MAÇONARIA UNIVERSAL


Curitiba, 12 de junho de 2000

Artigos Coluna: Da Doutrina - Sob o comando do Irm Antonio Carlos de Souza Godoi. Or de Mogi Guaçu-SP

( * )Irm Ambrósio Peters.
Or de Curitiba - PR.
Escritor, Historiador Filosofo e Livre Pensador.


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O Grande Oriente da França

Irm. Ambrósio Peters ( * )

Esse é um extrato da história da expansão da Maçonaria Especulativa para os territórios da França compilado a partir de uma brochura intitulada "Qui-Sommes-nous?" (Quem somos nós?), editada pelo Grande Oriente da França (Edições EDIMAF), no ano de l979, tratando-se de informações diretamente compiladas por aquele próprio Grande Oriente.

As primeiras lojas, ao modelo das lojas da Grande Loja de Londres, se instalaram em Paris nos anos de 1725/26, portanto apenas dois ou três anos após a promulgação, em 1723, do Livro das Constituições daquela Grande Loja. Rapidamente as lojas se multiplicaram tanto que já em 1728 elas foram agrupadas numa entidade denominada "Lojas do Reino de França". Cerca do ano de 1735 se criou efetivamente a Grande Loja da França que em 1773 se transformaria no atual Grande Oriente da França.

Essa rápido progresso em Paris se estendeu imediatamente às províncias. Tanto em Paris como nas províncias os iniciados eram quase exclusivamente aristocratas, eclesiásticos, membros da alta burguesia e oficiais militares. A classificação social dos iniciandos deixa claro que no início o recrutamento se restringiu às classes socialmente privilegiadas, como aliás já havia acontecido com os novos membros aceitos na Maçonaria Especulativa da Inglaterra desde o século XVI. O Regulamento

Em relação às novas idéias de reformas políticas que dominaram a França no século XVIII mantiveram-se oficialmente as Lojas em prudente posição de reserva e neutralidade. Porém, no campo cultural, muitos Maçons franceses contribuíram efetivamente para o desenvolvimento cultural do seu pais. Foi inestimável sua colaboraram na compilação, edição e difusão da famosa Enciclopédia projetada pelos iluministas Diderot e D'Alembert. Foi graças a colaboração financeira levantada entre irmãos e amigos que o primeiro volume pôde vir a lume já em 1751. Isso confirma que havia muitos adeptos do Iluminismo entre os Maçons.

É provável que a fundação da Grande Loja da França em 1735 tenha chamado a atenção do Papado para uma sociedade que se reunia secretamente sem dar satisfações às autoridades, e tenha influenciado a condenação da Maçonaria e a excomunhão dos Maçons pelo Papa Clemente XII em 1738.

Entre os anos de 1743 e 1771 esteve a Grande Loja da França sob o Grão Mestrado do conde de Clermont. Apesar de o número de Lojas continuar crescendo, estes foram tempos difíceis e agitados, tanto pela desconfiança do poder real em relação a Maçonaria, agravada pela condenação papal, como pela falta de organização interna e de sistematização dos trabalhos. Essa situação se agravou a partir de 1771 agravada pela falta de coordenação cada vez maior das iniciativas muito diversificadas das Lojas.

A 24 de maio de 1773 a Grande Loja da França, para por fim aquele período de instabilidade e dificuldades administrativas, foi adotada uma nova constituição, um novo regulamento geral e o novo nome de Grande Oriente da França. A 22 de outubro do mesmo ano Philippe d'Orleans, duque de Chartres, foi instalado Grão Mestre da Maçonaria na França.

No ano de 1789, ano da eclosão da Revolução Francesa, contava o Grande Oriente da França com 635 Lojas, sendo 60 em Paris, 448 nas províncias, 40 nas colônias, 19 em outros países e 68 Lojas militares.

O Grande Oriente da França por seu ideal de igualdade e tolerância, por sua posição de livre debate nas Lojas e por seu universalismo, contribuiu certamente para a maturação dos princípios de justiça social durante o século XVIII, embora sempre se tenha mantido distante de movimentos revolucionários por reformas políticas por pretender alcança-los pacificamente. Certamente muitos Maçons podem ter participado ativamente da Revolução de 1979, mas o fizeram individualmente, como franceses.

Uma prova dessa neutralidade foi a situação enfrentada pela Maçonaria durante o período mais cruel da Revolução, o Terror. Já desde 1791 muitas Lojas haviam deixado de funcionar e seus membros se dispersado O próprio Grande Oriente da França permaneceu em recesso durante todo o período do Terror que foi de setembro de 1793 a julho de 1794, certamente temendo uma eventual ação adversa das forças revolucionarias. Esse recesso causou a desativação maioria das lojas e a dispersão de seus membros com graves prejuízos ao excepcional seu ritmo de desenvolvimento anterior a 1789. Contudo algumas Lojas de Paris e outras das províncias continuaram suas atividades secretamente. Cessado o período do Terror retornou o Grande Oriente de França retomou lentamente a suas atividades.

Após a Revolução o Grande Oriente de França, encorajado por Napoleão, se tomou de intensa atividade, particularmente no exército. Em 1805 Joseph Bonaparte, irmão mais velho do Imperador, foi proclamado seu Grão Mestre. As Lojas militares se tornaram um eficiente instrumento de expansão da Maçonaria na Europa continental e nas colônias francesas, à semelhança do que havia acontecido na Grande Loja de Londres cujas lojas militares haviam expandido a Maçonaria para as colônias inglesas.

