordenou oficialmente a suspensão
daquela interdição.
Assim os Maçons franceses viveram na clandestinidade
de 1940 a 1943. Durante todo o período da ocupação.
ainda que perseguidos pelos invasores, estiveram sempre ao lado
das forças da resistência e pagaram um pesado tributo
ao seu ideal de liberdade. Libertada a França retomaram
os Maçons a seus trabalhos no ponto em que os haviam
interrompido quando passaram à clandestinidade.
Antes de terminar este resumido relato histórico do Grande
Oriente da França vamos deter-nos em duas explicações
necessárias, uma relação ao Imperador Napoleão,
e a outra em relação a crença em Deus.
O Imperador Napoleão não era Maçom mas
deu apoio valioso a Maçonaria por um aparente problema
de consciência. Ao assinar em 1805 uma concordata com
o Papado visando regularizar o relacionamento do clero francês
com o governo francês, sabia ele estar desagradando os
iluministas cujas teorias filosóficas lhe eram caras.
Para compensar seu ato de liberalidade resolveu apoiar a Maçonaria
na qual sabia estar filiada a nata dos iluministas franceses.
Por outra parte, ao abolir de sua Constituição
a obrigatoriedade da crença em Deus, o Grande Oriente
de França nada mais fez do que seguir a Constituição
da Grande Loja de Londres, de 1723, que em nenhum momento do
seu longo texto mencionou o nome de um Ser Supremo e nem de
um Grande Arquiteto do Universo, apesar de todos os seus primeiros
membros serem cristãos e uma prova disso entre seus fundadores
dois presbíteros muito conhecidos, Desaguliers e Anderson.
Esse ato do Grande Oriente da França não foi uma
declaração a favor do ateismo, mas sim um ato
em favor da liberdade de consciência e de crença.
Condenar os dogmas não é condenar os principios
morais ou religiosos que eles por ventura cubram, mas é
apenas ser contra a sua dogmatização que sempre
foi a arma tanto da opressão religiosa como da opressão
política.
Todas essas lutas solidificaram o Grande Oriente da França
e fizeram dele essa poderosa Potência Maçônica
que todos conhecemos e que tanto admiramos.
|