Em 1814 o Grande Oriente de França contava com 905 Lojas simbólicas e 314 Lojas dos graus superiores. Em 1853 se estabeleceu em sua sede própria no endereço da rua Cadet - 16bis, em Paris.

Durante a primeira metade do século XIX a vigilância exercida pelo governo sobre as atividades do Grande Oriente de França e de suas lojas, se não inibiu o desenvolvimento da Maçonaria limitou contudo a sua influencia direta nas transformações sociais da França. Apesar disso os ideais democráticos sempre continuaram a evoluir no recesso de suas Lojas.

O governo da IIª República instalada em 1848 reconheceu o idealismo democrático da Ordem recebendo solenemente grandes dignitários do Grande Oriente da França na Prefeitura de Paris. Na ocasião o republicano-maçon Granier-Paget, ao falar em nome do governo, proclamou: La République est dans la Franc´Maçonerie. A partir do segundo império, instalado em 1852, foi necessário ampliar o campo social do recrutamento de candidatos buscando-se novos membros entre os cidadãos da pequena e media burguesia, consolidando-se assim as concepções politico-democráticas dos Maçons.

Após a queda do II Império e instalação oficial da III República a 1871 veio a invasão da França pelas tropas prussianas sendo proclamada em 18 de março de 1871 a Comuna de Paris. Os Maçons do Grande Oriente de França foram recebidos no decorrer de uma cerimonia grandiosa na Prefeitura Municipal pelos cidadãos Felix Pyat, Beylay, Leo Meillet, membros do governo da Comuna.

A saída da Prefeitura um balão solto, marcado com os três pontos simbólicos, propagava um manifesto do Grande Oriente de França pedindo o fim da guerra civil. Após um ultimo e decisivo encontro em Versalhes com uma delegação do Grande Oriente de França, Thiers recusou qualquer acerto. Os Maçons então se reuniram a 30 de abril na sala Durant de Paris e decidiram fincar suas bandeiras e suas insígnias sobre as barricadas frente às tropas de Thiers. Lado a lado com os Comunards ali lutaram até o ultimo cartucho. O Grande Oriente instalou uma ambulância em suas posições para socorrer feridos que estavam sob a mira do furor dos Versalheses de Thiers que foi afinal feito presidente da República da França.

Após a consolidação da IIIª Republica em 1873, passaram os Maçons a trabalhar no silencio de suas lojas e, tendo por lema um ideal de progresso e de paz, contribuíram para a elaboração das importantes leis de justiça social almejadas pela nova República. Logo que essas metas sociais alcançaram a maturidade política, cuidou a franco-maçonaria de fazer de suas Lojas recintos de reflexão e de confraternização para aqueles Maçons que tanto haviam contribuído para o progresso social da França. Em sua maioria os Maçons do Grande Oriente de França souberam compreender, por primeiro, as novas aspirações de uma sociedade cada vez mais complexa e colaborar na busca dos meios para as atingir.

No ano de 1877, depois de madura reflexão e cuidadosos estudos e a vista do pronunciamento favorável da maioria esmagadora das assembléias de suas Lojas, uma Convenção do Grande Oriente de França resolveu abolir de sua Constituição a obrigatoriedade da crença em um Ser Supremo e imortalidade da alma.

Logo no início da Segunda Guerra Mundial, a 19 de Agosto de 1940, após a tomada de Paris pelas forças alemãs, foi decretada pelos invasores a interdição do Grande Oriente da França que passou a agir na clandestinidade. A 15 de dezembro de 1943 o Governo provisório da França estabelecido na Algéria ordenou oficialmente a suspensão daquela interdição.

Assim os Maçons franceses viveram na clandestinidade de 1940 a 1943. Durante todo o período da ocupação. ainda que perseguidos pelos invasores, estiveram sempre ao lado das forças da resistência e pagaram um pesado tributo ao seu ideal de liberdade. Libertada a França retomaram os Maçons a seus trabalhos no ponto em que os haviam interrompido quando passaram à clandestinidade.

Antes de terminar este resumido relato histórico do Grande Oriente da França vamos deter-nos em duas explicações necessárias, uma relação ao Imperador Napoleão, e a outra em relação a crença em Deus.

O Imperador Napoleão não era Maçom mas deu apoio valioso a Maçonaria por um aparente problema de consciência. Ao assinar em 1805 uma concordata com o Papado visando regularizar o relacionamento do clero francês com o governo francês, sabia ele estar desagradando os iluministas cujas teorias filosóficas lhe eram caras. Para compensar seu ato de liberalidade resolveu apoiar a Maçonaria na qual sabia estar filiada a nata dos iluministas franceses.

Por outra parte, ao abolir de sua Constituição a obrigatoriedade da crença em Deus, o Grande Oriente de França nada mais fez do que seguir a Constituição da Grande Loja de Londres, de 1723, que em nenhum momento do seu longo texto mencionou o nome de um Ser Supremo e nem de um Grande Arquiteto do Universo, apesar de todos os seus primeiros membros serem cristãos e uma prova disso entre seus fundadores dois presbíteros muito conhecidos, Desaguliers e Anderson. Esse ato do Grande Oriente da França não foi uma declaração a favor do ateismo, mas sim um ato em favor da liberdade de consciência e de crença.

Condenar os dogmas não é condenar os principios morais ou religiosos que eles por ventura cubram, mas é apenas ser contra a sua dogmatização que sempre foi a arma tanto da opressão religiosa como da opressão política.

Todas essas lutas solidificaram o Grande Oriente da França e fizeram dele essa poderosa Potência Maçônica que todos conhecemos e que tanto admiramos.

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